Quão ingrata deve ter sido a vida

Certos defensores da Reforma tomam outro caminho, e asseguram que ela se assemelha ao Renascimento em que veio para matar o ascetismo dos tempos médios, e restituir à vida todas as suas alegrias. Em primeiro lugar, é um erro vulgaríssimo, já refutado por Ozanam, o de considerar a Idade Média como época de flagelamentos e martírios, sendo que no âmbito profano tinha trovadores e malabaristas, e costumes cavalheirescos e rústicos de muita poesia, e lendas épicas e devotas de extraordinária beleza, e festas e regozijos contínuos, e no religioso ordens mendicantes, cujos fundadores professavam o mais simpático e profundo amor à natureza. Além disso, como pode alegrar a vida um culto iconoclasta, frio e árido, que nada concede à imaginação nem aos sentidos, e priva a arte de metade do seu domínio? Quão ingrata deve ter sido a vida naquela república de Genebra, tal como a organizou Calvino, sem festas nem espetáculos, e onde tudo estava regulamentado, até as vestimentas e as comidas, à moda dos antigos espartanos, com um tribunal de censura para os atos mais insignificantes?

Texto de Menéndez y Pelayo publicado no blog A Bacia das Almas

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