Haitianos “celebram” o Natal em meio a lembranças do terremoto

Leandro Prazeres

A Igreja de Saint Pierre, em Pettion Vile, estava cheia, mas não lotada. Depois que o terremoto de 12 de janeiro destruiu mais de 20 templos da Igreja Católica na região metropolitana de Porto Príncipe, incluindo a imponente Catedral Sacre Ceur, imaginava-se que a missa de Natal fosse lotar a igreja de Saint Pierre. Mesmo com lugares sobrando, Yvone Charlie, 47, estava do lado de fora. Não tinha ido rezar, mas pedir esmola. Sentou-se nas escadarias da igreja com os três netos, enrolou-os em uma manta e começou a pedir. Ao lado dela, dezenas de mendigos fizeram o mesmo na noite de natal haitiana.

Yvone diz que é a primeira vez que se punha a pedir esmolas. Sua filha, mãe das crianças, conseguia sustentar bem a família comprando e vendendo mercadorias importadas de Miami, atividade muito comum no Haiti, país a pouco mais de uma hora de vôo da Flórida. Mas o terremoto acabou com tudo. Matou a filha e destruiu a casa. Tirou a família da pobreza e a levou para a miséria.

Agora, Yvone tenta cuidar dos netos em um campo de desabrigados na região de Cabaret, nas cercanias de Porto Príncipe. “Nunca pensei que um dia eu iria passar o Natal desse jeito. Não comi nada na ceia de Natal. Não tinha o que comer”, disse Yvone com Marie Michele Charlie, 2, no colo, adormecida.
Pelas ruas de Pettion Vile, pequenos lumes de velas e candeeiros formam um pisca-pisca ao longo da Rue de Frére. São mulheres que encaram o frio da região montanhosa ao lado das mercadorias que venderão no dia seguinte na verdadeira feira em que se transformou a cidade. Não estão ali para começar a trabalhar cedo. Estão ali porque não têm para onde ir. Centenas passaram o Natal assim.

Não muito longe, um grupo de haitianos deixa o tempo passar jogando dominó. Uma luz fraca e amarela ilumina a pequena mesa em que Joseph Olesse, 47, tenta esquecer que aquele é seu primeiro Natal sob uma barraca. Ele foi um dos mais de um milhão e meio de haitianos, divididos em 1,3 mil campos em todo o país tenham passado no natal embaixo de lonas.
A ceia de Natal de Olesse e sua família foi modesta. Desempregado como 80% da população haitiana, não conseguiu dinheiro para dar à família uma noite melhor. Uniu-se a outros desabrigados e conseguiu um pouco de arroz, frango frito e banana verde frita. Mas tudo junto ainda era pouco. Só na família de Olesse são 10 integrantes. Enquanto conversava com a reportagem, ele segurava um maço de folhas verdes de uma planta que não sabia dizer o nome. “Me disseram que é bom para comer e que passa a fome. Vou tentar”, disse.

Enquanto Olesse comia suas folhas e Yvone pedia suas esmolas, a cerimônia de Natal na Igreja de Saint Pierre era carregada de emoção. A maior parte do culto foi realizado às escuras. Não que não houvesse energia, mas por tradição. O fato é que a pouca luz na igreja deu um ar mais intimista à cerimônia.

Os mais abastados, percebidos pela roupa e por um certo ar blasé, sentavam-se mais a frente. Os mais pobres, como que se escondiam nos bancos laterais e no fundo da igreja. “Esse culto tem uma importância muito grande para nós. É nele que vamos renovar nossas esperanças espirituais porque essa é a mensagem do Natal. Nosso país foi afetado por uma catástrofe terrível, mas vamos superá-la”, afirma o padre Michael, um dos auxiliares do clero haitiano.

Papai Noel existe?
Sozinhos, à espera dos primos maiores, os primos Jovan e Ralph, 12, estão de pé em uma esquina em frente à praça Boyer. Sozinhos, observam o movimento dos utilitários japoneses das Nações Unidas que circulam com funcionários em busca de diversão na noite caribenha.
O Natal em Porto Príncipe, é, antes de qualquer coisa, uma data em que eles saiam às ruas para comemorar. Uma prévia do Ano Novo. Na noite de Natal, todas as boates de Pettion Vile estavam funcionando a pleno vapor.
Jovan e Ralph moram em campos de desabrigados separados, mas haviam passado o Natal juntos. Dizem que não ganharam nenhum presente, mas que ainda acreditam em Papai Noel. Pergunto então, se eles haviam deixado de ganhar presente do “Papai Noel” alguma outra vez. Jovan, se cala. Ralph responde. Diz que sim. Outras três vezes. “Então por que ele ainda acreditava em Papai Noel?”, perguntei. “Porque ele existe. Acho que os brinquedos dele acabaram antes de chegar na minha vez. Só isso”, explica.

Celebrar o quê?
Sentada em uma cadeira de balanço, Edwidge Moise,62, celebrou a vida desafiando a morte. Ela mora em uma pequena casa de alvenaria no Centro de Porto Príncipe. Em sua rua, dezenas de casas foram destruídas, mas a dela permaneceu de pé, mas não sem avarias. Os técnicos do governo haitiano colocaram-lhe uma marca vermelha no muro.

A cor indica que a casa está “condenada” e não pode ser habitada. Mas para onde uma desempregada como ela poderia ir se até os filhos moram com ela? Depois de viver durante três meses em uma barraca, decidiu encarar os riscos e voltou para a casa. “Esses rapazes não entendem nada. Minha casa não tem teto de concreto. Não tem peso e por isso não vai cair”, disse parecendo ignorar que as paredes laterais de sua casa também estão comprometidas.
Pela primeira vez em mais de 30 anos, Edwidge não poderá ir à missa da Catedral da Sacre Ceur. “Todas as igrejas aqui do Centro foram destruídas. Montaram um barracão aqui perto, mas tenho medo dos bandidos, que desde o terremoto, aumentaram muito”, lamentou.

“Meu povo não tem muito o que comemorar neste Natal. Foi terremoto, furacão, cólera e agora essa confusão na política. Como ficar feliz assim?”, diz a senhora que sobrevive com o pouco que consegue vender das mercadorias que uma parente lhe manda dos Estados Unidos (há quase 4 milhões de haitianos no exterior). Embalando-se em sua cadeira, ela supera a tristeza e agradece. “Apesar de tudo o que aconteceu ao meu país, eu tenho que agradecer. Minha casa ainda está de pé, e eu ainda estou viva. Não sei até quando”, disse esboçando um sorriso.

Fonte: UOL

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