O reservado dono do indiscreto Twitter

Jonathan Guthrie

Quando encontro Biz Stone, cofundador e face pública do site de microblogging Twitter, para um almoço no restaurante Cherwell Boathouse, em Oxford, ele anuncia com alguma pompa: “Eu insisto que todas as minhas conversas sejam gravadas e todas as minhas refeições sejam escolhidas antecipadamente”. É uma referência irônica ao gravador digital colocado próximo a seu prato e à comida, que foi pré-encomendada para Stone, um adepto do vegetarianismo. Mas também há uma ponta de frustração nesse comentário.

A popularidade do Twitter, que quase 200 milhões de pessoas usam para manter umas às outras atualizadas sobre seus pensamentos e ações – e isso por meio de comentários de até 140 caracteres – deu a esse reservado americano de 36 anos uma notoriedade com a qual ele não está totalmente confortável. Vestido com uma camisa preta e calça jeans, e usando óculos de aros grossos, ele toma seu lugar nesse restaurante despretensioso, com uma bonita vista do rio Cherwell, e reclama que a exposição pública às vezes pode fazer a vida “parece um programa de TV”.

Ele não abandona inteiramente, entretanto, o personagem de plutocrata resoluto que lhe é atribuído. Quando pergunto ao garçom se posso experimentar o mesmo prato de entrada – folheado de lúpulo e um tipo de feijão branco -, Stone declara: “A ninguém é permitido ter o que eu tenho!” Além disso, o restaurante só tem guarnição para uma pessoa. Então, começo a refeição com ravióli vegetariano.

O sucesso do Twitter é apenas parcialmente definido por grandes números – cerca de 95 milhões de mensagens ou “tweets” são escritas diariamente. O real impacto do site tem sido o de permitir a pessoas públicas falarem diretamente a seus seguidores, contornando a mídia tradicional. Stone fala com orgulho sobre como Barack Obama “tuitou” notícias de sua vitória na eleição presidencial americana em 2008. No ano passado, ele acrescenta, o presidente russo Dmitri Medvedev enviou seu primeiro “tweet” do quartel-general do Twitter, em San Francisco.

O Twitter também é uma armadilha óbvia para os imprudentes. Mensagens precipitadas já custaram o emprego de políticos como o deputado Timothy Horrigan, do Partido Democrata de New Hampshire, que renunciou depois de enviar mensagens sobre uma morte hipotética de Sarah Palin, símbolo do [movimento popular conservador americano] Tea Party. “Se você não gosta de ver suas mensagens chegarem a todos os lugares, instantaneamente, talvez esse serviço não seja para você”, diz Stone. Logo em seguida, ele afirma: “Eu acredito que a troca aberta de informação possa ter um impacto global positivo”.

O Twitter reúne hoje quase 200 milhões de usuários, que todos os dias enviam 95 milhões de mensagens

O Twitter está bloqueado na China, mas Stone relata com certa satisfação que “as pessoas estão encontrando caminhos para furar o bloqueio”. Nesse ínterim, o serviço está invadindo eventos tradicionalmente fechados no Ocidente. O juiz britânico que presidiu a recente audiência para fixar a fiança de Julian Assange, fundador do WikiLeaks, ordenou que os jornalistas presentes parassem de “tuitar” os detalhes dos procedimentos.

Stone e o programador Jack Dorsey inventaram o Twitter em 2006, como um projeto paralelo a seu negócio de podcasting [pequenos programas on-line de áudio] Odeo. Eles perceberam que tinham um sucesso nas mãos em 2007, quando 75 mil pessoas usaram o serviço no intervalo de apenas alguns dias, durante o festival de artes e tecnologia South by Southwest, no Texas. O entusiasmo localizado foi um prenúncio da rápida percepção que faria do Twitter um fenômeno global no verão de 2009.

Eu sugiro a Stone que boa parte da comunicação, da qual o Twitter é um ícone dos nossos tempos, consiste de indivíduos posicionando a si mesmos em relação aos outros. A mensagem principal do canto dos pássaros, de acordo com especialistas em comportamento animal, é: “Eu estou aqui. Cadê você?” Essa é uma das razões do nome adotado pelo Twitter [gorjeio ou trinado, em inglês], concorda Stone. Eu digo que me diverti com uma de suas mensagens. Anunciando que falaria na escola de administração Haas, da Universidade da Califórnia em Berkeley, em agosto, ele disse ironicamente: “Como vocês sabem, sou um homem de negócios e sei das coisas”. Stone dá de ombros: “Eu comecei como artista”, diz, referindo-se à sua carreira como designer gráfico, “e continuo a pensar em mim mesmo como um artista em primeiro lugar, e um especialista em tecnologia e empresário depois disso.” Ele também é um usuário regular do Tweeter, com 1,6 milhão de seguidores, aos quais fala sobre tudo, de tópicos sobre tecnologia até gatinhos engraçados e a prudência de comer couve.

A maioria dos americanos visita Oxford como turista, admirando-se da antiguidade das universidades e, se o clima permitir, alugando um barco para navegar nas águas lânguidas e rasas do rio Cherwell. Mas Stone está na cidade para participar do programa “O Vale do Silício vem a Oxford”, realizado anualmente pela escola de administração Saïd, da Universidade de Oxford. Sob o programa, um grupo de empresários da Costa Oeste americana é recrutado para treinar alguns dos mais brilhantes aspirantes a empresários de tecnologia. Para Stone, é uma rara oportunidade para tagarelar com seus companheiros do Vale do Silício, como Reid Hoffman, o afável fundador da rede social de negócios LinkedIn. Na Califórnia, nunca há tempo suficiente, diz ele.

A conversa de Stone é repleta de referências à mulher, Olivia, que o convenceu a tornar-se vegetariano

Outro pioneiro das redes sociais, Mark Zuckerberg, do Facebook, foi recentemente imortalizado de maneira pouco lisonjeira no filme “A Rede Social”. Enquanto o prato principal chega, eu pergunto a Stone se ele viu o filme. “Fui sozinho”, ele responde, examinando seu pedido de tajine de vegetais e cuscuz. A mulher dele, Olivia, que trabalha em um refúgio para a vida selvagem, recusou o convite porque achou que o filme poderia virar uma conversa de trabalho.

Em 2009, Zuckerberg tentou comprar o Twitter por estimados US$ 500 milhões em ações do Facebook. As negociações fracassaram completamente. O dono do Facebook não poderia oferecer a Stone, Dorsey e Evan Williams, o outro cofundador do Twitter, nada que eles quisessem, afirma Stone. “Criamos algo no qual as pessoas estão encontrando valor”, diz ele, “mas ainda não criamos um negócio em volta disso, e queremos muito fazer isso”.

Embora o valor da companhia tenha sido recentemente estimado em US$ 3,7 bilhões, ela ainda dá prejuízo. Stone espera que o Twitter torne-se lucrativo graças a geradores de caixa como as mensagens promocionais pagas que aparecem como resultado de algumas buscas. Ele parece embaraçado, no entanto, diante da minha pergunta padrão de repórter de negócios: qual é sua estratégia para sair do negócio? “Saída é uma palavra esquisita”, ele responde. “Não seguimos esse caminho. Nosso caminho é seguir nossa paixão.”

Então, arrisco, por que meu convidado é chamado de “Biz”? Ele explica que pronunciava seu nome de batismo, Christopher, como “Bizober” quando estava aprendendo a falar. Na forma abreviada, ficou “Biz”. A infância, que ele passou nas vizinhanças de Boston, parece trivialmente triste. Os pais se divorciaram quando ele era criança. Ele diz nunca ter tido um “relacionamento real” com seu pai, um mecânico de automóveis. A mãe trabalhou como professora assistente em uma escola de ensino elementar, o que fazia com que outras crianças o importunassem.

Stone atribui à sua escola de segundo grau na próspera cidade de Wellesley, a Oeste de Boston, o papel de amuleto empresarial. Foi lá que ele montou um time de lacrosse, um jogo semelhante ao hóquei, além de produzir e estrelar uma peça sobre Robin Hood que estava, diz ele, mais próxima de Mel Brooks do que de Russel Crowe. Depois da escola, ele conseguir transformar uma vaga de meio período e sem muita importância na editora Little, Brown em um emprego de desenhista gráfico em tempo integral. Stone enfiou seus desenhos de capas de livro nos arquivos do departamento de arte e quando recebeu uma proposta de emprego, abandonou a universidade para aceitá-lo. Isso levou à consultoria de web design e à sua primeira companhia, o site de blogging Xanga, fundado no ano 2000. Mais tarde, ele trabalhou no Google, antes de sair para criar a Odeo, precursora do Twitter, em 2005.

Quando pergunto se sua mãe está orgulhosa com o sucesso do filho, Stone responde de maneira desconcertante: “Acho que sim, mas ela é mais do tipo que reclama e aponta falhas”.

A conversa, no entanto, é temperada com referências afetuosas à esposa, Olivia, antítese da submissa mulher de empresário. Foi ela quem persuadiu o marido a virar vegetariano. E Stone relembra como ela o arrastou para andar de caiaque na lua de mel. O casal naufragou. “Foi horrível”, ele conta. “Perdi minha aliança.

Não deixo de notar que ele ainda precisa aprender a dominar a capacidade dos executivos de comer enquanto repetem jargões empresariais de maneira evasiva. Eu já limpei meu prato e ele não comeu quase nada. Além disso, não usou a palavra “sinergia” uma única vez.

Stone pensa de maneira crítica sobre inovação. Em seu papel de diretor criativo do Twitter, ele gasta três horas por semana refletindo “como será a companhia em dez anos”, junto com o chefe de tecnologia Greg Pass. Evan Williams, que recentemente deixou o cargo de executivo-chefe do Twitter para dirigir a estratégia de produtos, incorpora as melhores ideias ao serviço. “Queremos crescer globalmente e tornar o Twitter mais disponível em SMS [mensagens curtas via telefone celular], diz Stone. “Há mais de 5 bilhões de telefones no mundo que podem enviar e receber SMS, muitos deles em lugares onde não há internet.”

Stone diz acreditar que empresas de internet não fracassaram porque saíram de moda – uma explicação convencional para o destino da America Online, Yahooe Bebo-, mas porque falharam em evoluir. Mas ele também critica o conceito do empresário nietzschiano, para quem o triunfo de sua vontade refaz o mundo a seu gosto. “Empresários apenas representam grandes grupos de pessoas trabalhando juntas”, diz ele.

Com o canto dos pássaros e a seleção natural em mente, insinuo que em meio a uma população de milhões de pessoas, poucos empresários têm o tipo de sucesso que ele está usufruindo. “Exatamente”, diz ele, enquanto peço a conta. “Você é uma espécie de escolhido, certo?” Com essa conclusão discreta, ele agradece polidamente, coloca seu casaco e vai embora.

fonte: Financial Times [via Valor Econômico]

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