Não quero luxo, nem lixo

Sérgio Pavarini

Rio de Janeiro, o umbigo do Brasil, na definição de uma artista. A ex-mulher de um ex-presidente de um banco estrangeiro desfila sem pudores sua intimidade nas páginas de uma revista. Somente no mês anterior, foram quatro viagens internacionais: um fim de semana em Paris, outro em Budapeste, um terceiro em Roma e o último destino foi Londres. Para ocupar a agenda, jantares, festas e noites em cassinos.

No closet da ocupadíssima senhora, cinco bolsas modelo baguete da Fendi. Indecisa ao escolher as cores no modelo croissant, comprou uma de cada. Quem conferir a etiqueta descobrirá que os artigos dessa padaria de luxo custam de 800 a 5.600 reais.

Uma de suas últimas aquisições foi um trench coat de veludo devorê. Ela precisará viajar bastante, já que o inverno carioca só é glacial na música da Marina. Outra espiada na etiqueta e o susto: 5.900 reais. “Gosto de roupa, mas não precisa ter grife em tudo. Misturo modelos caros com coisas simples”, definiu a socialite.

***

Periferia de Maceió, capital do Estado que num passado recente tornou-se mais conhecido por rebentos que, com perdão do trocadilho, arrebentaram a ética e os cofres nacionais. O nome do bairro já explica parte da história. Brejal, que vem de brejo mesmo. Vielas de chão batido, lama por todos os lados e parte da população do bairro vive literalmente sobre o esgoto.

O Projeto Brejal e a antiga casa de Josefa Maria Vicente Naquele lugar, cujo cheiro é similar ao que emana dos porões de instituições políticas verde-amarelas, não é correto usar a expressão “a céu aberto”. Celestial, no caso, só os anjos de uma ONG que têm mobilizado os habitantes e ajudado o populacho a ascender para a condição de humanos.

O imenso brejo engole as casas simples, com a mesma voracidade que a corrupção engolfa recursos nos meandros do poder. Josefa Maria Vicente foi uma das beneficiadas pelo projeto. Com os próprios braços e a ajuda de vizinhos, construiu sua casa de blocos. Sonho erguido, a heroína faleceu. Fabiana, a filha de onze anos, cuida dos irmãos menores e faz todos os serviços domésticos. O pai devota atenção apenas à cachaça, amante cruel que insiste em jogá-lo novamente para o lugar de origem: a lama.

***

“Era uma vida difícil e atrasada. Bebia muita cachaça, e se pudesse bebia o dia todo. Ninguém dava valor, eu era motivo de piada. Aí, como meu marido tinha problemas de saúde, comecei a freqüentar às reuniões. Foram me dando conselhos, acabei vendo que aquela vida não dava mais e coloquei a cabeça no lugar. Da casa, ninguém cuidava. Eu saía cedo e já ia para o bar tomar “umas doses”. Orei muito, pedi para o divino Espírito Santo me livrar de todos os perigos. Depois, o projeto construiu uma casa muito bonita para minha família. Eles entraram com o material e a comunidade, com a mão-de-obra. Agora, tenho casa nova, vida nova, e as crianças estão felizes. Eu até me casei! Estou trabalhando aqui, graças a Deus. Hoje não sou mais a Maria, sou a dona Maria. Todos me respeitam e respeito a todos.”

(Dona Maria Cícera Pereira da Silva freqüenta há um ano as reuniões do Projeto Brejal. É mãe de dez filhos.)

***

— Como vai indo o guerreiro?

— Não tão bem quanto você, claro. Por vezes penso que o ministério é uma estrada demasiadamente tortuosa.

— Desde os tempos de seminário eu te falo que só é assim para quem quer. Sua igreja é retrógrada e seus métodos são ultrapassados. Enquanto não mudar, vai continuar detonado.

— Respeito a sua linha de atuação, com mensagens curtas e positivas, mas não saberia pregar algo tão…

— Pode falar… raso, não é? As pessoas querem apenas alívio de seu sofrimento e é isso que lhes dou. Com algumas expressões que uso, o peso da carteira delas também é aliviado. (gargalha) E você sofrendo para terminar aquele predinho da escola dominical. Foi uma das primeiras coisas que aboli em minha megaigreja. Estudar a semana inteira e depois novamente no domingo?

— Não posso julgar, mas os novos crentes precisam se preparar condignamente para os embates da vida.

— Brother, com esse palavreado, você vai terminar pregando só para velhos. E não diga que não te avisei.

***

A palavra multimistura caberia bem num artigo para explanar o amálgama de conceitos díspares em voga em algumas plagas evangélicas. Entretanto, existe outro produto com nome semelhante que tem alongado a duração de muitas vidas.

A Visão Mundial e a Pastoral da Criança se uniram para produzir e distribuir a multimistura em algumas regiões. O produto começou como um mingau, utilizado para alimentar as famílias que sofriam com crianças desnutridas. A mistura começou a ser produzida em 1988, com farelo de trigo, pó de folha de macaxeira e casca de ovo. Com o tempo, recebeu girassol, gergelim, amendoim e canela.

O editor experimenta um bolo feito com multimistura A multimistura é rica em ferro, sais mineirais, cálcio, potássio e vitaminas necessárias para o bom desenvolvimento das crianças. Pode-se misturar também arroz, feijão e carne ao produto. No início, a aceitação das pessoas foi difícil, que disseram não desejar comer farelo, pois não eram porcos.

Como todos sabem, a educação é instrumento eficaz para quebrar barreiras e preconceitos. Bastou mostrar o aumento de peso das crianças e as pessoas viram que o preparado era uma alternativa barata de mantê-las bem nutridas. Em dois meses, uma criança desnutrida já começa a se recuperar.

***

— Minha irmã, mas que elegância!

— Ai, querida, você sabe. Nosso corpo é o templo sagrado, por isso devemos usar sempre as melhores roupas. Para a próxima reunião especial comprei algo barato. Vou usar um xale simplezinho do John Galliano (800 reais).

— Aposto que sei onde você comprou…

— Sabe mesmo. E aquele lugar chiquérrimo é território nosso. Já declarei. Sabe que encontrei lá duas aventaizinhas que são irmãs?

— E elas não ficaram escandalizadas com o valor de sua compra?

— Claro que não! Você sabe, as irmãs a-do-ram ver que roupas estou usando. E meu vestoário precisa ser comparável com meu “laifestáilou”. Servimos ao dono de toda prata e ouro. Somos filhas do rei, small princesas…

— Amada, desculpe corrigir, mas é “life stile”, “vestuário” e creio que você deveria retornar às aulas de inglês.

— Olha, você sabe, sou muito ocupada. Mas, pensando bem, você tem razão, é preciso estarmos nos preparando-nos para um ministério globolizado. Como o meu guarda-roupa, você sabe…

***

O Brasil tem cidades conhecidas pelo epíteto que ostentam. É o caso do município de São José da Tapera, no sertão alagoano. A cidade apareceu no rodapé do ranking de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Sempre que é preciso fazer uma referência à pobreza, recorre-se ao município devidamente estigmatizado.

Os índices são estarrecedores. Dos 30 mil habitantes, cerca de 70% são analfabetos e apenas 30% têm água encanada. O índice de mortalidade infantil já chegou a incríveis 300 óbitos para cada 1.000 nascimentos, ultrapassando até países africanos paupérrimos.

Ainda temos a cultura de que Deus quer que a mulher tenha dez, quinze filhos. Enquanto tratamos de um filho desnutrido, a mulher dá à luz mais um filho. “Foi chato termos aparecido na imprensa, mas para o povo foi bom, porque veio muita ajuda”, disse a prefeita Edneuza Pereira Ricardo à Vidamix.

“Conseguimos até um hospital que não tínhamos. Após a ajuda da Visão Mundial, a situação melhorou muito”. Ela se chateia ao reconhecer que a ajuda do governo federal é ínfima, mesmo pertencendo ao partido do presidente. Edneuza enfrenta o descaso da federação e luta para devolver a dignidade à população de São José da Tapera, enquanto tenta esquecer a dor da perda do marido, assassinado.

Leitora da Bíblia, a prefeita sonha encerrar o ano 2000 com o índice da mortalidade infantil caindo para 50. “Mas é muito difícil, pois alguns casos de desnutrição são difíceis de ser recuperados, até mesmo por causa de mães que não ligam para seus filhos”. Para ela, a solução é investir na educação dos habitantes. “Ainda temos a cultura de que Deus quer que a mulher tenha dez, quinze filhos. Enquanto tratamos de um filho desnutrido, a mulher dá à luz mais um filho”, diz.

Um rápido olhar na fila do Centro de Saúde de São José da Tapera desperta emoção até no coração mais pétreo. Os olhos esbugalhados de muitas crianças denunciam que a subnutrição também atingiu a esperança, palavra que muitas delas nunca chegarão a conhecer. O cemitério parece ser o destino traçado pela incompetência e desinteresse da classe dominante/dominadora.

Do lado de dentro do consultório, a mãe com os dois filhos é puro cansaço. O menor jaz quase inerte em seus braços. O outro, já grandinho, repousa no colo de uma vizinha. Sério, o médico examina as crianças e diz que o cuidado com o maior prejudicou o menorzinho, esquecido pela mãe. Ela se esforça para entender o que aquele irmão batista vestido de branco diz e justifica:

— Não consigo carregar os dois, doutor. Ou cuido de um, ou do outro.

Paciente, o médico examina as pernas do filho mais velho. Um elástico grosso no tornozelo tenta dar um mínimo de sustentação aos membros que a pobreza amputou de suas funções. Com a ajuda da garota, eles tentam, em vão, colocar o menininho em pé. O nome dele evoca o de um homem da Bíblia chamado Zaqueu. Ao contrário da narrativa das Escrituras, essa versão nordestina diminuta jamais poderá “descer depressa” ao receber um convite do Mestre. Sequer poderá ficar em pé.

***

— Mas, pastor… Já disse que é difícil colocar um backlight com sua foto bem no meio da favela.

— Você não entende nada mesmo. “A propaganda é a alma do negócio”, como disse John Kennedy.

— Quem?

— Pare de discutir comigo. Aqui neste lugar sou eu que dou os e-mails.

— Não entendi…

— Cartas são coisas do passado. O lance agora é correio eletrônico, rapaz.

— O senhor é muito espiritu… oso. (pensou no contraponto, mas manteve-se silente)

— Então vá e providencie o luminoso. Quero letras garrafais: “Esta favela agradece à Igreja Multimídia pela ajuda à nossa população sofrida”. E não se esqueça de usar aquela foto em que estou com um Armani escuro (2.100 reais). Vai dar um bom contraste.

— É verdade…

***

Entre várias matérias publicadas sobre o município alagoano de São José da Tapera, a Folha de S.Paulo destacou na primeira página um “antes” e “depois” do garoto “Rodrigo”. Na primeira visita da reportagem ao município, ele pesava apenas 3,85 kg, com oito meses de idade. O “depois” mostrava o expressivo ganho de peso do garoto após o trabalho da VM na cidade.

A reportagem da Vidamix foi atrás do Rodrigo e se surpreendeu. Em primeiro lugar, o nome do filho de dona Maria José é Rogério. Quando a matéria foi feita, o jornalista usou o garoto como símbolo, desconhecendo que uma das irmãzinhas de Rogério estava em casa numa situação ainda pior.

Batizada com o mesmo nome da mãe, Maria José não se sentava e mal se mexia. Os holofotes renderam várias conquistas para a família. A prefeitura ajudou a construir uma nova casa e a VM lhes proporcionou a cisterna para armazenar água. Rogério e Maria José estavam com o peso próximo do padrão e até o momento haviam conseguido escapar do destino de outros dois irmãos, mortos pela desnutrição.

Segundo explicação dos médicos que atendem à região, um dos fatores que denota a melhora do estado das crianças é o sorriso. “Crianças subnutridas apresentam permanentemente um semblante apático e triste”, disseram. No colo do editor da Vidamix, Rogério e Maria José mostraram que, sim, o dinheiro compra até um sorriso.

***
Graciliano Ramos nasceu em Quebrângulo, a 120 quilômetros de Maceió. Seu romance Vidas Secas, publicado em 1938, foi um marco na literatura brasileira pela riqueza quase cinemato-gráfica que ele usou para narrar a saga de uma família de retirantes no meio do sertão nordestino.

O escritor cita a rua Pernambuco Novo em uma de suas obras. Essa rua teve o nome trocado para Chico Nunes, em homenagem a um poeta nascido e criado naquele local. A rua foi, e ainda é, uma conhecida área de prostituição. Para as crianças do lugar, um palavrão corrente traduz uma verdade cruenta. À margem da sociedade, os filhos das prostitutas eram até impedidos de se matricular em algumas escolas.

Dois projetos da Visão Mundial são desenvolvidos na Chico Nunes: uma oficina de teatro e outra de reciclagem. Algumas das crianças são apadrinhadas pelo projeto, mas todas, sem exceção, são atendidas. Por meio da parceria entre VM, Unicef e ZWD (Holanda) e a Secretaria de Ação Social do Estado, cerca de trezentas crianças recebem assistência todos os meses.

O rosto maquiado e os trajes coloridos transpõem as crianças para outro mundo. No palco, sonham com as ilusões negadas pela realidade insensível. O grupo teatral se apresenta em locais variados e preserva tradições culturais da região. A discriminação às crianças pertence ao passado. A responsabilidade social fez brotar flores em meio ao pântano. Mais que nunca, a promessa bíblica encontrou um solo fértil para se cumprir. Onde o pecado foi abundante, a graça mostrará pujança ainda maior.

***

Consumidora compulsiva, uma carioca não passa alguns dias sem pisar num local que reúne as grandes grifes do mundo. Ex-dona de confecção, ela é louca por etiquetas. “Funcionários em todas as grandes grifes me conhecem”, disse a uma revista, orgulhosa de tão grande feito.

A etiqueta Louis Vuitton é uma de suas preferidas. Possui trinta bolsas da marca (preço médio de 1.500 reais). Um prosaico chaveirinho com o símbolo da marca custa quase 300 reais.

Não pense que a existência dessa senhora transcorre sem problemas. Como controlar um estoque tão grande de produtos estrelados? Bingo. Ela decidiu fotografar e numerar suas aquisições.

E qual é o sonho dela para o futuro? “Eu me considero consciente nas coisas que compro, mas o meu sonho de consumo é virar uma velhinha só vestindo Chanel, Valentino e Gucci”, revela.

***

Maria Aparecida estava grávida do sexto filho. Em sua casa, um único móvel: a cama, feita de um estrado de pau-a-pique amarrado com vara, sobre um colchão de capim, onde ela dormia com as cinco crianças.

Certa noite, Aparecida sentiu uma protuberância incomodando suas costas. Pensou ser um prego do estrado que estava se soltando e não se importou em olhar. O fato se repetiu por várias noites. Enquanto preparava aquilo que em outras mesas mais abastadas chama-se “refeição”, ela ouviu os gritos de uma das filhas.

— Mãe, corra e venha ver o colchão. Tem um negócio se mexendo dentro dele.

A claridade da luz do dia revelou o perigo. Ao abrir o colchão, Aparecida levou um susto enorme. Descobriu ali um ninho com duas cobras corredeiras. A maior delas já passava de meio metro de comprimento. Com o choque, Aparecida perdeu a criança.

Alcançada pelos projetos da VM, ela agora possui uma casa nova. Recebeu doações da prefeitura e os vizinhos ajudaram com mão-de-obra. Tímida, a mulher conta sua história, enquanto os filhos não param de examinar o carro, algo não muito comum naquela lonjura do sertão alagoano.

O visitante impertinente quer saber a extensão dos desejos de dona Aparecida. Só após alguma insistência, ela desnuda sua ambição.

— Meu filho, queria muito cimentar o chão de casa. O senhor sabe, faltou alguns real.

Com a ajuda dos cicerones, foi possível descobrir o custo do sonho: 30 reais. Bem menos que o valor da camiseta do perguntador. A casa de dona Aparecida já está cimentada.

“Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso, e não te assistimos? Então lhes responderá: Em verdade vos digo que sempre que deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer. E irão estes para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna” (Evangelho segundo Mateus 25.44-46)

***

Praia de Ponta Verde, na maravilhosa orla de Maceió. O vento agradável agita os coqueiros, proporcionando um tremendo cartão postal ao vivo. Sob um quiosque, as cenas vistas nos três dias de andanças em Alagoas começaram a desfilar na minha mente em slowmotion.

Uma multimistura de sentimentos tomou conta de mim. Dentre eles, a indignação por tantas verbas públicas desperdiçadas, pelo descaso dos coronéis, que se vestem nas lojas citadas mas continuam com o mesmo modus operandi nefasto.

Mesmo correndo o risco de ser tachado de piegas, confesso que os abraços e sorrisos que recebi daquelas crianças nunca poderão ser deletados de meu HD. Nunca. A paixão que os guerreiros da ONG nutrem pelo trabalho desenvolvido traduz com perfeição o que é ser sal e luz neste país, em que a mãe gentil por vezes se revela uma madrasta assassina. A esperança está no Pai. Jesus prometeu vida em abundância. Para conhecer a abundância, é preciso primeiramente estar vivo.

Os óculos escuros disfarçavam as lágrimas, enquanto prometia a mim mesmo ver aqueles rostinhos outra vez. Orei a Deus reconhecendo naquele instante o maior de todos os sentimentos: a impotência. “Pai, que a tua voz suave fale mais alto que a minha verborragia. Nada tenho a não ser a minha pena”. Pensando bem, não é pouco.

reportagem publicada na Vidamix no ano 2.000.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Não quero luxo, nem lixo

Deixe o seu comentário