A arte cristã está muito domesticada?

Dan Haseltine, do Jars of Clay, reflete se a arte cristã chegou a um estágio de demasiado conforto

Recentemente comecei, no Twitter, um debate sobre palavras. O que começou com algumas perguntas sobre a linguagem, evoluiu para o questionamento do que leva os cristãos a ficarem ofendidos tão facilmente e o que significa viver “separado”.

O catalisador do debate foi uma música do grupo de hip hop Insane Clown Posse [Gangue de palhaços insanos]. No ano passado eles proclamaram sua fidelidade a Deus e a Jesus em uma música chamada Miracles [Milagres], que inclui frases como “a p…a dos ímãs, como eles funcionam?” A reação tola da maioria dos membros da comunidade da fé foi simplesmente considerar a ICP como um grupo absurdo.

No entanto, no ambiente bagunçado da crítica reflexiva, fui obrigado a olhar essa questão mais a fundo. O simples fato de que algo tão agressivo e descarado fosse feito com o pretexto de fazer evangelismo me fez pensar. Foi quase como se Deus dissesse: “Você acha que me conhece? Você acha que entende até onde eu posso ir para alcançar o meu povo? Você acha que sabe quem eu posso usar ou não, ou em qual linguagem eu vou ou não redimir? Olhe só isso!”

Para mim, essa questão não era tanto sobre a integridade do Insane Clown Posse. Na verdade, trata-se de refletir sobre o que é ofensivo. Isso me fez postar algumas questões na Twittosfera. Perguntas como: Uma palavrão bem colocado pode mexer positivamente com a alma? Se alguma coisa é julgada imprópria para crianças, pode  ser vendida ou não pela mídia “cristã”? A arte cristã pode impactar-nos positivamente através de coisas que nos ofendem? O ato de ofender é “antievangélico”?

O dilema da ICP ecoou na controversa fotografia de Andres Serrano “Piss Christ”, de um crucifixo submerso em urina (foto), ou na adaptação cinematográfica do livro de Nikos Kazantzakis, “A Última Tentação de Cristo”, que apresentava uma possibilidade de Jesus desistir das tentações do mundo e viver uma vida completamente humana.

A Igreja respondeu aos dois como quem joga pedras num ninho de vespas. Não viram aquilo como uma expressão artística que gera perguntas significativas ou que revela algo sobre Deus, gerando ao mesmo tempo choque e reflexão.

Não é difícil ofender as pessoas da igreja. Quando a banda Vigilants of Love, lançou uma música sobre sexo chamada Love Cocoon [Casulo do amor], muitos cristãos ficaram ofendidos e o disco sumiu das prateleiras. Eu me lembro de ter visto manifestantes do lado de fora dos shows da Amy Grant quando ela se tornou uma estrela. Parece que os cristãos sempre ficam escandalizados com facilidade. Enquanto interpretarem a ideia bíblica de “separados” ou de “estar no mundo, mas não ser do mundo” como bons motivos para tomarmos uma postura defensiva contra a cultura deste mundo, as ofensas irão se acumulando.

Parece que em nossa arte e compromisso cultural já fomos tão longe na reflexão sobre o Jesus rebelde que não reconhecemos quando ele vem à tona. Ainda reluto com o fato de que Jesus andava com prostitutas não só para dizer o que faziam de errado, mas as amou onde elas estavam. Ele estava no mundo, e seu objetivo era amar. Ele não procurava motivos para ficar ofendido. Ele não procurava desculpas para ficar em casa, seguro e longe do caminho do mal. Não fomos separados para viver separados. Fomos chamados de ‘propriedade de Deus’ para que pudéssemos ir ao mundo com confiança.

Se existe uma arrogância perpetuada na Igreja, a culpa é da nossa arte. Nossa arte descreve o mundo em que vivemos. Não gastamos tempo suficiente com prostitutas e bandidos, bêbados e viciados. Não escrevemos sobre luxúria, medo, ganância, obesidade e vidas quebradas. Relegamos nossa arte a falar sobre como gostaríamos que o mundo fosse, não como ele realmente é. Só ficamos ofendidos porque esquecemos os tipos de depravação em que  viveríamos se não fosse pela graça de Deus…

Talvez devêssemos repensar sobre os limites que estabelecemos para as expressões artísticas do Evangelho da verdade. Precisamos reconhecer que a maioria dos artistas não cria simplesmente para ofender. Gostemos ou não, Jesus deu espaço para o Insane Clown Posse. Se um artista ilumina a verdade, é a verdade de Deus, quer seja o artista cristão ou não. Jesus deu espaço até para que a arte com algum conteúdo sexual possa refletir a sua glória. Ele deu espaço inclusive para expressões artísticas com linguagem ofensiva refletirem a sua glória.

O evangelho que conheço não foi totalmente escrito para crianças. Mas não posso, nem por um segundo, pensar que não é a verdade de Deus só porque algumas frases nele não são apropriadas para meu filho de sete anos. Queremos vencer o medo e nos envolvermos com a cultura onde ela está, reconhecendo que a arte nasce de histórias que acontecem ao nosso redor? São histórias que acabam em redenção, porque Deus disse que seria assim. Elas podem aparecer para nós no comecinho do processo de redenção. Podem ser confusas e ainda estar em estado bruto, mas são honestas. A única coisa que deveria nos ofender é a arte mentirosa.

Dan Haseltine é o vocalista e o compositor principal da banda Jars of Clay. Você pode segui-lo no Twitter no @scribblepotemus.

Tradução de Raíra Cortes para a Agência Pavanews. Texto original da revista Relevant

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