Evangelho no morro

Engana-se quem julga que adolescentes entram no crime simplesmente em busca de dinheiro fácil ou por falta de opção. A questão é mais complexa.

Baixada a poeira do espetáculo pirotécnico da operação que desbaratou os traficantes da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, cabe às autoridades públicas uma reflexão séria acerca do problema da violência. Semanas atrás não faltaram explicações para as causas – e eventuais soluções – do drama carioca. Porém estávamos todos embevecidos pela catarse proporcionada por nossos Capitães Nascimento da vida real. É hora de passarmos da ficção à realidade.

O caso do Rio de Janeiro é o paradigma maior de um problema que assola boa parte das cidades brasileiras: sem a presença efetiva do Estado, surge em algumas periferias um novo tipo de coronelismo. Legitimados por suas armas, estabelece-se uma ordem na qual prevalece tanto a lei do mais forte quanto a do silêncio, dando a impressão de que a solução definitiva mostra-se inalcançável.

Contudo, ao menos um dos pilares do crime parece ter sofrido um duro golpe durante a operação carioca. A cultura da malandragem, que ao longo dos anos povoou o imaginário de nossos intelectuais, reconhecendo no marginal um agente de resistência, erodiu no momento em que víamos os traficantes da Vila Cruzeiro correndo desesperados para salvar suas vidas. Outrora tidos como fortes – tais quais os sertanejos de Euclides da Cunha, vítimas das circunstâncias que mostravam uma bravura que desmentia a aparente fragilidade de seus corpos –, eram espantados como “baratas”, segundo a manchete de um jornal popularesco.

A dimensão simbólica é evidente: desmistificava-se ali o “herói”, e isso não é pouca coisa. Engana-se quem julga que adolescentes entram no crime simplesmente em busca de dinheiro fácil ou por falta de opção. A questão é mais complexa. Pesquisas recentes mostram que o baixo escalão do tráfico, os chamados “soldados”, ganham pouco e trabalham em condições para lá de precárias. A migração para a delinquência se dá por outras vias. É, sobretudo, o glamour, a possibilidade de empunhar uma arma e ser visto com alguma relevância que os seduz.

E aí entramos, inevitavelmente, no problema da exclusão: como a sociedade, que clama por paz, absorveria os arrependidos, ou aqueles que já pagaram sua dívida com a sociedade? É incrível a inépcia do Estado nesta tarefa. Não à toa, hoje são as igrejas, sobretudos as denominações evangélicas, as organizações que mais tiram delinquentes do mundo do crime. E entender o porquê desse sucesso dos evangélicos pode trazer novas luzes para a discussão do problema.

Podemos interpretar as conquistas das igrejas numa abordagem estritamente religiosa, ressaltando a ação de Deus e sua capacidade de transformar a vida dos homens. É o pecador sendo chamado ao arrependimento, sentindo em si a misericórdia do Criador que lhe oferece uma nova chance. Mas como o mundo é lugar fértil ao ceticismo, cabe também uma explicação de caráter, digamos, mais profano.

O discurso cristão propõe que, a partir de um processo de conversão, os homens nasceriam para uma nova vida, na qual os antigos pecados estão devidamente perdoados. As igrejas acolhem os ex-traficantes não mais como delinquentes, mas como homens que conseguiram superar uma vida de pecados. O passado de crime não é visto como uma chaga: ao contrário, é um trunfo, um exemplo de superação usado para que novas vidas sejam salvas; para que outros não cometam os mesmos erros.

Retoma-se, assim, a questão da busca pela relevância. A estima alcançada antes ao empunhar uma arma é substituída pela importância que esse indivíduo passa a ter no processo de salvação de almas. O saldado do crime passa para o exército de Jesus sem ter de esconder seus desvios passados.

Não estou, obviamente, propondo uma anistia para os criminosos, mas apenas chamando a atenção para essa dimensão do problema: “o desejo não apenas de igualar-se, ou assemelhar-se, mas de distinguir-se”, que, segundo John Adams, logo abaixo da autopreservação, será para sempre a grande mola impulsionadora das ações humanas. Adams, um dos pais da independência americana, disse também que “a consciência do pobre é límpida; contudo, ele se envergonha (…), sente-se alijado da visão dos outros, tateando no escuro. A humanidade não toma conhecimento dele, e ele vagueia e perambula, despercebido. Em meio à multidão, ele está tão na obscuridade como se estivesse no sótão ou num porão. Ele não é nem desaprovado, nem censurado, nem acusado; ele simplesmente não é notado”.

Se esta “paixão pela distinção” não for levada em consideração, a política de segurança pública se limitará a tentar separar lobos e cordeiros. Sem sucesso, como temos visto. Seja no Alemão, em São Paulo ou em Curitiba, nossos marginais continuarão a mostrar que existem. Sempre à força, única linguagem que conhecem.

Elton Frederick é especialista em Política e Relações Internacionais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo. E-mail: eltonfrederick@gmail.com

Fonte: Gazeta do Povo

Dica do Willian Cruz

 

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