Deus joga pôquer

Paulo Câmara

Numa mesa de pôquer, um joguinho entre amigos…

Um certo conto, jamais contado, até então, detalha um acontecimento extraordinário: uma mesa de pôquer onde apenas convidados ilustres jogam.

Eu, como telespectador quase que invisível, apenas observava a entrada das pessoas. O primeiro a entrar todo faceiro foi Einstein. Carregando uma maletinha cheia de papéis, que imaginara eu, ser anotações de Físicas, mas, que demonstraram ser apenas desenhos de mulheres nuas. Logo se sentou e ficou lá brincando com seus dados.

Se não fosse uma pessoa atenta, quase perderia entrada de Nietzsche e Maquiavel, que entraram numa briga ferrenha, discutiam se os motivos do sucesso do fim justificariam uma vida baseada em mentiras. Era profundo demais… enquanto isso, observava Nietzsche inquieto com os sorrisos cínicos de Nicolau. Se sentaram do outro lado da mesa e nem se importaram com a presença de Einstein, que continuou a jogar seus dados.

Foi quando levei um susto e ouvi várias risadas, uma alegria inundou meu coração de repente, sabia que Deus acabara de chegar. Com ele vinha Moisés seu primeiro parceiro de pôquer (há de se imaginar o motivo de Moisés passar dias e dias nas Montanhas) e também o acompanhava Jesus. De fato era a turma da alegria. Deus, muito engraçado como sempre, se apresentou dançando a Nietsche, jogou os dados de Einstein e tirou a coroa para Maquiavel. Moisés e Jesus acompanharam a cena com um sorriso.

A mesa estava quase pronta, quando de repente toda alegria que havia, foi invadida e silenciada momentaneamente com um certo temor, uma raiva repentina. Belzebu acabara de chegar, trazendo consigo o jovem e franzino Hitler. Uma turma que não costumava blefar. Não eram convidados de fato, mas isso nunca importou para nenhuma dos dois. Se sentaram e já jogaram um baralho na mesa. “Trouxemos o baralho pessoal”. Ninguém caiu no conto do sacana, idéia rapidamente refutada por todos, enquanto Hitler recolhia-se franzinamente em seu canto.

Durante o jogo, embates históricos foram travados. Hitler e Maquiavel encaravam um embate homérico, nenhum dos dois se recusava a sair de uma mão. Para um, os fins justificariam os meios, para o outro, rendição não era um vocábulo conhecido. Logo as fichas acabaram e os dois foram os primeiros a sair.

Ficaram na mesa Deus, Moisés, Einstein, Nietzsche, Jesus e o Diabinho. Einstein não jogava nenhuma mão, ficava distraido com o movimento das cartas e quase sempre pulavam sua vez. Moisés e Jesus, ambos jogadores muito bons, ganhavam a maior parte dos potes. E o Diabo nada mais fazia que tentar enganar todos com truques fajutos. Fato que ninguém dava muita atenção, a sua presença na mesa não era respeitada.

Nietzsche só entrava na mão, quando Deus e o diabo também entravam. Era sua chance de tentar ler e entender o que não foi possível durante sua vida. Até que o silêncio se rompeu, o vermelhinho, talvez petista, exclamou: “Deus esta roubando, ele sabe tudo que vai acontecer!”. Na sua infinita bondade e alegria, Deus replicou: Rabinho, pare de blefar, tenho skill suficiente para ganhar de você seu blefadorzinho. Dito e feito, as mãos se mostraram, Deus estava com fullhouse e o diabo um par de 4. Depois disso, colocou o rabo entre as pernas e saiu de fininho.

Nietsche exclamou com o canto da boca: Deus, você está morto! Na próxima rodada pego você.

Einstein e Moisés atrapalharam o jogo durante horas. Pois travaram um discurso filosofal sobre uma rodada. Einstein provaria de todo jeito que a teoria da relatividade dava a ele o direito de ganhar uma mão. Moisés exclamou: Andei 40 anos no deserto, para um lunáticozinho me encher as paciências? Pediu 10 pragas a Deus, que emputecido com Moisés falou: Os dois, caiam fora daqui.

E assim ficou apenas Jesus, Deus e Nietzsche na mesa. Frederiquinho, disse Jesus: Por onde anda Zaratrusta? Assustado, replicou que Zaratrusta, já tinha dançado. Para a risada de todos, o clima foi ficando mais tranquilo. Deus pediu para sair da mesa, havia muito que fazer por um planeta que havia sido atacado por macacos, e estava na dúvida se fornecia ou não bananas para o mesmo.

Jesus e Frederiquinho, ficaram com todo o pote da mesa. Até que foi proposto, uma última mão, na qual o vencedor ficaria com todo o dinheiro. Nietszche desconfiado, foi logo quebrando o silêncio: “Sejamos claros, Cabelo, não vem com papinho de Morreu na cruz, que poderia estar cantando, peregrinando, mas não, está apenas aqui tentando ganhar um dinheirinho honesto.” Jesus rindo, deverasmente satisfeito, apenas replicara: Há algo maior do que se abrir a mão da vida, para salvar um irmão? Fique tranquilo meu caro amigo, não há nada que eu possa perder, quando alguém há de ganhar.

Bonito, filosófico, mas, enquanto Niestzsche refletia sobre as lindas palavras, Jesus mostrou uma mão perfeita. Tirando o pobre pensador do jogo, que em lágrimas falou: Escreva aí sobre o dia que Nietzsche Chorou, porém saiba você: Pra mim você continua morto, Hunf.

O final acaba assim, sem muitos detalhes. Sem muitas maiores explicações. Creio que até hoje jogam pôquer juntos, penso que essa história se repetirá muitas vezes. Pois na divindade ou na humanidade, ninguém pode resistir a um joguinho entre “amigos”.

fonte: The World Owner

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