O futuro da internet é personalizar

Jenna Wortham

Quando perfis na web eram anônimos, usuários podiam separar melhor suas vidas online e offline. Agora a presença num site de namoro pode levar a sites como Foursquare, Twitter e Facebook

Antes de escrever um artigo sobre um site de relacionamentos, eu me inscrevi nele para avaliar o serviço. Quando terminei de escrever, não apaguei o meu perfil. (Tendo me separado recentemente, imaginei que não seria mal ver se algo interessante podia surgir.)

Então, uma mensagem um tanto estranha chegou à minha conta. “Engraçado como duas identidades discretas online podem se cruzar tão facilmente por coincidência”, dizia. Meu admirador digital disse que me reconheceu de outro site, o Foursquare, a rede social móvel que permite aos usuários divulgarem onde estão para seus amigos. Ele oferece o status de prefeito para os clientes mais assíduos de bares e restaurantes; eu recebi a coroa num restaurante de sushi. Quando meu admirador foi pesquisar o restaurante no Foursquare, apareceu uma nota que declarava meu status de prefeita, junto com minha foto e meu nome. Ser contatada por um estranho não me alarmou; isso faz parte da beleza de sites como o Twitter e o Facebook, que podem ajudar a construir novos relacionamentos em torno de interesses e amigos em comum. Mas a inesperada possibilidade de romance me pegou de surpresa. Eu não tinha certeza sobre como proceder. Será que deveria encontrá-lo para um drinque? Perguntei aos meus amigos.

“NÃO!”, disse um deles exaltado numa mensagem de texto; outro deu de ombros, perguntando-se porque eu estava preocupada por ter sido descoberta. Afinal, eu vivo online sem muitos problemas. O Facebook e o Twitter, além do Foursquare, Tumblr e Instagram, são apenas a ponta do iceberg. Ainda assim, eu não esperava que fragmentos de minha persona online colidissem entre si dessa forma desagradável. Eu deixei de lado as informações específicas sobre mim, primeiro para observar o site de relacionamentos sem ser detectada, depois para me reinventar como uma solteira desejável.

No final, eu não fui ao encontro. Eu queria me apresentar para um estranho bonito no meu próprio ritmo, em vez de ser exposta de uma só vez. Eu não era capaz de aceitar o enorme desequilíbrio de poder e informação que veio junto com a mensagem: ele sabia tanto sobre mim, e eu não sabia nada sobre ele.

Mas a experiência levantou uma questão que eu não era capaz de abandonar. À medida que as identidades digitais se tornam cada vez mais persistentes por toda a internet, ainda é possível alguém se reinventar online?

“Todos nós estamos passando pela experiência desconfortável de descobrir quanta informação sobre nós mesmos colocamos na rede”, diz Ethan Zuckerman, pesquisador do Centro Berkman para Internet e Sociedade em Harvard, que estuda a expressão online e o mundo digital. “Enquanto cuidamos casualmente da nossa vida, estamos deixando vazar todo tipo de informação que alguém pode usar para juntar o quebra-cabeça.”

Essas colisões desconfortáveis entre as vidas que vivemos online e as vidas que vivemos longe do teclado devem crescer em frequência. Mas pode haver questões maiores do que desejar manter secreto o seu perfil num site de relacionamento, diz Zuckerman, como lutar para proteger a identidade de um informante político ou de uma vítima de abuso. Guardar o anonimato fica cada vez mais difícil à medida que a população da interne fica cada vez mais interconectada.

“É muito difícil ficar fora do radar enquanto se usa todas as ferramentas da internet”, diz Zuckerman. O desafio, segundo ele, é compreender como a tecnologia pode persuadir os usuários a compartilharem mais do que eles fariam normalmente.

As companhias que fazem negócios online cada vez mais moldam seus sites para cada usuário. A Netflix, Amazon e Pandora consideram as preferências de cada um para tornar seus serviços mais úteis. O mesmo vale para o Facebook e o Google, que analisam o seu comportamento ao clicar e navegar para personalizar os links e informações que você vê, baseado na informação que você compartilha.

“O futuro da internet é personalizar”, diz Amit Kapur, diretor-executivo da Gravity, uma companhia  de Santa Mônica, Califórnia. “Isso está levando a uma mudança de paradigma que transformará a internet deles, para nossa, para sua.”

Gravity, uma ferramenta que “extrai os seus interesses do Facebook e Twitter para apresentar coisas de toda a internet para você”, está ajustando seu software, diz ele, com o objetivo de realizar funções como oferecer melhores recomendações de restaurantes e alimentar leitores de notícias personalizados. Esses serviços ajudam as companhias a personalizarem seus anúncios para os consumidores na internet.

Isso pode ser bom para as empresas, mas o que nós perdemos quando não podemos mudar e nos transformar através de nossas personas online? Há algo deliciosamente libertador em esconder seu próprio eu e criar uma identidade nova em folha. É por isso que os jogos online de múltiplos jogadores como o Wolrd of Warcraft floresceram e por isso que o site de conversa anônima em vídeo Chatroulette catapultou em popularidade.

O caso mais comum contra o anonimato é que ele dá margem ao mau comportamento online, permitindo que o integrante mais dócil da internet se transforme de um Dr. Jekyll num Mr. Hyde. E embora este seja um verdadeiro problema, alguns defensores do anonimato na internet, como Christopher Poole, fundador de uma comunidade online chamada 4chan, diz que as pessoas deveriam ser capazes de separar suas identidades online e offline. “Sempre há uma necessidade”, diz ele, “de ser capaz de entrar numa conversa, e se sua contribuição for julgada pelo mérito e não por quem você é.”

Poole e outros empresários estão tentando devolver à internet algumas camadas de anonimato. Ele diz que está fazendo isso com uma nova companhia, a Canvas Networks, que experimentará com uma comunidade online que permite esconder a identidade. Outros estão criando ferramentas e buscando espaços para preservar a discrição na internet. Por exemplo, uma ferramenta chamada Disconnect impede os ataques de terceiros enquanto se está navegando na internet. E um motor de busca chamado DuckDuckGo não coleta o histórico do browser ou nenhuma informação pessoal identificável, dizem seus criadores.

B.J. Fogg, psicólogo de Stanford, sugere que no futuro, as pessoas não navegarão pela internet sem serem percebidas ou mudarão de identidade tão facilmente quanto de fantasia de Halloween.

“As pessoas não voltarão a abrir mão de tudo e viver suas vidas online”, diz ele, acrescentando que há uma mudança evolutiva para uma abertura online maior a caminho.

“O gênio está fora da lâmpada”, diz ele.

Talvez Fogg esteja certo, e as demandas para um estilo de vida digital colocaram uma transição cultural maior em movimento. Mas há uma espécie de resistência se formando, e os indícios disso eu posso ver na página de Facebook da minha sobrinha de 13 anos. Ela e suas amigas costumam usar apenas apelidos fofos para identificar a si mesmas online, e as únicas fotos de perfil que colocam ficam quase irreconhecíveis por causa desenhos de corações e brilhos. Talvez seja um início.

Fonte: New York Times/ UOL
Tradução: Eloise De Vylder

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for O futuro da internet é personalizar

Deixe o seu comentário