“A galinha [brasileira] é seca e magrinha”

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Fábio Zanini
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Uma galinha magricela entra cantando ao ritmo de “Garota de Ipanema”, e com sotaque que imita até que muito bem o brasileiro.

“Quem quer jantar a galinha que vem importada, que vem fechadinha, você não vê nada, é seca e magrinha, vem cheia de aaaaaaar…”

Eis que chega outra, bem mais gordinha. “Afasta, magricela”, diz, e dá um chega pra lá na concorrente. “Você só tem costela”.

A campanha passa em Moçambique, e é destinada a valorizar o frango nacional. Quem descobriu a pérola foi Amanda Rossi, estudante de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP, que acaba de defender trabalho de conclusão de curso sobre o país da costa leste africana, chamado “A luta continua”.

“O frango nacional é melhor”, conclui o vídeo, produzido pela associação de criadores locais.

Este é um exemplo bem-humorado de um fenômeno africano: a relação por vezes ambígua dos países locais com o Brasil.

Com certeza, ela é majoritariamente positiva para nós. Africanos veem o brasileiro da mesma forma que o resto do mundo, com o futebol no topo da lista de referências.

Mas há mais: uma crença disseminada de que somos uma grande potência, e um espanto todas as vezes em que eu, em diversos países, procurava esclarecer que o Brasil ainda é, em muitos aspectos, um país pobre.

E, desde o governo Lula, o Brasil é também um país que fornece assistência técnica em áreas como saúde, educação, desenvolvimento econômico e agricultura. Moçambique é sede, por exemplo, de uma unidade da Fundação Oswaldo Cruz, referência em tratamento de saúde.

Inevitavelmente, no entanto, essa maior presença brasileira começa a vir acompanhada de uma percepção de imperialismo econômico. Algo que, diga-se de passagem, só tenderá a aumentar. É um processo que ocorre toda vez que um país começa a expandir seus tentáculos, seja EUA, França, China ou Brasil.

No caso do frango, os moçambicanos estão incomodados com a concorrência do produto brasileiro. Mesmo a meio planeta de distância, nossas penosas podem chegar às prateleiras locais mais baratas do que o frango oriundo de algumas centenas de quilômetros de distância.

Contribui para isso o fato de que Moçambique é um país extenso e com infraestrutura ainda precária. Passou 16 anos em uma guerra civil que, embora tenha se encerrado em 1992, continua a se fazer sentir na falta de uma malha de transportes decente. O país cresce, mas distribui pouca renda, e para o produtor rural moçambicano, as condições ainda são difíceis.

A campanha de TV é uma maneira sutil de dar uma estocada em nós, brasucas. Virão outras em breve, em outros países. Continuaremos a ser vistos com simpatia-quase-amor. Mas espere um pouco dessa boa-vontade se dissipando nos anos vindouros.

fonte: Pé na África

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