Mão ausente


Toda semana recebo um cartão de Cínthya, é meu álbum de ex-fumante.
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Eu me acordo com a sensação de que estou descabelado. Procuro baixar os tufos com as costas da mão. Seria um gesto insignificante se não fosse minha cabeça totalmente raspada.

Sinto o cabelo ainda que não tenha. Assim como alguém procura mexer uma perna amputada e ousa controlar uma mão ausente.

Fumo não fumando. Permaneço levantando o indicador à boca, optando por permanecer na varanda quando o ar-condicionado está ligado na sala, mexendo no bolso à procura do isqueiro.

Completei três semanas sem cigarro. É pouco para muitos, é muito para mim. Persevero, com a consciência de que não terei paz. Enquanto controlo os dias, permaneço fumante. Serei fumante sempre. Um hábito de 22 anos não desaparece por completo. É isso, não há conserto.

É engraçado escrever para não fumar quando eu só escrevia fumando. O cinzeiro é vaso de clipes e elásticos (por que não o joguei fora?). O suor é frio, a pressão sobe e desce, brinca de abrir veias com os poros.

É uma febre sem febre, um vazio transbordando, uma greve do corpo. A fissura pode durar alguns minutos. É fulminante, de farejar o vento à cata de um cigarro aceso nas proximidades. Meus olhos estão no olfato.

Venho elaborando teorias para aliviar o sufoco. Uma delas é que ia de carro ao trabalho, troquei pelo metrô. Mudei meu transporte, meu itinerário, demoro mais para chegar, mas a viagem é mais em conta.

Convenço-me por inversões. Fui feliz quando fumei, não é que deixei de ser feliz.

A mulher Cínthya me anima dia e noite, nos dias que são minha noite. Avisa que os fortes conseguem. Tem funcionado sua guerra psicológica, entendo que apenas o maniqueísmo reabilita viciados. Mas há fortes que fumam, há fracos que não fumam, há fracos que param de fumar, fortes que voltam a fumar.

Desagradável é que perdi a credibilidade. Qualquer desejo durante a abstinência é desmerecido, confundido com a intenção de interrompê-la. Ao me mostrar solícito para fazer compras ou passear com o cachorro, transmito a suspeita de que assaltarei a primeira tabacaria que encontrar.A opinião se mantém viciada aos familiares.

O sofrimento ganhou um novo fiador. Se estou mal-humorado ou dispersivo ou calado, é culpa da privação. Também me aproveito da fama quando careço de explicações para grosserias ou para não precisar pedir desculpa.

O que se evidenciou no processo é a rixa entre fumantes e não-fumantes. Já larguei a correria do primeiro grupo para entrar na concorrência do segundo.

No começo, existia um boicote dos fumantes baforando perto de mim, simulando discussão, reavivando lembranças. Sugeriam que comemorasse a marca de três semanas com unzinho.

Vejo agora uma disputa entre os que pararam de fumar, para ver quem é o mais ex-fumante. Verdade. Como todo antigo tabagista se acha um vencedor, a turma luta pelo melhor tempo. Quanto mais longo, melhor. É uma maratona de retardatários.

Ontem avisei do meu desempenho e um amigo replicou: “Isso não é nada, eu estou sem fumar há vinte anos”. Outra amiga pediu a palavra: “Parei há três décadas”. E formou-se um grupo de atletas reivindicando o recorde sul-americano.

A mania por marcas é a base das dietas e das reabilitações. A vida se transformou num esquisito e insuperável guiness book.

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