Cleycianne e Katylene na terra do som

Chico Felitti

Se a internet fosse novela, os papéis de loiras, famosas e rivais já estariam escalados. A primeira, candinha e bela, seria interpretada pela “modelo fotográfica e cristã batizada” Cleycianne. A segunda, vil e estourada, ficaria com a travesti Katylene Beezmarcky. As donas dos blogs de celebridades mais sagrados (cleycianne.com) e profanos (katylene.com) da rede também poderiam cuidar da trilha sonora: desde que cada site amealhou cerca de 50 mil leitores diários, os homens por trás dos personagens passaram a expor sua identidade secreta (e barbuda) atuando como DJs na noite paulistana. E além.

As personagens foram convidadas a tocar em lugares como Natal, Brasília, Porto Alegre e Florianópolis seu repertório misto de modernidades sonoras com faixas humoradas de Mara Maravilha, Cláudia Leitte e Raça Negra. Mas quem sai do avião no lugar de Cleycianne é Thiago Pereira, 27 anos e um curso de arquitetura trancado em nome da fama virtual. O bilhete de Katylene é emitido em nome de Daniel Carvalho, 23 anos e 13 milímetros de furo em cada lóbulo de orelha no lugar dos diamantes da musa transex.

“Discotecar é minha maior fonte de renda”, diz Carvalho. E olha que o império Katylene chega aos dois anos de idade diversificando seu portfolio. Começa com a publicidade do blog, engorda com a verba que a MTV paga por tê-lo dentro de seu portal e é coroado pelo salário ganho com o Katylene TV, programete semanal de 15 minutos no ex-canal musical, à 0h15, às segundas-feiras.

Daniel, o criador da travesti underground, mora sozinho em um apartamento nos Jardins. Já Thiago, o homem por trás da serva de Deus fiscalizadora de famosos, mora na casa dos pais, na Zona Leste paulistana. Enquanto Thiago mantém suas oito horas diárias de expediente no departamento de avaliação de construções da subprefeitura de São Mateus, Daniel vive uma rotina de acordar ao meio-dia e fazer aula de spinning às 21h – para depois encarar a noitada na maior parte dos dias. “A noite está lá, esperando, é isso que me trouxe para São Paulo e o porquê de eu não sair daqui”, diz Daniel, nascido em Brasília e criado no Rio.

Menos assíduo na pista de dança, Thiago começou fazendo som em festinhas de amigos da rua. Depois, passou por um período de seca, até ser convidado a discotecar no clube de morderninhos Glória, no Bixiga. Na primeira balada, ouviu pela primeira vez: “Cara**! A Cleyci é um homem careca e barbudo”.

Era o confronto da imagem do homenzarrão com a foto da Miss Califórnia 2009, surrupiada da internet para dar rosto à ex-pérfida e atual convertida, para quem Deus é “mas” e Lady Gaga é “menas”. Agora Thiago está aprendendo a pegar mais leve no verbo divino com um blog sediado no portal Yahoo – que, se tudo der certo, o livrará do emprego público para viver uma vida de luxo como Katylene. Pura inveja? Na ficção, sim: as duas já se engalfinharam.

Por causa de Wanderson (o noivo de Cleycianne que no passado passava a limpo os pecados de Gomorra, mas hoje é o que a namorada chama de “varão de Cristo”). Mas na vida real as “louras más” se dão muito bem. “Não é amizade, é cumplicidade”, define Thiago, lembrando-se de parcerias em festas, como algumas edições da Balada Mixta. Daniel diz que há até planos de a dupla iniciar uma festa conjunta. O nome? Bafo de Jesus.

fonte: Época SP
foto: Daniela Toviansky

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