Saudade: 23 anos sem Janires

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“Rolou o mundo. Percorreu vales de fundos sulcos.
Andou errante, sem grilhões. Morreu livre.
Este foi Janires”.

Estávamos apreensivos!…

Era 11 de janeiro de 1988.

Estranhávamos a ausência do nosso irmão Janires, no primeiro “Clubão” do novo ano.

Os jovens já estavam todos lá. Superlotavam o local, quase mil pessoas. A Banda Azul aposta para dar início ao louvor. Havíamos orado momentos antes, inclusive pelo próprio Janires e pela reunião que em instantes iniciar-se-ia.

O relógio marcava 19:30 horas. Tudo estava pronto. A equipe da MPC atenta. O som ajustado, equalizado. Checamos cada detalhe. A “Tchurma” toda lá.

Só não sabíamos que o Janires também já estava lá… com o Pai.

Como o fato aconteceu

Aconteceu na madrugada deste dia, uma segunda feira cinzenta, em um trágico acidente com um ônibus da Útil fazendo o percurso, Rio-Belo Horizonte, que o nosso amado aportava o céu, com o seu imenso “coração veleiro”.

O filho mais velho de Dona Luzia, dos dois meninos que tivera, nascido em 22 de maio de 1953 na cidade de Vitória, no Espírito Santo, alçava vôo “mesmo sem ser de asa-delta”. Havia chegado a hora de “ir embora , viajar”.

Por umas destas ironias que não se busca explicar, posto não ter residido por muito tempo em seu Estado natal, o Espírito Santo, bem como vitórias e derrotas, sempre estiveram presentes na sua vida atribulada e aventurada do nosso poeta. Vez que experimentara bem perto o poder de Deus em sua vida de andanças. Era um peregrino. Não era mesmo de ficar.

Num bate-papo informal com a irmã Luzia recordávamos as peripécias e lutas do “velho Jajá”.

Detalhes da infância e adolescência

Logo aos 7 anos de idade questionava a vida e a sua origem, visto não ter conhecido seu verdadeiro pai. Não aceitando ou entendendo as explicações de sua jovem mãe, seus dissabores o levariam a uma estrada tortuosa e obscura, quando aos 12 anos, passou a “mexer” com drogas. Foi esta a sua alucinante trajetória até aos 19 anos.

A prisão

Veio então o cárcere. Ficou preso 2 longos meses. A mãe desesperada recebendo o auxilio de outra senhora, lutou muito para tirá-lo do presídio e transferi-lo para o “Desafio Jovem” de Brasília, segundo orientação daquela mulher.

Com o apoio do Prof. Galdino, presidente do mesmo, ambos (mãe e filho) tomaram contato pela primeira vez com o único e suficiente caminho: JESUS.

Janires passou a trilhar o caminho, permanecendo ali, no centro de recuperação, por nove meses. Ganha uma segunda mãe, a Tia Arlete, assim por ele mesmo considerada. Contou com o amparo especial do Prof. Galdino,a quem se referia em conversas comigo como o “Capitão Galdino” e de toda a equipe de obreiros do “Desafio Jovem” de 1973.

Pensando estar tudo terminado, fato esquecido, vai a julgamento. E, como fruto amargo, colhido como resultado de sua vida pregressa, é condenado a um ano de prisão e ao pagamento de 11 salários mínimos. Contudo, por uma decisão de um tribunal superior ao dos homens, ou de Deus, em um episódio inusitado, que certo dia me confidenciara, “teve o nome trocado com o de outro condenado”. Assim ocorrendo sua pena se reverte a ser cumprida no já conhecido “Desafio Jovem”, retornando pois.

Ali, ligado à música (aliás, como sempre o fora), começa a trabalhar nos louvores, compondo suas primeiras canções evangélicas, bem ao seu peculiar estilo jovem.Transmudava-se em nova criatura.
Ficou lá no “Desafio” chegando enfim, o dia de sair.

A saída da prisão e as armadilhas

Ciladas o esperavam…

Seus “ditos” amigos de “Underground” voltam a procurá-lo.
Ele, presa fácil, novo na idade e na fé, não suporta a “Barra”…e volta as drogas.

Passam-se seis meses…

Mas o pai eterno, em sua infinita graça e misericórdia, não desistira dele.

Por intermédio da Tia Arlete, assenta no coração dela, que esta deveria leva-lo para São Paulo. Lá , na igreja liderada pelo Tio Cássio, pode segurar firme nas mãos de Jesus, sendo acolhido como era.

Nunca mais o deixou!

Como surgiu o Ministério Rebanhão

Em 1975, em São Paulo, Janires criou o “Rebanhão”. Sempre pensando em alcançar a muitos. Pouco tempo depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, continuou com a idéia e visão do Ministério do grupo “Rebanhão”. E, com isso, dava início a um capitulo a parte, inédito, no que tange a musica jovem evangélica Brasileira.

Gravou três LPs e um compacto com o “Rebanhão”. Comemorou dez anos de conversão gravando o primeiro LP ao vivo da musica evangélica no Brasil “Janires e amigos”. E, cá pra nós, amigos sempre foi algo que ele soube ter e fazer, por isso gostava de homenageá-los, registrando em suas canções e gravações.

A saída do Rebanhão e a chegada em BH. Expectativas de um novo tempo

Janires, contudo, não era de “esquentar banco”; e não se acomodava na inércia de vitórias já passadas, buscava sempre o novo, a criação. Dizia ele: “Quem vive de passado é professor de história ou museu”. E nesta época constante do renovar-se, e graças a Deus, renovando a muitos “apiô do trem em Belo Horizonte, no arraia da MPC”, logo após fazer a sua despedida do “Rebanhão”. Chegou aqui com um violão e seu imenso “Coração poeta”.

Com a Mocidade Para Cristo, cumpria cabalmente seu Ministério, espargindo sua influência e liderança em cada filial que visitava ou convite que aceitava por estes “Brasis” que percorrera, num trabalho incansável, humilde e verdadeiramente itinerante.

Em Belo Horizonte deu início a um programa de rádio de 60 minutos de duração, todo sábado. Programa jovem, evangelístico e musical, “Ponto de Encontro”.

Gravou e lançou um LP com o mesmo nome deste programa, além de dois compactos com o “Quarteto Vida”.(MPC.BH).

Cantava, pregava, conduzia o louvor e a adoração a juventude em praticamente todas as reuniões e eventos promovidos pela MPC, nas temporadas de acampamentos e especialmente no “Clubão”, de toda segunda feira, invariavelmente.

Centenas e centenas de jovens o amavam; e eu podia perceber que os olhos daquela “moçada” brilhavam ao ouvi-lo cantar e louvar a Jesus Cristo em letras e ritmos tão contextualizados quanto poéticos.

Liderando a Banda Azul

Em novembro de 1986, antes de uma temporada nos E.U.A, Janires já lançava a semente daquele que viria a ser seu ultimo grupo musical: A Banda Azul.

Em companhia de Moisés Di Souza (Baixo), Eduardo Costa (Dubatera), Eduardo Santos (Duguita) e Guilherme Praxedes (teclados), surge a primeira musica composta no acampamento de final de ano da equipe da MPC… “Meninos da Rua”. Com o “Som do Céu”, evento de louvor e pregação realizado em abril de 87 na praça do Papa, comportando um público estimado em 15 mil jovens, o trabalho da banda ganhando cada vez mais solidez e explode com “Canção das Estrelas”. O entrosamento era notório e melhorava a cada momento, passando a ser uma atração extra a cada reunião.

Convites começavam a ocupar a agenda, quase nunca bem utilizada, do nosso “Rev. Jajá”.

A primeira gravação e a mudança do nome

Nasce então a idéia da primeira gravação, e assim a antiga Banda MPC, muda de nome: Banda Azul.
Explica ele com seu jeito singular de encarar a vida, que a razão deste nome para a Banda,
“Era porque todos os seus componentes, tinham os olhos azuis” e invariavelmente, um sorriso desabrochava em seguida.

Trabalhou arduamente, ao regressar de uma segunda viagem aos

E.U.A, no novo disco que abriria caminho para a Banda Azul, nunca o vimos tão feliz, alegre e gordo.

O carinho na preparação e o cuidado na elaboração do novo LP já se faziam antever a bela qualidade do esperado lançamento.
Gravara e entrara nos estúdios de gravação pela ultima vez. Não chegou a ver o LP pronto. Com a capa e tudo pra ser lançado. Mas, deixava nele o essencial: seu talento, sua voz, suas músicas, suas inimitáveis letras, sua poesia.

“Espelhos Nos Olhos”, já era histórico antes mesmo de ser lançado.

Janires Magalhães Manso, um incansável servo de Deus. Tinha muito planos e projetos para a Banda Azul, que tenho certeza, saberá cumpri-los como herança de seu “Band Líder” e irmão mais velho.

Reconhecimento

Seu talento nato, dom de Deus, num misto de músico, poeta, repentista e pensador moderno, ainda que registrado em discos e fitas, por certo deixou aguda saudade e imensa lacuna.

Poucos, muito poucos mesmo, souberam como ele empunhar a bandeira da “avant-garde” sendo ferido, muitas vezes, e sem ferir. Pelo contrário.

A despedida no funeral em Brasília

As palavras do irmão Alex Dias Ribeiro, bem como o testemunho dos irmãos que estiveram presentes ao seu sepultamento (Marcelo Gualberto MPC, Carlinhos Felix do Rebanhão, Pr. Ricardo Barbosa de Brasília, Prof. Galdino, D. Luzia sua mãe, …e tantos outros) e toda a Banda Azul e obviamente (que lá tocou), corroboram esta realidade: “Seu funeral na Igreja Nova Vida, em Brasília, foi uma das coisas mais lindas, emocionantes e alegres que já vi”.

Ao completar 32 anos, irmã Luzia o procurou perguntando-lhe se gostaria de conhecer o pai, agora que ela o encontrara; respondeu ele: “Minha família é aquela que nasce a cada manhã”.

Agora esta família sente saudade do irmão, amigo e Artista.

Mas ele já esta lá!…Junto com Sergio Pimenta, o Jayrinho e os outros tantos amados num “Clubão” que não tem mais fim.

Francisco Santos (Xyco), na revista Kerigma Ano II Nº 9 / 1988
compilação: Moisés Di Souza
fotos: CD Tributo a Janires (Som do Céu MPC)

via Presentia On line

Comentários

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1 Comentário

  1. Eu sou um grande fã do Rebanhão e tenho todas as músicas da banda eu me converti em 1994 quando eles lançaram o álbum “Enquanto é Dia”, mas eu só gostei da banda quando eu ouvi uma música do álbum “Por cima dos montes de 1996” chamada de “Louvor” e também outra desse álbum mesmo chamada de “Eu Voltarei” de autoria se não me engano de Tutuca Borba, então daí gostei demais da banda e passei a me concentrar em adquirir as músicas do grupo que com o passar do tempo só me apaixonei pelas canções que eram revolucionárias para os anos “80” com uma nova tendência em ritmos no mundo gospel que deu origens até novos grupos como a primeira Banda desse estilo no Rio de Janeiro chamada de Sinal de alerta de 1986 dos vocalista chocolate e Samuel em composições, e depois vários grupos tomaram partido desta causa que este homem Janires teve um dom de Deus para abrir portas para um novo cântico no meio do Povo de Deus, ele (Janires) não está aqui para ver, mas seu legado deixou história na formação de todas as bandas, grupos, solos e etc desse seguimento seu tempo de vida pode ter sido pouco aqui na terra, mas o suficiente para deixar um peso de Gloria eteno e melhor do que isso toda essa Gloria e dada a Deus desde agora e para sempre Amém saudades sim de Janires , mas tristeza do que? Só deixou alegrias de herança para nós que Deus abençoe a todos em nome de Jesus Amém!!!

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