BBB: Uma abordagem humana demasiada humana

Joe Black

Nunca fiz parte da platéia assídua do Big Brother Brasil (BBB), que assiste todos os dias e aguarda ansiosamente pelas novidades do dia seguinte, mas sempre que tive oportunidade, assisti e acho inclusive que o BBB é super nietzschiano, pois ele coloca pessoas desconhecidas, de diferentes classes sociais, cor, credo, preferência sexual e afins diante da sagrada chance de ficar milionário, e portanto, todos dispostos a fazer coisas que até mesmo “Deus” duvida para alcançar o prêmio.

Sem noção dos dias, das horas, e sob a vigilância frenética e constante de aproximadamente 200 milhões de pessoas, e com limitações espaciais e distracionais devido ao confinamento intenso, engendra-se brechas para que o ser humano mais humano existente dentro de nós apareça de forma fervilhante e escancarada. “Por mais que a gaiola seja chique e tenha conforto, uma gaiola será sempre uma prisão” disse Fidel Castro em Memórias Cubanas (Documentário-DVD 1-são 6 DVDs).

Lá dentro, a força da libido se torna mais potencial e a noção de freio social-existencial diminui, semelhantemente um sujeito drogado e alcoolizado que se torna excitado e com excesso de proatividade. Lá dentro, as pessoas fazem tudo nos extremos: riem demais, choram demais, acabam por falar tudo o que pensam sem pensar muito bem nas consequências, e por não terem “nada” sistemático-rotineiro- social para fazer, falam da vida dos outros e liberam os anjos e demônios interiores.

Eles fazem tudo o que todos nós fazemos, só que enquanto nós do mundo de fora (inclusive os religiosos), fazemos isso mais reservadamente (em off ou em guetos seletos) para não manchar a nossa reputação (persona). Os integrantes do BBB fazem tudo o que um ser humano faz nos bastidores, no entanto, as atitudes são submetidas à uma democracia visual que proporciona juízos de valores tensos com justaposição de contrários.

Esta estrutura conflitante é planejada pelos arquitetos das imagens e poder, para desencadear tanto atração como repulsão, porque o macrotema dos programas é como o amor polissêmico que mata, mas nos faz bem.

Eu particularmente encaro os BBBs como uma ótima oportunidade de observação do comportamento humano e analisá-lo dentro de uma perspectiva lacaniana do espelho e do sujeito que se constrói a partir de deslocamentos pronominais e identificações, pois esses encontros pela vontade de poder, se constituem num palco de interações entre várias personas, um polílogo de vozes pronominais que nos constituem como um eu.

Durante esses retiros televisivos, há uma invocação psíquica de “eus” que sugerem que o eu é um outro, que o eu pode conter a negação do eu, que ela pode vir a ser uma alteridade, constituindo uma pluralidade fissurada de vozes, discursos e camadas, gerando possibilidades de representações e transvocalizações, bem como a presença de figuras retóricas repletas de contradições.

Quem garante que as edições do BBB da REDE GLOBO não serão futuramente temas de debates filosóficos, sociológicos, psicanalíticos e afins em espaços de alto grau de seriedade e prestígio como o CCBB, CAIXA CULTURAL, Universidades e afins? Nos anos 80, meus pais diziam que não deveríamos (não podíamos) assistir as novelas da Globo porque elas eram a voz do Diabo dentro da família. Enfim, desde o ano passado, a telenovela tem sido alvo de debates criativos e profundos no CCBB. Oxalá, se no passado, tivessem deixado o diabo com suas sujeiras invadir meu interior para construir parte de minha cultura.

Certamente, eu não ficaria boiando (com cara de bundão) e me achando um alienado naquelas palestras cabeças do CCBB. Não dá pra ler livros sobre cinema sem ter visto pelo menos bons filmes anteriormente. Não dá para estudar harmonia funcional do jazz, MPB, sem pelo menos, ouvir antes bons compositores (como Chico, Jobim, Edu Lobo, Bill Evans, Coltrane e outros) e transcrever harmonias e improvisos. Ter um vasto repertório na mente é importante para as conexões e assimilações.

fonte: Joe Black

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