A mística e a heresia

Em nove edições, o Seminário de Mística, que ocorre anualmente na Universidade Federal de Juiz de Fora, tem abordado a mística e o diálogo inter-religioso. Idealizado pelo Prof. Dr. Faustino Teixeira, o mais recente evento, que se encerrou em dezembro do último ano, debateu a relação entre a mística e a heresia. Rodrigo Coppe, professor de Cultura Religiosa, acompanhou o seminário e conversou conosco sobre as principais discussões que aconteceram no evento. Na entrevista a seguir, realizada por e-mail, Coppe fala da importância da mística para as religiões no momento atual.

Rodrigo Coppe Caldeira é graduado em História pela PUC Minas, onde é atualmente professor. Realizou mestrado e doutorado em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Pode nos contar um pouco sobre as principais discussões que ocorreram no seminário?

Rodrigo Coppe – O Seminário de Mística tem na pessoa do professor Faustino Teixeira (UFJF) o seu idealizador. É o nono ano que acontece e reúne no antigo seminário da Floresta, em Juiz de Fora, inúmeros estudiosos de mística comparada do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica São Paulo.

Bem. Nos três dias de discussões do seminário de 2010, a perspectiva que norteou a reflexão foi em torno da temática “mística e heresia”, ou seja, os antagonismos que sempre surgem na relação daquele que faz a experiência “fruitiva do Absoluto” ou de suas manifestações, como afirmava Jacques Maritain [1], e a instituição religiosa, com seus mecanismos que visam colocar o carisma da experiência sob seu controle exclusivo. Assim, rapidamente, Luiz Felipe Pondé [2], na sua conferência de abertura – intitulada de “Mística, heresia e aristocracia espiritual” – tratou a temática a partir da leitura de Esprit et liberté de Nikolai Berdiaev [3]. A fim de trabalhar com o conceito de “aristocracia espiritual” do pensador russo, Pondé visou abordar o discurso místico como impacto político. Para o filósofo, o místico desqualifica a instituição, na medida em que ela se mostra como uma herança patrimonial.

Destaco também mais dois momentos: a da comunicação do professor José Carlos Michelazzo [4] que

Shizuteru Ueda

refletiu sobre os impactos do discurso filosófico heideggeriano no estudo da mística comparada. Ele também fez alguns apontamentos sobre a chamada “Escola de Kyoto”, especialmente do filósofo Shizuteru Ueda [5], que faz uma aproximação do zen com o pensamento de Mestre Eckhart. A conferência de Faustino Teixeira – “Teilhard de Chardin e a diafania de Deus no universo” – trouxe aos participantes vários detalhes da perspectiva teológica teilhardiana e os inúmeros percalços que o jesuíta enfrentou devido às desconfianças e inúmeras barreiras levantadas pela instituição à sua atuação intelectual. Faustino apresentou toda a sua turbulenta história e destacou os momentos mais decisivos. Além desses momentos, cabe também destacar a comunicação do professor Dillip Loundo [6] – “Em torno da Bula ‘In agro Dominico’”, aquela que condenou algumas das premissas do pensamento de Eckhart.

IHU On-Line – Qual a importância da mística para as religiões hoje?

Rodrigo Coppe – Foi possível perceber nos debates que a mística se publiciza cada vez mais, seja no campo propriamente acadêmico, seja no campo das publicações não acadêmicas e também nos media.  De fato, a pergunta que se faz é se a mística tem uma validade no mundo contemporâneo, para as religiões desse mundo. O contexto religioso atual é marcado por fanatismos e radicalismos sangrentos, por interesse crescente por diversas formas de espiritualidade, sejam elas tradicionais ou até mesmo seculares (vide O espírito do ateísmo, de Comte-Sponville [7]), por trânsito religioso sem precedentes.

“Não existe diálogo sem uma noção do que se é e acredita”

Uma das necessidades prementes nesse contexto é o diálogo inter-religioso, campo em que a mística pode colaborar enormemente a partir das aproximações entre os inúmeros discursos místicos advindo das diferentes tradições. Fato é que a aproximação das tradições – mesmo pela via da mística – não pode se dar a partir de um “esquecimento” do que as diferencia. Não existe diálogo sem uma noção do que se é e acredita. Assim, por exemplo, para Faustino, partindo do pensamento do teólogo indiano Michael Amaladoss [8], a experiência mística, presente em inúmeras tradições religiosas, nunca deve ser compreendida como uma mesma experiência, o que não significa ipso facto a impossibilidade do encontro e da partilha. Além disso, podemos assinalar mais um ponto: o fato de que as experiências místicas representam, in totum, a limitação do ser humano diante dos mistérios insondáveis do ser.

Quando, por exemplo, lemos em um dos apotegmas de Evágrio Pôntico [9] que “a inteligência, acostumada a limitar-se a conceitos, é então facilmente subjugada; aquela que tendia à gnose imaterial e sem forma, deixa-se iludir e pensa que a fumaça é luz”, estamos diante de uma crítica – que pode ser – aos nossos apegos conceituais, que corriqueiramente não leva em conta que a realidade é muito maior e mais complexa do que nossas possibilidades cognitivas.

Assim, num mundo como o nosso, cheio de respostas prontas, de visibilidade, de aparências, que visa a todo tempo evacuar a dor, o sofrimento e a morte – como se isso fosse possível – talvez uma certa consciência da impossibilidade de abarcar o real e o silêncio que surge dessa experiência, possa ser um caminho de crítica a esta situação.

IHU On-Line – Quais os principais desafios que a mística comparada enfrenta hoje?

Rodrigo Coppe – Os desafios estão no olhar atento dos estudiosos sobre questões que sempre acompanham as perguntas fundamentais dos homens, como o grande mistério da alteridade e da proximidade, o que une e o que separa as diversas tradições místicas, e, consequentemente, quais os caminhos abertos pela mística comparada para a promoção do encontro entre as diferentes religiões. Além disso, pode ser vislumbrado também como um desafio, as novas interpretações das inúmeras experiências místicas através dos tempos, buscando nelas matéria para lermos o mundo sob novas maneiras.

Para o cristianismo, o desafio da mística comparada está na possibilidade de um aprofundamento de uma questão central, que no caso da Igreja Católica do século XX, especialmente em seu momento de auge, com o Concílio Vaticano II (1962-1965), já vinha sendo consubstanciada: a possibilidade de uma experiência autêntica do Absoluto nas diversas tradições religiosas e, de que forma, como se perguntou Maria Clara Bingemer [10] em um de seus textos, elas influenciaram, e continuam influenciando, nas configurações da experiência mística cristã.

IHU On-Line – Em que medida as grandes correntes místicas do islamismo contribuem para a pesquisa na área do diálogo inter-religioso e da mística comparada?

Rodrigo Coppe – A mística islâmica é uma grande fonte de estudos e de possibilidades de pesquisa. Por exemplo: as palavras do místico sufi Djalal-ud-din Rûmî [11] afirmando que “é impossível termos aqui uma única religião” e que se os caminhos são distintos, mas “o objetivo é um só” e as já conhecidas de Ibn ‘Arabi (1165-1240), que professava: “Meu coração tornou-se capaz de todas as formas:/É um pasto de gazelas, o convento do cristão,/Um templo para os ídolos, a Caaba do peregrino,/ As tábuas da Tora, o texto do Corão./ Sigo a religião do Amor./Para onde quer que avancem as caravanas do Amor,/Lá é meu credo e minha fé”, apresentam um islã muito diferente do que somos acostumados a ver no mundo ocidental, e, posteriormente, muito profícuo no caminho do encontro e partilha entre ele e as diversas tradições, sejam abraâmicas ou não.

Para Faustino, uma das grandes contribuições da mística sufi, em suas diversas correntes e escolas, é a “afirmação da proximidade essencial das distintas experiências de fé” – como podemos ver nas palavras dos místicos acima citados – que “é um traço recorrente do sufismo”. Para o teólogo, o que Ibn ‘Arabi nos aponta é para a ideia de que “não se pode tomar o ‘Deus das crenças’ como o Deus transcendente e infinito. Este último manifesta-se em todo o lugar, inclusive nas crenças alheias”.  Podemos citar como um recente exemplo de estudo de mística comparada no Brasil a tese de doutorado de Carlos Frederico Barboza [12], “A mística do coração: a senda cordial de Ibn Arabi e João da Cruz”, editado pelas edições Paulinas.

IHU On-Line – Podemos dizer que as diversas tradições místicas são plurais em seus objetivos, práticas e discursos?

Rodrigo Coppe – A pergunta tem um fundo epistemológico que se substancia na seguinte questão: existe algo que perpassa de forma horizontal e homogênea as experiências místicas? Uma experiência de fundo que perpassa todas elas, nas mais diversas tradições? Pode-se falar, como Frithjof Schuon [13], em uma “unidade transcendente das religiões”?

Claro que esta é uma questão sem uma única resposta, na medida em que os estudiosos se questionam sobre as diversas perspectivas epistemológicas, como o perenialismo – com os nomes mais conhecidos são Aldous Huxley [14] e o já citado Frithjof Schuon – e a abordagem contextualista, que acentua não uma identidade entre as religiões, mas as suas diferenças. A experiência mística não é possível escapar da dinâmica da interpretação e das suas raízes culturais, tradicionais e históricas. Assim, se seguirmos mais de perto os contextualistas, podemos responder afirmativamente: sim, as tradições místicas são plurais em seus objetivos, práticas e discursos.

IHU On-Line – Que provocações a mística apresenta para as propostas de abertura inter-religiosa?

Rodrigo Coppe – É na mística e sua dimensão de gratuidade e de provocação permanente à abertura que se encontram as suas contribuições para o diálogo inter-religioso. O místico, a partir do momento que faz uma experiência profunda do mistério silencioso, mas sempre cheio de significado, da existência, move-se e comunga “para além das fronteiras de sua inserção particular”.

fonte: Unisinos

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