Guiomar: Ciência do trânsito aponta perfil de quem bate o carro

Ricardo Mioto

Os americanos estão recrutando alguns dos seus melhores estatísticos para saber quem é o sujeito que bate o próprio carro.

Se você está devendo dinheiro e é médico, esses especialistas em ciência do trânsito já olharão feio.

Se, além disso, você for um homem que costuma andar sozinho em carros grandes e alugados, meu amigo, os estatístico pedem desculpa, mas precisam dizer: você não tem carteira de motorista, você tem porte de arma.

Esse perfil é resultado da análise de milhões de casos em bancos de dados sobre acidentes de carro -americanos amam tanto estatísticas quanto carros, então era mesmo de se esperar que tivessem muito material disponível sobre o assunto.

VAI DEVAGAR, AMOR!
O preço dos seguros não mente: homens realmente se envolvem em mais acidentes do que mulheres. “Homens parecem particularmente perturbados por dois poderosos compostos: álcool e testosterona”, diz o escritor americano Tom Vanderbilt, autor do livro “Por que dirigimos assim?” (Ed. Campus), sobre a ciência do trânsito.

Homens são mais agressivos no trânsito, correm mais. Por isso, um homem tem mais do que o dobro de chance de morrer dirigindo do que uma mulher, ainda que elas se envolvam mais em colisões não fatais -pequenas barbeiragens, digamos.

Os estatísticos descobriram, porém, que um homem dirigindo sozinho tem uma chance maior de se acidentar do que com uma mulher no banco de passageiros.

Ninguém sabe direito o motivo. Uma hipótese é que ele seja mais cuidadoso porque quer protegê-la. A outra, talvez mais provável, é que a mulher incomoda tanto o sujeito com gritos de “cuidado!” que ele se rende -ou para o carro e manda ela descer, em um cenário mais raro.

Esse fenômeno é tão sério que o Exército israelense resolveu treinar soldados do sexo feminino para atuar, nas palavras deles, como “tranquilizadoras” dos soldados homens em deslocamento e evitar mortes -não se sabe se eles ficaram exatamente “tranquilizados”, mas o número de mortes caiu.

No que se refere a profissões, médicos, sejam homens ou mulheres, estão no topo do ranking das ocupações que mais se envolvem em acidentes feito por uma seguradora da Califórnia.

Eles só perdem para estudantes -aí mais pela idade. Jovens têm menos experiência e são mais irresponsáveis.

A explicação é que médicos, além de terem uma profissão estressante, com frequência dirigem com certa urgência entre um hospital e outro, talvez ao celular.

Ninguém soube explicar a altíssima quantidade de arquitetos envolvidos em acidentes, em quarto lugar. Depois de muito refletir, os pesquisadores só conseguiram levantar uma hipótese: vai ver eles se distraem olhando prédios e acabam batendo.

Corretores de imóveis talvez batam muito por motivo similar -e eles estão o dia inteiro se deslocando pela cidade, uma hora acontece.

No outro extremo, fazendeiros (que dirigem bastante em lugares sem movimento) raramente batem o carro.

Independentemente da profissão, gente endividada se envolve mais em colisões. “Você não apostaria na possibilidade de motoristas arrojados serem pessoas avessas ao risco que anseiam por rotina e tranquilidade na sua vida normal, não? É um mantra antigo: um homem dirige como vive”, diz Vanderbilt.

As pessoas também batem mais carros alugados -elas são, óbvio, mais cuidadosas se o patrimônio for seu. Carros maiores batem mais do que pequenos, pois a sensação de segurança inspira menos responsabilidade.

Números assim fizeram o economista da Universidade de Chicago Sam Peltzman tentar explicar por que avanços de segurança (notoriamente a adoção dos cintos) não se transformaram em menos mortes no trânsito: as pessoas passaram a dirigir mais perigosamente.

“O aumento na segurança nos carros foi “compensado” pelo aumento no índice de mortalidade de pedestres, ciclistas e motociclistas. Economistas têm uma velha piada: o instrumento mais eficaz de segurança nos carros seria um punhal instalado no volante e apontado para o motorista”, diz Vanderbilt.

Tráfego é problema desde a Roma Antiga

Perfilar quem bate o carro é um campo pujante da ciência do trânsito -as seguradoras bancam os estudos. Mas outras áreas incluem até historiadores.

Eric Poehler, da Universidade de Massachusetts, e Romolo Staccioli, da La Sapienza (Roma), estudam a dificuldade que era trafegar na Roma Antiga.
César, por exemplo, proibiu a entrada da carruagens na cidade antes das três da tarde, porque, feito caminhões do século 21, elas não deixavam os romanos circular direito.

O tráfego melhorou, mas nem todos gostaram.

Espécie de entusiasta precursor da lei do Psiu, o poeta Juvenal, do século 2, dizia: “Só quem tem muito dinheiro consegue dormir em Roma. Carroças nas ruas sinuosas e rebanhos fazem tanto barulho que nem um peixe dormiria”.

fonte: Folha de S.Paulo

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