Infelizmente o crime não vai acabar por decreto

Jorge Antonio Barros

A Igreja da Penha iluminada em meio aos fogos de artifício é a melhor imagem do fim da opressão  do tráfico naquela região da cidade. Foi ali que mataram o companheiro Tim Lopes, no outono de 2002. Na época, participava da Comissão Tim Lopes – que cobrava Justiça – e organizamos uma série de manifestações por toda a cidade. A última delas era planejada na Vila Cruzeiro, mas os jornalistas foram alertados que não seriam bem recebidos naquela favela, na Penha. Decidimos então fazer a manifestação num coreto no sopé do morro onde fica a Igreja da Penha. A manifestação foi mais vez vigiada por olheiros do tráfico.

No dia 25 de novembro, quando a Vila Cruzeiro foi dominada pelo Bope com auxílio dos blindados da Marinha de Guerra do Brasil, portanto, dá pra se imaginar como os jornalistas que perderam Tim Lopes comemoraram a vitória das forças de segurança. Apesar de vários erros estratégicos que apontei nesse espaço, a ocupação do Complexo do Alemão foi de fato uma grande conquista da sociedade fluminense, por meio da união das forças de segurança federais e estaduais. De fato foi um momento histórico, apesar de não ter sido preso nenhum chefe do tráfico nas duas favelas. Foi um golpe fantástico na maior facção criminosa do Rio.

Apesar de reconhecer a importância desse grande avanço, não podemos tapar o sol com a peneira. Dizer que a página da violência no Rio foi virada, como afirmou o governador Sérgio Cabral, no discurso de posse, em seu segundo mandato, não é muito sensato. Ainda há muito por fazer. A torcida é grande, sem dúvida. Os ventos sopram a favor. Tudo isso é muito bom. Não devemos nos deixar contaminar pelo ceticismo que duvida de tudo e de todos, sobretudo os que estão no governo. Mas é preciso também prudência e não entrar nessa onda de “já ganhou” porque a partida é longa, tem sido travada há décadas.

É temerário também se marcar prazos para o fim da violência. O governador Moreira Franco prometeu acabar com a violência em seis meses, em 1986, e deu com os burros n’água. Infelizmente o tráfico não vai acabar porque um dos produtos que oferece tem uma clientela em alta. Já se comprovou, porém, com as Unidades de Polícia Pacificadora que o território pode ser retirado das mãos dos traficantes. Mas é preciso cuidar para que não caia em outras mãos. Para isso, a vigilância do Estado e o projeto da UPP Social tornam-se essenciais. Mesmo assim, é arriscado se marcar para 2014 a pacificação de todas as 600 favelas dominadas por grupos fortemente armados, como tráfico e milícia. Muita coisa ainda precisa ser feita, como por exemplo um combate firme ao contrabando de armas, por parte de uma força-tarefa nacional.

O crime é um negócio altamente lucrativo e não vai acabar por decreto. No caso do Rio, setores da polícia têm sociedade com ele. E sem uma profunda reforma nas polícias fica difícil implantar a paz. Sem dúvida que o governador tem a melhor das intenções em seu discurso, mas, sem perceber, pode inclusive estar desmobilizando a polícia e a sociedade – que precisa continuar denunciando o crime, mesmo que anonimamente.

fonte: Repórter de Crime

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