Lances de Caná (3) – O direito à alegria

Ariovaldo Ramos

E, tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm vinho (…) (o mestre sala chamou o noivo) e lhe disse: Todo homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho. Jo 2.3,10
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Os noivos que estavam a celebrar o seu casamento eram pobres: o vinho acabou prematuramente, e era de qualidade inferior.
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A gente sabe que o vinho acabou antes da hora, porque Maria intercedeu por eles, o que não faria sentido se a festa tivesse se estendido pelo tempo, tido como razoável, pela cultura deles.
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O pedido foi para que houvesse mais vinho, para que a festa não fosse interrompida.
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O pressuposto por detrás do pedido era o direito dos noivos à celebração de sua alegria.
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Quando, porém, a celebração da alegria depende de ter ou não acesso aos bens de consumo, quem não tem renda para isso ainda tem o direito?
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É direito ou é liberdade para, desde que se tenha possibilidade de? Se é liberdade para, desde que se tenha possibilidade de, então, não ter a renda necessária impede o acesso aos meios possibilitadores, e sobra o desejo, permitido, mas, não realizável.
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Todos podem ter motivos de alegria, mas, só quem tem acesso aos bens de consumo celebra a sua alegria com a qualidade, que entenda, minimamente, digna!
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Se é direito, os meios têm de ser providenciados, porque direito é universal.
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O que é de se lamentar: um pobre conseguir morar na casa com que sonhou porque virou bandido, ou um pobre só conseguir morar numa casa digna se virar bandido?
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Jesus entendeu que estava diante da exigibilidade do direito (isto é, se é direito, tem de ser garantido), por isso fez um milagre antes da hora, para sustentar o direito dos noivos de celebrar, de forma digna, a sua alegria.
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Viver não é preciso, mas é preciso alegria para que, na imprecisão da vida, fique claro que é vida.
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Alegria que não pode ser celebrada por falta de acesso aos bens mínimos necessários é alegria condenada à resignação, o que acaba por colocar em xeque a definição de vida.
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Jesus entendeu que não devia ser assim, e fez muito e ótimo vinho. Esse ato de Jesus dá aos seus alunos uma nova dimensão do papel da comunidade para com os seus membros, e do estado para com a nação, assim como aprofunda a compreensão do que seja “bem comum”.
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Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, At 2.44-46
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fonte: Blog do Ariovaldo Ramos

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