Vítimas

Luiz Felipe Pondé

NÃO CONFIO em “vítimas”. Explico-me, antes que o plantão dos humilhados e ofendidos grite. Claro que existem vítimas no mundo. Brancos que escravizaram negros, negros que comercializaram negros, homens que batem em mulher, mulheres que torturam homens que as amam até destruir neles qualquer resto de dignidade, gays que perseguem pessoas porque são diferentes deles (surpresa?), homofóbicos, crianças espancadas em casa e humilhadas nas escolas por outras crianças, enfim, há vítimas por todos os lados. Não me refiro a este tipo de vítima “óbvia” quando digo que não confio em “vítimas”.

No caso das crianças então, eu aconselho a leitura do sensacional “Senhor das Moscas”, de William Golding, pra quem afirma que o mundo seria melhor se deixássemos a “criança que existe em nós” ensinar os adultos maus como governar a sociedade. Risadas…

Neste livro, crianças abandonadas ao seu destino num local desconhecido criam uma sociedade cruel, autoritária e injusta, aos moldes do humano, demasiado humano. Somente ingênuos sem cura e mentirosos podem confiar na bondade das crianças.

De certa forma, elas são mais cruéis do que adultos, porque estes respondem de modo mais fácil aos constrangimentos morais baseados na “economia de interesses mútuos” (se você tem algo que me interessa, tendo a ser mais condescendente com você) e na vergonha social (não basta à mulher de Cesar ser honesta, ela deve parecer honesta). Estes são dois pilares essenciais do convívio moral coletivo.

Crianças são mais “livremente” violentas e invejosas. Humilham os mais fracos de modo despudorado, excluem qualquer um que seja “diferente” e gostam de esfregar na cara dos mais pobres tudo o que têm. Chato, não é? Também acho, mas fazer o quê?

Quando digo que não confio em “vitimas”, refiro-me àquele personagem que toda família tem pelo menos um.

Você identifica facilmente uma dessas “vítimas” em reuniões de fim de ano ou em festas familiares fazendo o culto de si mesmas. Elas comumente acusam aos outros de “só pensarem em dinheiro” e de serem insensíveis.

Normalmente essas “vítimas” não conseguem ganhar dinheiro e vivem graças à ajuda dos outros -claro, os mesmos que “só pensam em dinheiro”.

Outro traço é a “sensibilidade aguçada” e uma “outra qualidade de consciência” -esta, então, é o fim da picada. Normalmente, pessoas assim adoram “arte-terapia”. O apego à espiritualidade interesseira também é muito comum.

A “sensibilidade aguçada”, então, me emociona (risadas). Elas choram com facilidade diante da própria sensibilidade. Aliás, este choro seria uma prova de sua qualidade de consciência maior do que a dos outros, aqueles miseráveis seres endurecidos pela aspereza infernal que acomete os que são obrigados a pegar a vida pelos cabelos e domá-la a cada dia, sem perdão.
Na realidade, estas “vítimas” costumam cobrar dos outros aquilo que elas nunca dão: atenção, cuidado, amor desinteressado, lealdade.

Experimente pedir a uma delas alguma coisa: estarão ocupadíssimas com alguma coisa “superimportante” naquele momento “superimportante” de suas vidas “superimportantes”.

Pessoas assim costumam ser muito sensíveis ao sofrimento dos cães e gatos. Choram se virem algum animal sofrendo -mais uma prova de sua superioridade ética (risadas). De novo, antes que o plantão dos humilhados e ofendidos de alguma ONG a favor de piolhos sem lar grite, adoro cães, não tanto gatos. Mas eles também têm “direito” à felicidade, claro.

A chave para o amor aos animais neste tipo de “pessoa sensível” é que amar animais é muito mais fácil. Raramente eles o traem ou o expõem ao ridículo ou o abandonam. Por isso, hoje em dia (uma época dominada pelo marketing de comportamento) é tão comum gente que adora animais e detesta seres humanos. Tem até gente por aí que acha que homens e bichos deveriam ter os mesmos “direitos”. Um dia macacos terão direito ao voto?

Enfim, cuidado com quem se acha “vítima” de um mundo insensível e dominado pelo dinheiro. Ela é, provavelmente, a mais insensível e interesseira de todas.

fonte: Folha de S.Paulo

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