“Congresso da chatice” reúne entusiastas do tédio

Gautam Naik

“Preparem-se para cinco quentíssimos minutos de inércia”, disse William Barret. Ele então começou a recitar os nomes de cada uma das 415 cores listadas num catálogo de tintas: sonho de ameixa, delfim, amarelo sala de estar, salmão morto… e assim por diante.

O discurso de Barret foi intitulado “Como ouvir a tinta secar” e, a julgar pelos rostos de cansaço do público, foi um sucesso. Ele estava falando, afinal de contas, numa conferência de entusiastas do tédio chamada Chatice 2010, realizada em 11 de dezembro.

Durante sete horas naquele sábado, 20 palestrantes discursaram sobre uma gama de digressões obscuras que iam de “A intangível beleza do estacionamento nos telhados” e “Reflexões pessoais sobre o café da manhã inglês” a “O empate no críquete Test” e “Minha relação com as rotas de ônibus”. Enquanto isso, alguns dos 200 participantes — cada um pagou 15 libras, ou uns R$ 40, pelo ingresso — tentavam não cochilar.

Surpreendentemente, muitos não cochilaram. “É algo essencialmente inglês olhar para algo chato como uma poça d’água e achá-la interessante”, disse Hamish Thompson, que administra uma empresa de relações públicas e estava na plateia.

[Tédio]Rhdri Marsden, um dos palestrantes de Chatice 2010, fala sobre o empate no críquete.

Chatice 2010 é obra de James Ward, de 29 anos, que trabalha para uma empresa de distribuição e produção de DVD. Em sua outra vida, como o enviado do tédio, Ward edita o blog “I like boring things” (Eu gosto de coisas chatas). Ele também é um dos fundadores do Clube da Papelaria, cujos 45 integrantes se reúnem ocasionamente para discutir canetas, clipes e Post-its.

Para outro de seus projetos, Ward visitou, nos últimos 18 meses, 160 lojas de conveniência em Londres e fez notas cuidadosas sobre a popular barra de chocolate Twirl, incluindo a disponibilidade do produto, preço e condições de armazenamento. Ele publica os detalhes on-line.

O tédio se tornou um assunto sério para a pesquisa científica. Por exemplo, um estudo de 25 anos sobre servidores públicos ingleses publicado este ano mostrou que chato de morrer pode não ser mera metáfora. Pessoas que reclamam de “altos níveis” de tédio nas suas vidas têm o dobro de chances de morrer de um derrame ou doença do coração, concluiu o estudo.

O “Instituto da Chatice”, que fica em South Orange, Nova Jersey, começou como uma brincadeira. Seu website diz que agora desempenha um papel mais sério descrevendo “os perigos que estão associados a muito tédio e oferece conselhos sobre como evitá-lo”.

Diga isso aos fuzileiros navais americanos. É um fato bastante conhecido que soldados que sofrem de traumas de guerra no campo de batalha têm risco maior de mostrar comportamento antissocial, como entrar em brigas ou negligenciar suas famílias, quando voltam para casa.

Mas uma pesquisa com mais de 1.500 fuzileiros navais americanos, publicada em setembro no jornal “Agressive Behavior”, sugere que sofrer de tédio pode ser um fator de risco maior para tal comportamento do que o trauma de guerra.

Chatice 2010 nasceu quando Ward ouviu que um evento chamado “Conferência Interessante” havia sido cancelado. Ele publicou uma piada no twitter sobre a necessidade de se ter uma Conferência da Chatice no lugar. E se surpreendeu quando dezenas de pessoas responderam com entusiasmo.

Logo ele estava traçando planos para o primeiro encontro do tipo. Os primeiros 50 ingressos para Chatice 2010 foram vendidos em sete minutos.

“Acho que a piada é comigo”, disse o descontraído Ward. “Criei essa armadilha e não há saída.”

Os procedimentos para o esgotado evento foram iniciados pelo próprio Ward, que discutiu sua coleção de gravatas à exaustão, acompanhado por uma apresentação em PowerPoint.

Ele observou que até junho de 2010 ele possuía 55 gravatas e que 45,5% delas tinham uma única cor. Em dezembro, a coleção havia crescido 36%, apesar de a quantidade de gravatas com única cor ter caído 1,5%.

“As gravatas estão se tornando ligeiramente mais coloridas”, notou. Também, aparentemente, seu gosto está melhorando. Em dezembro, apenas 64% das gravatas eram de poliéster, ante 73% em junho.

Ainda menos comovente foi uma degustação de leite. Ed Ross, um ator, girou, cheirou e provou cinco diferentes tipos de leite em taças de vinho, comentando o sabor, as sensações finais e o “alimento adequado” para acompanhar cada um. (Cereais foram muito mencionados.)

Um discurso ansiosamente aguardado foi sobre a meticulosa — e ainda em andamento — contagem de espirros do escritor Peter Fletcher. Com a ajuda de gráficos e quadros, Fletcher revelou ter espirrado 2.267 vezes nos últimos 1.249 dias, ganhando assim “um profundo entendimento da passagem do tempo”.

“Eu cheguei mesmo a espirrar quando registrava um espirro”, disse.

Karen Christopher, de Chicago, que agora vive em Londres, encontrou pelo menos uma apresentação tão enfadonha que ela parou de prestar atenção. “Em vez disso comecei a pensar sobre os procedimentos da polícia sueca”, disse ela.

Os organizadores fizeram o melhor para manter a plateia alerta. Muitos espectadores compraram café, e cada um recebeu uma sacola contendo uma barra energética.

Depois de um muito necessário intervalo, foi feito um sorteio. Alguns dos ganhadores levaram um DVD chamado “Helvetica”, um documentário de 2007 sobre tipografia.

Para agitar as coisas, Ward e seus colegas criaram um quebra-cabeças de 1.000 peças com caixas de cereais inglesas da década de 70. Cada participante recebeu algumas peças e um pedido para completá-lo.

Apesar de todas as brincadeiras, a conferência ocasionalmente foi do ridículo para o filosófico.

A jornalista e autora Naomi Alderman falou da dificuldade de ter que observar o Sabá judeu quando criança. A palestra dela, “Como é fazer quase nada interessante por 25 horas por semana”, terminou com uma inesperada e tocante observação. “Quando aprendemos a tolerar o tédio”, disse ela, “descobrimos quem realmente somos.”

Para chegar à conferência, Jo Lee enfrentou uma hora de viagem de trem da cidade litorânea de Brighton. Ela disse que valeu a pena porque tinha a ideia de como é divertido tirar fotos aletórias de marcas deixadas nas paredes e de chicletes grudados embaixo de mesas.

“Somos todos superestimulados”, disse Lee. “Acho que é importante parar tudo um pouco e ver como é se sentir entediado por várias horas.”

Ela terá sua chance outra vez no ano que vem, quando Ward planeja o Chatice 2011. Ele espera incluir um discurso que não entrou na relação deste ano: “A facilidade de tirar eletricidade de prédios municipais e além: uma comparação.”

É sobre tomadas elétricas.

Fonte: The Wall Street Journal

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