Muçulmanos nas igrejas evangélicas

Jason B. Hood

Na retrospectiva de 2010, os repórteres que escrevem sobre religião nos EUA falaram do debate sobre a construção de um centro islâmico e uma mesquita perto do local onde antes ficavam as torres gêmeas em Nova York.  Mencionaram também o pastor que ameaçou queimar o Alcorão como alguns dos eventos religiosos mais importantes do ano passado. Em várias outras cidades americanas há debates acirrados sobre os direitos dos muçulmanos de expressarem livremente sua fé e manterem seus princípios.

Enquanto isso, algumas igrejas evangélicas têm um modelo mais acolhedor de abordagem. Na Igreja Metodista Unida Heartsong, da cidade de Cordova, Tennessee, o pastor Steve Stone e sua congregação colocaram na entrada uma placa dando as boas vindas ao Centro Islâmico de Memphis que seria construído em seu bairro. Pouco tempo depois, a Heartsong permitiu que seus vizinhos muçulmanos usassem o seu santuário como uma mesquita improvisada durante o Ramadã, enquanto o Centro Islâmico estava em obras. O pastor Stone e sua congregação receberam uma vasta cobertura positiva da mídia, elogiando sua postura.

Para Stone, permitir que muçulmanos adorem Alá no espaço físico de sua igreja cristã era uma questão de praticar o pensamento “O que faria Jesus?”. Ou seja, a congregação deveria exemplificar o amor de Jesus aos estrangeiros, da mesma maneira como Jesus os acolheu em seu tempo.

Outro pastor de uma igreja metodista, a cerca de 500 km de distância dali, chegou a uma conclusão semelhante, quando uma congregação islâmica vizinha pediu para usar o templo cristão durante cinco meses para as orações de sexta-feira.

Jason Micheli, pastor dessa igreja metodista de Aldersgate, em Arlington, Virginia, defende sua decisão de maneira semelhante, apelando para Jesus e amor cristão: “Quando dizemos que Jesus é o único caminho para o Pai, não significa apenas que cremos em Jesus como o único caminho para Deus. Também significa que o estilo de vida de Jesus é a única maneira de manifestarmos o amor do Pai. Acolher estrangeiros muçulmanos em nosso espaço sagrado, sem pedir nada em troca, não é diminuir o que cremos sobre Jesus, nem uma traição. Penso que essa é a expressão mais completa possível do que cremos a respeito de Jesus”.

A decisão desses dois pastores, permitindo um culto muçulmano em sua propriedade, apela para o amor exigido dos cristãos como um guia para tomar suas decisões.

Mas não é uma evidência de que os cristãos sejam obrigados a oferecer seus templos para o que consideram uma falsa adoração. As questões teológicas em jogo no mandamento de Jesus para amar incondicionalmente também exigem que certas práticas sejam evitadas. Como Wesley dizia, “o mandamento para fazer boas obras também inclui evitar ou causar danos aos outros”, compartilhem eles ou não da mesma fé. Essa facilitação ou a falsa adoração violam o mandamento de amar?

Absurdos extremados como queimar o Alcorão e os protestos contra a construção de mesquitas ilustram como o mandamento do amor exige uma interpretação teológica para que seja corretamente aplicado.

Quais são as opções (por exemplo) entre zombar do livro sagrados dos muçulmanos e compartilhar o templo com eles? Há muitos passos intermediários: compartilhar atividades recreativas e um espaço para recreação, fazer refeições juntos, evangelismo, clareza nas afirmações de Cristo e apoiar o direito de outras formas de fé reunirem-se publicamente para cultuar. Todos esses são aspectos importantes do mandamento do amor.

O que está em jogo são questões teológicas importantes e preocupações pastorais, mas elas não estão limitadas à questão limitada de compartilhar o mesmo espaço para adoração. Questões similares surgem quando uma igreja decide mudar-se e colocar seu templo à venda. Por exemplo, uma congregação presbiteriana decide vender seus imóveis, mas a única oferta vem de uma congregação hindu, para desespero de uma boa parte da igreja.

Mesmo recusando essa oferta, há muitas maneiras em que as igrejas podem ser mordomos infiéis do que Deus colocou em suas mãos. E se os interessados no prédio pretendem abrir uma farmácia onde são vendidos remédios abortivos, como a pílula do dia seguinte, ou um posto de gasolina que venderá bilhetes de loteria, bebidas alcoólicas e revistas pornográficas?

Uma série de questões relacionadas também surgem nessa discussão ética. Há problemas se um arquiteto, um encanador ou um advogado cristão forem contratados para projetar, construir ou ajeitar os documentos de um local que será usado para o culto hindu? Nossos amigos ou vizinhos budistas frequentemente constroem altares em suas casas, então os cristãos devem evitar frequentar a casa deles? Será que uma congregação cristã pode comprar a propriedade pertencente a outra forma de fé ou uma seita? Isso garante o uso do mandamento de Jesus para fazer aos outros o que queremos que eles nos façam?

Quando estas e outras questões confrontam os cristãos, as respostas podem ser uma questão de bom senso e não apenas a aplicação simples de um ou outro ensino bíblico. Também exigem uma reflexão sobre os princípios teológicos como a natureza sagrada (ou não) do espaço usado pelas igrejas.

Jason B. Hood é um erudito da Igreja Metodista Unida de Cristo, em Memphis e escreve para o blog da Sociedade para o Avanço da teologia eclesial .

Tradução: Jarbas Aragão. Direitos reservados da tradução. Ao reproduzir, por gentileza cite a fonte.

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