O Twitter não faz revolução. Mas ajuda

Uso de redes sociais, blogs e celulares em levantes populares como os ocorridos no Egito e Tunísia mostra que essas tecnologias podem ajudar a coordenar manifestações contra ditaduras, avessas à liberdade de informação

Jadyr Pavão Júnior e Rafael Sbarai

Manifestantes utilizam telefone celular durante protestos na Tunísia Manifestantes utilizam telefone celular durante protestos na Tunísia (Fred Dufour/AFP)

Nas últimas semanas, o mundo assistiu apreensivo e esperançoso ao sopro de inconformismo que fez balançarem duas ditaduras velhas de décadas. É uma situação tão rara no mundo árabe quanto a passagem do cometa Halley pela vizinhança da Terra. A soma de insatisfações – incluindo a ausência de liberdade de expressão – fez com que milhares de pessoas marchassem em protesto pelas ruas de Egito e Tunísia, de onde o ditador Zein al-Abidine Ben Ali foi catapultado. Nos dois casos, manifestantes contaram com a ajuda, em graus a serem precisados, de componentes cada vez mais comuns em situações desse tipo (confira o infográfico abaixo): a internet e o telefone celular. Na Tunísia, ativistas utilizaram Twitter e Facebook para organizar protestos. No Egito, blogs e também as redes sociais. Os episódios reaquecem o debate sobre qual é, afinal, o potencial dessas tecnologias quando o assunto é ativismo político, e opõem dois grupos de analistas: os “ciber-utópicos”, que acham que blogs e celulares tudo podem, e os “ciber-céticos”, que pensam o oposto. Vale adiantar: como é de sua natureza, os radicais radicalizam, e o potencial do ativismo via tecnologia está em um ponto entre os extremos.

A turma dos ciber-utópicos fez seu début em junho de 2009, depois que os iranianos saíram às ruas para protestar contra a eleição fraudulenta que reconduziu Mahmoud Ahmadinejad à presidência do país controlado pela ditadura dos aiatolás. O assunto foi o mais comentado do ano no Twitter, superando até a morte do astro pop Michael Jackson, o que levou os utópicos a cunhar a expressão “Revolução do Twitter” e a apostar que essa ferramenta seria responsável por revoluções. O trecho de um editorial do respeitado jornal americano Washington Postcaptou o clima (otimista) da época: “O imediatismo dos tweets foi emocionante, com um fluxo de atualizações com fotos e vídeos que mostrou um retrato de crise no país. O que estamos vendo é a chama tremulante da liberdade.” Um assessor do ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush chegou a sugerir que o Twitter fosse indicado ao prêmio Nobel da Paz pelo papel na crise. O governo de Teerã, contudo, não caiu: reprimiu os protestos e bloqueou serviços de internet. O episódio deixou a impressão de que a turma dos ciber-utópicos sobrecarregara de expectativas as asas do Twitter, fazendo do microblog a panaceia antiditaduras.

A resposta dos ciber-céticos veio na mesma intensidade, em sentido oposto. O primeiro contra-ataque foi comandado pelo pesquisador iraniano Hamid Tehrani, que tentou colocar os fatos ocorridos no Irã em sua real dimensão. “Houve uma sobrevalorização do Twitter. O país contou com menos de 1.000 usuários ativos. O maior volume de informações propagadas no microblog veio do Ocidente, de pessoas que não estavam no local. Quando alguém comentou que havia 700.000 pessoas protestando em frente a uma mesquita, descobriu-se que apenas cerca de 7.000 pessoas compareceram”, escreveu.

Se os ciber-utópicos haviam jogado a internet e o celular nas alturas, coube ao jornalista e escritor canadense Malcolm Gladwell colocá-los abaixo do chão, em artigo publicado pela revistaNew Yorker e entitulado “A revolução não será tuitada”. O americano se apoiou em duas teorias clássicas. A primeira defende que o “ativismo de alto risco”, aquele em que o indivíduo coloca a própria vida em risco, só é possível quando os participantes mantêm vínculos pessoais fortes – ou seja, depende de tête-à-tête. As redes seriam o inverso disso e só possibilitam vínculos frouxos – daí, a facilidade com que, sentadas na praia, com o notebook no colo, tantas pessoas aderem a abaixo-assinados em favor da independência do Tibete. Além disso, diz Gladwell, as redes, por natureza, conferem a todos os integrantes igual poder e nenhuma hierarquia – e organização e liderança são fundamentais ao ativismo político, prova a história.

Levante a levante, contudo, os argumentos dos ciber-céticos são enfraquecidos pela realidade. Ditaduras como Bielorrússia, Moldávia e Tailândia, além de Egito e Tunísia, já conheceram o impacto que a tecnologia pode emprestar à oposição. No caso da Tunísia, universitários lançaram mão de Twitter e Facebook para organizar protestos. O estopim foi a morte de Mohamed Bouazizi, vendedor ambulante que teve sua mercadoria apreendida pela polícia e, desesperado, ateou fogo ao próprio corpo na pequena cidade de Sidi Bouzid. A população local protestou. Para atrair simpatizantes, ativistas compartilharam com concidadãos, via rede, documentos vazados pelo site WikiLeaks que mostravam casos de corrupção no governo. Um dado eloquente: um em cada cinco tunisianos está cadastrado no Facebook. Ou seja: ao contrário do Irã, não há razão para duvidar da informação de que a população teve acesso à agitação virtual.

O fato de os céticos estarem errados significa, necessariamente, que os utópicos estão certos? Não. No caso da Tunísia, o movimento antigoverno de fato contou com ajuda das redes. Mas, ao chegar às ruas, ganhou sua própria dinâmica, atingindo a capital, Tunis, e só derrubou o ditador Ben Ali após quase um mês de pancadaria no “mundo real”. “É questionável a tese de que as redes já têm um papel determinante em uma revolução”, afirma o espanhol Enrique Dans, professor de sistemas de informação da IE Business School. “Mas é fato que elas atuam na coordenação de informações e, assim, assumem relevância nessas situações.” Não por acaso, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, defende que a liberdade de informação, em geral, e o acesso à internet, em particular, são elementos definidores do destino de cidadãos de todo o mundo – especialmente daqueles que vivem sob o jugo de ditaduras.

Outro defensor da ideia de que blogs, redes e afins podem atuar como propagadores de informação, Clay Shirky, professor de novas mídias da Universidade de Nova York, aposta que essas ferramentas podem provocar não apenas vendavais contra ditaduras, mas também brisas para democracias. O caso exemplar seria a eleição espanhola que se seguiu aos atentados terroristas de 2004. No dia 11 de março, bombas explodiram em trens de Madri, matando cerca de 200 pessoas. O então primeiro-ministro José María Aznar veio a público e atribuiu a ação ao grupo separatista basco ETA, que há décadas desafia Madri. Alguém desconfiou da versão. Segundo Shirky, o torpedo contra Aznar partiu de uma mensagem de texto (SMS) que circulou inicialmente entre cinco pessoas e dizia que, com a história, Aznar fazia um cálculo político. A poucos dias da eleição, ele tentava desviar a atenção pública da real mandante dos ataques, a Al Qaeda, que se voltara contra a Espanha porque o país participava militarmente da ocupação do Iraque. A mensagem teria sido replicada à exaustão entre eleitores. No dia 14 de março, José Luis Rodriguez Zapatero, que até então não era favorito na eleição, saiu vitorioso das urnas. A Espanha iniciou a retirada do Iraque naquele mesmo ano.

Ditadores nas redes – A força da tecnologia não foi percebida apenas pelos opositores e democratas. Ditadores a conhecem. Às vezes, eles tentam usá-la em benefício próprio. Outras, esmagá-la. Nesta semana, os serviços de internet e telefonia móvel foram suspensos no Egito, horas antes de uma manifestação de opositores prevista para acontecer em várias cidades do país. Foi a expressão do que o ministro egípcio do Interior, Habib al Adly, definira como “medidas drásticas e decisivas” para conter os protestos. Às vésperas de cair, o ditador tunisiano teria tentado impor o mesmo tipo de controle sobre as comunicações – tardiamente, contudo. Teerã levou o bloqueio de serviços a cabo em 2009. Ahmadinejad mostrou também seu lado ardiloso: determinou o desbloqueio do Facebook por um período determinado com o objetivo de identificar dissidentes. Recentemente, um tribunal do país condenou Hossein Derakhshan, um dos primeiros blogueiros locais, a mais de 19 anos de prisão por “cooperação com países hostis, propaganda política e insulto a figuras religiosas”. Derakhshan ficou conhecido por publicar na rede instruções sobre como iniciar um blog no idioma farsi, dando início à explosão de blogs na língua oficial do Irã.

Em outros casos, os governos promovem contra-ataques pelas redes. Fazem perceber que permanece atual o famoso alerta do político americano Hiram Johnson, segundo o qual, na guerra (ainda que virtual), a verdade é a primeira vítima. Na Moldávia, em 2009, funcionários do governo criaram perfis falsos no Twitter com a missão de espalhar boatos e provocar instabilidade no país. O objetivo era justificar medidas de força por parte do governo comunista. “O fato de que há governos ditatoriais tentando cercear a liberdade de expressão da população demonstra que as plataformas digitais têm sua importância no embate político”, avalia Adriana Amaral, professora do programa de pós-graduação em ciências da comunicação na Unisinos. A revolução pode não ser tuitada, como previu Malcolm Gladwell, no sentido de que um Twitter só não faz a revolução. Mas as que acontecerem no século XXI, é certo, passarão pelo Twitter e similares.

fonte: Veja

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