Internet: fábrica de farsas

Jarbas Aragão

Todo mundo saber que a internet é uma fábrica de farsas. O que muita gente não sabe é que o apóstolo Welder Saldanha não existe na vida real. Ele não tem uma igreja no interior de São Paulo. Se você nunca ouviu falar, saiba que trata-se de (mais) um personagem de ficção da internet. Mesmo assim, muitos sites e blogs reproduziram a brincadeira que foi feita ao atribuir a ele uma declaração sobre o USB ser um símbolo satânico (AQUI).

O autor da “notícia”, que teve repercussão internacional, saindo inclusive no jornal inglês The Guardian (AQUI), é Thiago Caetano, um dos redatores do site Bobolhando. E foi assim, com os bobos olhando e repostando que a brincadeira tomou vulto. O mais engraçado disso tudo é que, mesmo parecendo algo absurdo, foi tratado com naturalidade pela mídia e pelos leitores.

Os comentários dos leitores que acreditaram na farsa foi do simples escárnio até a apologia mais requintada. Afinal de contas, algumas igrejas e pregadores evangélicos são pródigos em oferecer ao mundo ideias tão ou mais absurdas que essa. A “série” do Bobolhando traz ainda uma outra notícia falsa, onde Welter associa o Psi – letra grega que é símbolo da psicologia – ao tridente satânico (AQUI). Possivelmente outras “notícias” como essa ainda surgirão.

Não é o primeiro caso de falsidade ideológica cibernética deles. O mesmo site criou o apóstolo Lima, que dirige a IURG, Igreja Universal do Reino de Google AQUI, e que tem Twitter e canal do Youtube próprios. O pessoal do Bobolhando também fez uma entrevista com Lúcifer (AQUI). Essas matérias do site não tiveram a mesma repercussão por serem uma forma mais escancarada de humor. O que chama atenção no caso do USB satânico é a facilidade que a blogosfera cria e dissemina os chamados “hoaxes”, ou seja, boatos e informações falsas.

Os cristãos, em particular, parecem ser propensos não só a acreditar nesse tipo de coisa, mas também a divulgá-las a título de “protesto”, “denúncia” ou “alerta”. Quem nunca ouviu falar numa entrevista que um dos diretores daProctor & Gamble teria dado a um talk show americano sobre ser satanista? Ou recebeu e-mails com abaixo-assinados pedindo o cancelamento de filmes, peças de teatro ou qualquer coisa do gênero que supostamente fariam alguma ofensa ao nome de Jesus Cristo ou à Bíblia? Por que não há nessas mensagens a indicação de uma fonte externa?

Hoje é praticamente impossível que não haja um programa de TV que não esteja disponível no Youtube. Escrever “saiu na revista” e não dar o link para a matéria é no mínimo duvidar da inteligência dos outros. Em segundos essas farsas podem ser desmascaradas, mas na maioria das vezes não são.

Essas coisas parecem ir e vir, aqui e ali ressurgindo e se disseminando durante anos. Como evitar cair nessas armadilhas? Primeiramente, checando as fontes. Um jornalista ou blogueiro ético e responsável dará crédito e citará suas fontes. Infelizmente, na luta pela audiência, muitos preferem tomar para si o crédito dessas informações “exclusivas” ou “bombásticas”. Quem sempre sai prejudicado é o leitor, que muitas vezes aceita como verdade tudo o que lê.

Em segundo lugar, evite reproduzir, seja por email ou blog,  sem checar sua veracidade. Como isso é possível? Uma simples busca em uma ferramenta de busca apontará se outras pessoas ou veículos de comunicação já noticiaram. Quando todas as citações de uma notícia forem exatamente iguais, é bom desconfiar.

O terceiro passo para evitar cair nessas é verificar a reputação do site/fonte. Quase todos os sites e blog indexam suas notícias com palavras-chaves ou tags. Se entre as tags do texto estiver “humor”, “piada” ou algo do gênero, é melhor desconfiar.

A última dica útil, que talvez deveria ser a primeira, use o bom senso. Que produtora irá deixar de lançar um programa por que uma lista de pessoas que ele não conhece repassou um e-mail? Que tipo de pastor ou ministérioatualmente não pode ser localizado pela internet? Quando uma notícia desse tipo aparecer novamente e você quiser reproduzir busque saber quem é a pessoa citada e que sentido há no que foi divulgado.

Existem sites especializados em desvendar esses “rumores”, como o e-farsas (AQUI).  Sabemos, infelizmente, que a maioria dos blogs não se preocupa com isso, não fornece a fonte primária, não investiga as informações e não usa o bom senso muitas vezes. Pena. Pelo jeito, a internet continuará sendo uma fábrica de farsas por muito tempo.

OBS: Nenhuma empresa distribui laptops, celulares ou dá coisa alguma a famílias com filhos doentes para quem repassa emails. NENHUMA!

 

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