‘O objetivo foi gerar discussão’, diz criador do jogo ‘Fuga da Vila Cruzeiro’

Das 12h de segunda-feira, quando foi publicado, até as 19h30m desta terça-feira, o game “Fuga da Vila Cruzeiro” foi jogado 68.393 – uma média de 36 acessos por minuto. Baseado nas imagens de centenas de traficantes migrando da favela da Penha rumo ao vizinho Complexo do Alemão, o jogo virou hit na internet, fenômeno proporcionado pelas redes sociais. Os jogadores ficaram divididos: uns encaravam como mero entretenimento; outros enxergaram uma chance de extravasar a raiva que nutrem contra os marginais foragidos; uma terceira ala classificou “Fuga…” de “nazista”, “fascista” e entusiasta da barbárie.

Espantado com o sucesso do joguinho, seu criador, o publicitário baiano Neca Boullosa, de 36 anos, sócio da Pindorama Games, diz que já esperava reações extremadas e defende sua criação: “O propósito do jogo é gerar discussão. Deixar o jogador decidir e refletir sobre o que deve fazer: matar ou não matar os traficantes.”

O GLOBO: Como surgiu a ideia para “Fuga da Vila Cruzeiro”?

NECA BOULLOSA: Eu não cheguei a assistir às imagens da TV Globo ao vivo. Vi depois, na internet e nos telejornais. Mesmo tendo ocorrido no Rio, as cenas repercutiram em todo o país. Em Salvador, onde moro, só se falava disso. Como eu trabalho com games, logo vi que aquela situação rendia um jogo, até pela estética das imagens. Então pensei: por que não criar um joguinho em que as pessoas pudessem decidir o que fazer? Ouvi muita gente dizendo que era necessário matá-los. Eu, particularmente, sou contra. Então, queria que o jogo levantasse essa questão.

E como o jogo propõe essa discussão?

O game não tem um objetivo nem um fim. E o placar se divide entre bandidos mortos e foragidos. Logo cabe ao jogador decidir se deve ou não matar os traficantes. Acho que, por exemplo, depois de atirar em 150 bandidos, o internauta pára pra pensar: será que realmente há algum propósito nisso?

O processo de criação do game foi bem ágil, já que se baseia em um acontecimento de quinta-feira, dia 25, não?

Eu tive a ideia no sábado e, junto com um amigo da Pindorama, começamos a fazer o jogo no domingo. “Fuga…” ficou pronto no mesmo dia à noite, mas só o publicamos no domingo. Ao todo, consumiu 16 horas de trabalho. Usamos basicamente dois programas: Adobe Photoshop e Adobe Flash. A parte gráfica foi a mais simples, já que nos baseamos em um frame das imagens da TV Globo.

Você esperava um número tão grande de acessos?

Francamente, não. Inicialmente, o jogo foi pensado apenas com foco no meu círculo de amigos, para gerar uma discussão entre eles. Publicamos o jogo às 12h de segunda-feira e fomos almoçar. Quando voltamos, o game já havia sido jogado mil vezes. Sendo que a divulgação foi feita apenas por meio do nosso Twitter. Por sorte, tomamos a precaução de não publicarmos o vídeo no nosso site, mas sim num site de publicação livre de jogos em flash. Nossa página não suportaria o tráfego, com certeza!

Você esperava as críticas que o jogo recebeu, de que estaria incitando a violência?

Esperava, sim. Tanto que colocamos um aviso, logo no início do game, colocamos um aviso que diz que nosso objetivo não era esse. Que cabia ao jogador escolher o que fazer. Queríamos deixar isso claro. Acredito que o jogo está sendo importante por gerar o debate.

Você é fã de jogos de tiro?

Não, mesmo. Adoro games de corrida. Sempre fui apaixonado por jogos, desde criança, e atualmente jogo Playstation 3.

fonte: O Globo
dica da Cristina Danuta

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