Por que se importar com o Advento?

Rob Bell

O Natal está chegando. Para alguns pode parecer cedo falar sobre árvores, decoração, presentes e tudo mais. Mas o Natal é o ponto alto do Advento e o Advento é parte do calendário da igreja e o calendário da igreja é algo de que nunca paramos de falar.

Então é sobre isso que vou escrever aqui: Advento. Mas, para falar sobre Advento precisamos falar sobre o som, sobre o tempo e sobre o Espírito.

Primeiro, um pouco sobre o som.

Se você ficar calmo, em silêncio dentro de sua cozinha, poderá ouvir um barulho. É um som contínuo, um ruído muito monótono, sem começo nem fim. Tem pouco alcance. Pode aumentar ou diminuir de volume, mas com alterações raramente perceptíveis. É o mesmo ruído que ecoa continuamente, hora após hora, dia após dia. Se for muito alto, pode dar nos nervos, caso contrário apenas preencherá o ambiente.

Ouve-se um som, quase sempre despercebido, no canto da sua cozinha. É o zumbido da geladeira.

Agora um outro ruído. No momento, estou ouvindo o novo álbum do cantor Jonsi. Já faz algumas semanas que o estou curtindo. Desde os primeiros ruídos da primeira música, percebi que o álbum é cheio de ruídos. Tambores, vozes, piano. Barulhos que começam e param, vêm e vão, ora silenciosos e ora ruidosos. Algumas notas sustentam uma melodia por segundos. O bumbo toca, agora os pratos, as cordas ressoam. Todos aqueles sons trabalham juntos para criar algo atraente, inspirador, bonito, que evoca e confronta muitas coisas. Urgente,  honesto, cheio de esperança ou algo pacífico, com um som impressionante. Ruídos e mais ruídos, mas trata-se de um arranjo especial, intencional desses sons que criam o que chamamos de música.

Dois tipos de ruído, duas variações. Um desses sons chamamos de música e os outros são apenas o zumbido da geladeira.

Em seguida, falemos um pouco sobre o tempo, pois o tempo é muito parecido com o som. A música acontece porque os ruídos e sons, vozes e tambores estão arranjados com uma percepção exata do tempo. A medição do tempo é que divide a música em batidas, dando-lhe uma forma, um fluxo, um padrão, um ritmo.

Todos nós experimentamos o desespero que surge quando nossos dias apenas  misturam despertar com tomar café, escovar os dentes, ir ao trabalho ou escola, mudar as fraldas, lavar a roupa, preencher uma cheque, encher o tanque, cozinhar uma refeição. Dormir para apenas fazer tudo novamente no dia seguinte.

Um dia parece igual ao outro, tudo parece ser sempre igual, a vida parece ser o equivalente existencial do zumbido da geladeira. Isso, naturalmente, nos leva de volta para o Êxodo. (Não esperava por essa, não é?) A história dos escravos hebreus resgatados da mão de Faraó não é apenas sobre o Deus que salva as pessoas de precisarem fazer tijolos todos os dias. Ela fala sobre o Deus que também salva as pessoas de outros tipos de escravidão. Ou seja, aquela que envolve o tempo.

A vida no Egito era apenas  fazer diariamente tijolos para o Faraó, durante  o tempo todo. Tijolos, tijolos, tijolos, comer, dormir, mais tijolos e tijolos. Amanhã será como hoje: tijolos, tijolos…

No entanto, quando os israelitas foram resgatados, Deus deu-lhes ordens. Uma das mais urgentes foi separar o sábado do resto da semana, fazer dele um dia diferente dos outros. Um dia sem tijolos.

Seis dias terá trabalho, mas no sétimo não. Por isso é algo tão fantástico. Deus lhes dá ritmo. Mas não o ritmo do som, é o ritmo do tempo. A vida antes era uma sucessão interminável de setes. Sete, sete, sete… Mas agora, seu tempo é dividido, medido, combinado com uma batida: seis e um, seis e um, seis e um.

Deus é o Deus do ritmo.

Precisamos de ritmo em nosso tempo. É isso o que faz um momento ser diferente do outro. Ele dá forma e cor para toda a vida.

Os primeiros cristãos compreenderam que o tempo, como o som, é melhor quando separado, dividido e organizado em padrões e ritmos. Então eles criaram o calendário da igreja. Uma maneira de organizar o ano, uma forma de trazer variação aos nossos dias, uma maneira de encontrar uma música durante a passagem do tempo.

Pense, por exemplo, na Quaresma. Nas sete semanas que antecedem domingo da Ressurreição devemos praticar a consciência de nossa fragilidade, pecaminosidade e pequenez. Começa na quarta-feira de Cinzas, quando as cinzas devem ser passadas na testa em forma de cruz, uma lembrança tátil de que viemos do pó. De lá viemos e para lá voltaremos.

Você quer realmente viver esse tipo de vida que seca seus ossos a cada dia? Então comece a encarar sua mortalidade, sua fraqueza e sua pequenez. Nós gastamos sete semanas contemplando a mortalidade, o desespero e a dúvida. Entramos nelas com a plenitude do nosso ser, com coração, mente e emoções. Não deixamos nada para trás.

Fazemos isso por uma série de motivos. O principal deles é a simples verdade que o domingo vem depois da sexta-feira. Somente quando você passou por tudo, não apenas o “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” Então estará pronto para celebrar o único tipo de festa da Ressurreição digno da ocasião. No domingo, quando corremos até o sepulcro aberto, batendo nossas tampas de panelas numa explosão de sons que começa com duas palavras contundentes: “Ele ressuscitou”.

Naquele dia, quando todos os amplificadores estão “no talo”.

Mas esse não é o fim. Não deixe seu pastor iniciar uma série de pregações sobre dízimo ou casamento na semana seguinte, pois a ressurreição é apenas o começo. Vamos agora para a época de Pentecostes, a festa do Espírito Santo, aquele que se move de maneiras misteriosas. Jesus não está mais conosco no corpo, está conosco em Espírito. Ele ressuscitou, mas também está aqui, de uma maneira que transcende a linguagem. Reflita sobre isso durante algum tempo, ajuste o seu radar para a presença divina em cada momento de cada dia.

Assim nós estamos indo para algum lugar e estamos vindo de outro lugar. Estamos fazendo isso juntos, como uma comunidade de discípulos, como uma igreja.

Finalmente, então, um pouco sobre o Espírito. Porque o Espírito, ao que parece, é muito parecido com o som e o tempo.

A primeira coisa que  o Espírito faz na criação é o movimento. Isso nos mostra que as coisas mais profundas do Espírito estão em constante movimento, mudando e se transformando. A vida no Espírito é uma realidade dinâmica que nos leva a um amplo leque de emoções, experiências e estados de ser.

Às vezes, estamos exaustos, outras vezes estamos abalados pela dúvida. Às vezes parece que estamos no topo do mundo e tudo está indo bem. Outras vezes estamos em pé no meio dos destroços, cercado por chamas ardentes, imaginando como tudo deu tão errado.

O que o calendário da igreja faz é criar espaço para Jesus vir ao nosso encontro em toda amplitude da experiência humana, para que Deus fale conosco através de todo tipo de coisas boas e os ruins, na alegria e nas lágrimas.

Este é o problema de  cantarmos apenas cânticos de vitória na igreja (muitas vezes pedimos que pessoas tristes cantem músicas alegres). Metade dos Salmos são lamentos.

A matemática deveria nos ajudar ao falar sobre isso. A Bíblia não é uma coleção de cânticos de guerra dos vencedores. É uma coleção variada de textos que refletem uma grande quantidade e diversidade de posturas, humores e perspectivas. Muito parecido como a vida  realmente é. Às vezes você está furioso com Deus, outras vezes loucamente apaixonado por ele.

A questão agora não é apenas como nos tirar do Egito, mas como tirar o Egito de nós.

Resgatando-nos da mesmice, da monotonia, da rotina, lembrando-nos que não importa o que estamos sentindo ou vivenciando. Onde quer que esteja o nosso coração, o Espírito espera para nos encontrar ali.

Isso nos leva ao Advento. Advento é, portanto, uma época. Muitas pessoas conhecem os feriados,  um dia, um ano diferente por algum motivo. O calendário da igreja é dividido em estações, períodos de tempo em que entramos com um clamor específico, uma intenção particular, um motivo.

Advento é o tempo de antecipar o nascimento de Cristo. É quando devemos mostrar o desejo pelo que ainda está por vir. Aquilo que ainda não está aqui. Assim esperamos, ansiosamente. Juntos. Com alguma dor. Porque nem tudo está bem. Alguma coisa está faltando.

Por que o Advento significa muito para mim?

Porque o cinismo é a nova religião deste mundo. Essa religião ensina que nada é tão bom quanto parece. Vão colocar você para baixo. Vão lhe trair.

Essa instituição? Essa igreja? Esse político? Essa figura de autoridade? Todos eles vão lhe decepcionar.

Não importa o que você faça, não tenha muita esperança. Tudo o que você pensa que é, o que parece ser, vai desabar, espere para ver.

O Advento confronta essa corrosão de nosso coração com a insistência de que Deus não abandonou o mundo. A esperança é real e algo bom está por vir.

O Advento invade o templo do cinismo com um chicote de esperança, virando as mesas do desespero, expulsando os sacerdotes dessa religião enganadora, anunciando que chegou um novo dia. Mas ele não será como o dia anterior.

“O que ainda não veio vale a pena”,  sussurra o Advento no escuro.

O velho Simeão ficou no templo segurando o menino Jesus. Estava alegre, pois agora podia morrer. O que ele estava aguardando realmente chegou.

Assim, neste últimos dias do ano, entramos em um período de espera. Esperamos ansiosos. O Espírito nos encontrá em meio à nossa dor.

Pedimos que Deus entre nos lugares mais profundos de nossa amargura, cinismo e dureza, onde deixamos de acreditar que amanhã pode ser melhor do que hoje.

Abrimos nosso coração. Até o amolecemos. Voltamos nosso coração para aquele dia. Aquele dia, quando o bebê inicia seu primeiro choro e nós, rodeados por anjos, pastores e tudo mais, comemoramos aquele som no tempo, que traz ao nosso espírito o que temos esperado.

Rob Bell é pastor da Mars Hill Church em Grand Rapids, Michigan. Também é autor de vários livros e é o criador da série de filme de curta-metragem  NOOMA. Conheça seu trabalho AQUI.

Sua conta no Twitter é @ realrobbell.

Via Relevant

Tradução e edição: Jarbas Aragão. Todos os direitos de tradução reservados.

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