Não se faz história sem história

Robinson Cavalcanti

O renomado pensador anglicano C. S. Lewis, em seus escritos, sempre chamou a atenção para os riscos daquelas gerações que se acham “refundadoras” do mundo, ignorando e desprezando tudo o que a civilização construiu antes dela. Alguns dizem que as mesmas “querem descobrir a roda, ou a pólvora outra vez”. Desde a Reforma Radical que uma expressão do anabatismo como ideologia tem se manifestado nessa visão de uma “apostasia” da Igreja antes da sua geração, com o Espírito Santo “tirando férias” entre a morte do apóstolo João e o nascimento de Lutero, ou o surgimento de algum grupo ou movimento posterior. O “restauracionismo” sempre tem rondado – e tentado – o Cristianismo. Hoje, mais na Igreja do que no próprio século, vive-se a síndrome de uma “geração sem umbigo”, individualista, imediatista, iconoclasta, antinômica e presentista.

Já se afirmou que um povo sem passado é um povo sem futuro e que um povo sem história é um povo sem identidade. Essa manhã, gostaria de reafirmar o caráter uno, santo, católico e apostólico da Igreja de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Gostaria de reverenciar a memória dos santos e mártires de todas as épocas e lugares. Gostaria de reafirmar a “comunhão dos santos”, e, ao mesmo tempo, denunciar como pecado e tragédia esse anti-historicismo, anti-institucional, irracional, irresponsá-vel, de previsíveis trágicas consequências. A honestidade intelectual forçará a nossa consciência reconhecer que “nunca antes na Igreja Evangélica desse País” o seu povo foi tão ignorante e tão preconceituoso em relação à sua história e ao legado dos seus antepassados. Esse é um dos aspectos centrais da crise do protestantismo brasileiro, e não haverá saída sem uma mudança, em que possamos construir o presente, com alvos para o futuro, a partir do passado.

Sabemos que a Guerra dos Trinta Anos, entre Estados Protestantes e Estados Católicos, conduziu a um cansaço cultural que gerou, por um lado, a reação iluminista, o agnosticismo e o materialismo, e, por outro lado, um “congelamento” nos embates apologéticos e nos esforços missionários mútuos, com uma territorialidade confessional oficial ou oficiosamente estabelecida, e um olhar evangelístico voltado apenas para os povos ditos “pagãos”, fossem eles primitivos ou seguidores de antigas religiões não-monoteístas ou não-trinitárias. Daí o protestantismo na América Latina ter sido, desde os seus primórdios, incompreendido, não apoiado, censurado, desvalorizado, por amplos círculos internacionais, até os nossos dias. Foi nesse contexto que a hoje festejada e centenária “Conferência Missionária” de Edimburgo, de 1910, nos excluiu como terra de missão.

Somos vistos, ou tolerados, como os exóticos bem sucedidos, a exceção que deu certo.

Essa manhã, devemos homenagear os pioneiros do protestantismo de missão, tanto estrangeiros quanto nacionais, que, movidos por uma visão, uma paixão e uma doação, aportaram no Brasil na segunda metade do século XIX, pretendendo nos trazer uma fé superior, a democracia e o progresso, em clima de respeito mútuo e cooperação, enquanto procuravam impactar a Sociedade e o Estado, primeiro sob as draconianas restrições legais do Império, depois sob violentas perseguições sociais no período republicano. Aqueles pioneiros – escatologicamente pós-milenistas ou amilenistas – se tornaram abolicionistas, republicanos, defensores da separação entre Igreja e Estado, criadores de uma rede notável de educandários, que marcou vidas e forjou lideranças em todo o território nacional: congregacionais, presbiterianos, metodistas, batistas, episcopais, cristãos evangélicos. Colhemos hoje com alegria o que eles um dia semearam, parafraseando Churchill, com “sangue, suor e lágrimas”.

Nossa homenagem aos “derrotados” na Conferência de Edimburgo, que, inconformados e convictos, organizaram o Congresso de Ação Cristã na América Latina, do Panamá, em 1916, reafirmando esse continente, nominal e sincrético, como terra de missão, e que a missão deveria se fazer em unidade. Nossa homenagem, também, aos brasileiros, como Erasmo Braga, em 1920, a Comissão Brasileira de Cooperação, o Conselho Nacional de Educação Religiosa e a Federação de Igrejas Evangélicas do Brasil, embriões de um movimento pela unidade protestante em terras brasileiras.

Nossa homenagem, ainda, aos visionários, que transformaram aquelas entidades em um dos primeiros organismos nacionais aglutinadores e representativos do protestantismo em todo o mundo: a Confederação Evangélica do Brasil, criada em 1934, com seus vários departamentos, tendo à frente notáveis líderes e pensadores, que escreveram uma epopeia, até a crise que levou ao seu encerramento, no turbilhão de controvérsias ideológicas e teológicas que marcaram o período da chamada “Guerra Fria”, bem como o Golpe Militar de 1964, e o período discricionário que a seguir infelicitou a nossa nação.

Nossa emocionada homenagem aos mortos, aos torturados, aos desaparecidos, aos exilados, aos marginalizados (incluindo nossos fiéis) em um momento de penitência por uma Igreja que pecou ao se deixar instrumentalizar pelos poderes desse mundo.

Nossa homenagem a cada homem e mulher, tantas vezes anônimos, que mantiveram firmes a chama da unidade na verdade, mesmo diante das adversidades e das polarizações, com suas pressões, tentações e riscos internos e externos.

Nossa homenagem àqueles que lutaram por transformar a outra expressão do protestantismo, o de migração, também em protestantismo de missão, em acercamento às igrejas morenas.

Nossa homenagem àqueles que lutaram por retirar o pentecostalismo – ator posterior – do seu isolacionismo, em grande parte consequência da sua escatologia, e dar passos corajosos na direção dos históricos, de missão ou de migração, em uma atitude de mútuo respeito e mútua aprendizagem, inclusive sarando as feridas das controvérsias da “renovação” dos anos 1960. Nossa homenagem particular ao saudoso estadista da Assembleia de Deus Alcebíades Vasconcelos.

Estamos convencidos de que é dessa convergência em torno da ética, da sã doutrina e da missão integral da Igreja, que históricos, migratórios, pentecostais e renovados, poderão reviver e retomar a epopeia interrompida e inacabada, sempre necessária, e sempre urgente, pois sempre no coração de Deus.

Nossa homenagem aos que compareceram ao Congresso de Berlim, em 1966; à fundação da Fraternidade Teológica Latinoamericana, em Cochabamba, em 1970; ao Congresso Lausanne I, em 1974, muitos deles já integrando a Igreja Triunfante.

Lamentamos o longo hiato à causa da unidade, depois do fechamento da Confederação Evangélica. Lamentamos o longo hiato que se seguiu ao Congresso de Lausanne I, por tantos anos incompreendido, por setores polarizados de nossas igrejas. Nossa homenagem ao missionário norte-americano Lawrence Olson, da Assembleia de Deus, responsável pela primeira publicação do Pacto de Lausanne em língua portuguesa.

Sem negar a memória e o legado mais antigo dos CELAs, registramos a importância mais recente dos Congressos Latinoamericanos de Evangelização, os CLADEs, a criação da Comissão Brasileira de Evangelização (CBE) e a realização dos Congressos Brasileiros e Nordestinos de Evangelização. Passos importantes, tijolos vivos, nessa penosa tarefa de reconstrução.

Nossa homenagem aos que tentaram, e deram o melhor de si para a experiência válida que foi, nos anos 1990, a Associação Evangélica Brasileira, a AEvB, cujas principais fragilidades foram a demora para o seu início e o modelo de sua gestão, mas que não podemos nem apagar a história, nem sermos ingratos ao que de positivo se fez, destacando-se o seu “Decálogo do Voto Ético”.

Que lições podemos extrair desse rico passado?

Para mim, após mais de meio século no protestantismo brasileiro, ficaria uma querida palavra da língua portuguesa: saudade. Saudade de quando éramos um número não escandaloso de “denominações”. Saudade quando todos confessavam a sã doutrina. Saudade do sonho comum da unidade. Saudade da seriedade, da reverência, da solenidade, da disciplina (inclusive intelectual). Saudade da ética. Saudade da imagem positiva e da boa reputação. Saudade de quando o termo “evangélico” significava a mesma coisa para todo o mundo. Saudade quanto tínhamos uma representatividade e uma voz ouvida e respeitada. Com diria minha avó, entre suspiros: “bons tempos aqueles…”. E espero que não me entendam nem como um idealista ou um saudosista, mas como quem presenciou e vivenciou experiências, e para elas foi atraído.

Os tempos são outros, os desafios são velhos e são novos, a História está para ser escrita por novos atores, por uma nova geração.

Por um lado, como missionários, estamos presentes em todos os continentes, e temos uma responsabilidade de estreitar relacionamentos tanto com a América Latina, quanto com os países de expressão portuguesa. Temos quadros, recursos e não sabemos o que fazer. Vejo com satisfação a nossa integração à crescente família da Aliança Evangélica Mundial. Com o caos que caracteriza a chamada “comunidade evangélica” brasileira, que nem é comunidade e nem sempre é evangélica, temos que ser modestos em nossa capacidade inicial para aglutinar e agregar. Mas, por outro lado, não podemos nos mover pelo excesso de timidez. Juntemos os que querem se juntar, e juntemos com coragem, vendo a audácia irmanada ao bom senso como virtudes irmãs e inseparáveis.

Necessitamos vencer essa marca maléfica do neo-platonismo com seu anti-institucionalismo. Organismo e organização são duas faces da mesma moeda, dentro do mandato cultural que o Senhor nos confiou. Queremos membros de carteirinha, sem preconceitos contra as carteirinhas…

E, por favor, vençam a marca maléfica do temor de que esse novo foro vá além do intercâmbio e de ações comuns, e assuma o seu papel irrecusável de ser representativo. Não somos a única voz, mas somos uma voz, uma voz respeitável, diante de tantas falsas vozes ou do silêncio culposo da ausência de vozes. Convictos, e sem sentimentos de inferioridade ou de vergonha, de portar o termo “evangélico”, em sua reafirmação da autoridade das Sagradas Escrituras, sua centralidade na cruz de Cristo, na experiência de conversão e no mandato missionário.

Nós, da “velha guarda”, não ficamos apenas nas homenagens ao passado, na saudade, no chamamento às lições vividas, no apontar para um rico legado, para a lembrança de nomes e de feitos – por mais importantes que sejam – mas gostaríamos de viver esse momento a partir de um outro sentimento: o sentimento da esperança. Esperança naquele que faz nova todas as coisas. Esperança na Providência. Esperança no Senhorio de Cristo sobre a História e sobre a Igreja. Esperança na resposta dos que são chamados a tornar o Evangelho relevante para sua geração, promovendo a unidade e a inculturação da Igreja, uma Igreja encarnada e verde-e-amarela, não dividida, não irrelevante, não mimética de modismos forâneos

E como as gerações têm respondido ao chamado de Deus e da História?

Algumas se notabilizaram pela obediência e pela relevância; outras pela desobediência e trágico legado, enquanto algumas, e com frequência, desobedeceram pela omissão.

Que a memória dos nossos maiores antepassados seja dignificada!

Que o Senhor confirme a obra de vossas mãos. E que a bênção do Deus de Abraão de Isaque e de Jacó; o Deus de Kalley, Simonton, Kinsolving e Berg; o Deus de Eduardo Carlos Pereira, de Munguba Sobrinho, de Jerônimo Gueiros, de Aurélio Viana e Lisâneas Maciel, vos abençoe e vos guarde nesse dia e para sempre. Amém.

Oremos:

“Recebe, ó Senhor, nós te rogamos, as orações da tua Igreja, hoje quando nos lembramos dos teus servos e servas, e de sua luta em nosso País em favor do Cristianismo Reformado. Concede a todos nós a coragem desses irmãos do passado, para que lutemos com fé e coragem pela fé uma vez dada aos Santos. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém”.

mensagem pregada na Assembleia de Fundação da Aliança Evangélica, na Catedral Metodista de São Paulo.

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