Nasce o menino

Frei Betto

25 de dezembro de 1. Jacó  acordou tarde. Chegara cansado, na véspera, da viagem que o trouxera de  Cafarnaum a Belém. Viera convocado pelo recenseamento decretado pelo imperador  Tibério. Cada cidadão deveria retornar a seu lugar de origem.

Para  Jacó, tratava-se também de uma oportunidade de deitar uma vista d’olhos na  pequena propriedade rural que mantinha nas cercanias da cidade de Davi. Ali  nascera, ali nutria o sonho de terminar seus dias, longe da azáfama comercial  que o prendia à Galileia.

Zacarias, o capataz, correu esbaforido  em direção ao patrão, tão logo o viu espreguiçar à beira do poço em busca de  água. Aguardara ansioso que Jacó despertasse. Queria, o quanto antes,  colocá-lo a par do que ocorrera na propriedade ao longo da  madrugada.

― Tens cara de não haver cerrado os olhos esta noite,  Zacarias! – observou Jacó.

― É verdade, patrão. Tive uma noite  muito atribulada.

― O que sucedeu, homem? As ovelhas romperam a  cerca?

― Que nada! Já a noite ia adiantada, quando empunhei o  candeeiro para verificar se tudo andava em ordem na propriedade. Eis que  avistei dois vultos próximos ao curral.

― E quem eram os  intrusos? Ladrões de animais? Tratou de expulsá-los?

― Era o que pretendia fazer, patrão. Mas ao me acercar do curral, vi que a mulher estava  grávida e já se dobrava às dores do parto.

― O que fizeste, homem?

― Acomodei-a com o marido junto ao cocho das ovelhas.  Corri à casa em busca de bacia, água quente e panos limpos. Logo ela deu à luz  um lindo bebê.

― Macho ou fêmea?

― Macho,  patrão.

― E passaram a noite aqui?

― Sim, e tão logo o menino nasceu surgiu no céu uma estrela tão brilhante que meu candeeiro já  nem tinha precisão. E chegaram três cameleiros.

― Cameleiros! Que diabos vieram parar aqui?

― Disseram ter vindo do Oriente  conduzidos pela estrela brilhante. Queriam adorar o salvador.

―  Que salvador, Zacarias? Tua cabeça não te confundes por falta de  sono?

― Acho que se referiam ao Messias esperado por  Israel.

― Ora, então achas que o Messias viria a nós como um  intruso invasor de terra alheia? Um deus sem eira nem beira?

―  Não acho nada, patrão. Sei apenas que vi um dos cameleiros oferecer ao menino  um punhado de ouro; outro, um pouco de incenso; e o terceiro,  mirra.

― E sabes quem são os pais do menino?

― Logo  que os cameleiros partiram, fui à cidade em busca de pão. Na fila do forno de  Tobias, comentei sobre o casal e o parto. Neemias, a quem nada passa  despercebido, me contou que o pai, um tal de Zé, é natural de Belém. Há tempos  deixou a região e se empregou como carpinteiro lá pras bandas de Nazaré, na  Galileia. Andava de namoro com Maria, a mãe do bebê. O casamento nem sequer  tinha sido anunciado, quando ela apareceu grávida. Neemias desconfia de que o  filho talvez nem seja do próprio Zé. O fato é que este apareceu aqui atraído  pelo censo e buscou abrigo em casa de seus familiares. Ao verem a barriga  avantajada de Maria, seus parentes consideraram uma pouca vergonha Zé ter  vindo com a moça, pois nem casamento houve. Bateram-lhes a porta na  cara.

― Deve ser por isso – ponderou Jacó – que vieram parar aqui  no meu terreno.

― Com certeza, patrão. A moça já chegou que não  se aguentava.

― E ainda estão por aí?

― Dei feno ao burrico que montavam e, hoje cedo, partiram no rumo do Egito.

―  Melhor assim, Zacarias. Receio essa gente sem terra que entra sem licença na  propriedade alheia. Se a moda pega… Também vou partir, Zacarias. Sele meu  cavalo. Tenho audiência com Herodes em Jerusalém. Direi a ele que o Messias  nasceu em minhas terras. Garanto que se divertirá com a  notícia…

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem  chamado Jesus” (Rocco), entre outros  livros. www.freibetto.org<http://www.freibetto.org>  – twitter:@freibetto

 

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