Evolução do Protestantismo Brasileiro

Alexis Carvalho
Evolução do Protestantismo Brasileiro

Simplíssio era um idiota. E era também evangélico. Separo assim uma coisa da outra para não parecer ilação obrigatória, mas o fato a que quero me prender neste relato tem realmente origem originalíssima.

Seu pai, eminente pastor-titular membro honoris causa da Academia Evangélica Literária Boanergense de Letras Eruditas, resumia-se a um reles analfabeto funcional, um tiririca da vida. Assim, ao registrar o filho, disse ao funcionário do cartório que não aceitava registrar “Simplício” pela analógica cacofonia onomatopaica que o termo mantinha com “suplício”, e que, ademais, exigia “Simplíssio” porque — eram esses seus pensamentos — os dois sibilantes esses formavam a formidável desinência morfológica genérica dos absolutos superlativos sintéticos. O escrivão, assombrado (?!) com o argumento e agradecido pelo reforço pecuniário aludido em última hora, deu de ombros e fez a vontade do genitor.

Resolução tomada, anotação executada. O efeito disso tudo, contudo, jamais foi simplíssimo. Simplíssio passou toda a vida escolar sofrendo com as chocarrices dos colegas e constituiu-se em preferido alvo de chacotas por causa do erro de ortografia em seu nome. — “This is é bulíngui” — sentenciava o pai, em inglês erudito, posto que também se autointitulava especialista bilíngue.

Tal deformação de autoestima psicológica talvez explique, então, porque Simplíssio sempre colocava diante de si a necessidade de ser mais que os outros. Principalmente na igreja. Se um diácono tocava a trombeta na hora que ia dar uma oferta, Simplíssio tocava a trombeta e alugava uma claque de alunas de música sacra; se um presbítero passava cal no seu sepulcro, Simplíssio pintava o cemitério inteiro; se um obreiro coava um mosquito, Simplíssio engolia o camelo!

Exagero dos exageros, entretanto, ocorreu quando Simplíssio achou que era pouco ser criacionista: — “Qualquer macaco é criacionista“ — ponderava muito severamente, tentando explicitar que mesmo os animais tinham consciência de um criador. Simplíssio desejava mais. Pensou… e meditou. Supletivo… supletivo. Eureca! Espanto… Nem mesmo seus amigos mais chegados puderam acreditar quando Simplíssio expôs sua ideia inusitada de explicar os desenvolvimentos históricos do protestantismo no Brasil a partir do mecanismo de seleção natural proposto por Charles Darwin.

— “É muito simples”. — gesticulava Simplíssio eufórico — “A concepção de protestantismo brasileiro mais primitiva foi a de Antonio Gouvêa Mendonça com a tese de Celeste Porvir, e depois veio o Rubem Alves com aquele papo de Protestantismo de Reta Doutrina.”

Seus ouvintes, olhos esbugalhados, nem piscavam. — “Nada disso se adaptou ao meio, pois os protestantes desistiram desse negócio de salvação no celeste porvir e declararam que tomavam posse das bênçãos mercantilistas aqui e agora, e aí o Antonio Gouvêa sofreu seleção natural e entrou em extinção, vocês entendem?” — Ninguém entendia nada. — “A explicação do Rubem Alves, então, tornou-se australopatética, porque qualquer abestado pode perceber que os protestantes hoje em dia não estão nem aí para nada que seja reto, quanto mais reta doutrina!”.

O infeliz do Rubem Alves, aliás, foi quem mais sofreu na mão do fundamentalista neodarwinista: — “É por isso que evolucionariamente ele escreve agora sobre Educação, pois seu livro dos anos setenta, Protestantismo e Repressão, entrou em extinção!” — vociferava altissonante Simplíssio, pulando como um primata ancestral: — “Ele classificou o movimento batista como protestantismo de missão, e todo mundo sabe que é de omissão!” — gritava, babando: — “E quem disse que há protestantismo de imigração? Só existe imigração por conveniência!” — o homem estava louco.

Em linhas gerais, a teoria da seleção natural evolucionária do Protestantismo Brasileiro era simples de entender, o problema era que o proponente incorporava uma histeria escatológica: — “O mais primitivo dos primitivos eram as Capitanias Hereditárias com suas Distribuições, na época da colônia veio a Maria Louca com suas Determinações, depois vieram as Denominações, depois as Demonizações, as Tribulações, a Grande Tribulação, o Juízo Final, e o Apocalipse!” — Simplíssio assustava a todos com sua lógica peculiar: — “De acordo com Darwin, a evolução parte daquilo que é universal até atingir um estágio mais regular. Outrossim, o protestante mais neanderthal é o da Igreja Universal, e o mais evoluído o da Batista Regular!”.

Ao indicar o nível mais evoluído e sublime dentre os inúmeros tipos de protestantismos brasileiros, porém, Simplíssio acendeu o estopim da crise. O ambiente transmudou-se em Torre de Babel. Ninguém mais concordava, ninguém mais falava o mesmo idioma. Os metodistas alegavam serem os mais evoluídos e autênticos sobreviventes do processo de seleção natural porque sobreviveram aos diversos bispos da igreja. Outros divergiam alegações semelhantes quanto a seus próprios líderes. Os assembleianos acenavam com a distinção do dom de línguas estranhas, os adventistas com a guarda do sábado, a Congregação Cristã com o legalismo, e a Internacional da Graça com a capacidade de tirar dinheiro dos incautos. Tudo era argumento para indicar grau de evolução. O pandemônio da discussão parecia não chegar a lugar algum.

Lá pelas tantas — “Aleluia!” — alguém profetizou em línguas de anjos, contra-argumentando que, na prática, o que se verificava era mais ou menos o seguinte: O protestante brasileiro, via de regra, nascia católico (nascer luterano ou anglicano era para filho de emigrante), depois se convertia e virava batista ou presbiteriano. Ocasião, sobretudo, em que surgia a primeira ramificação filogenética importante, pois se o sujeito fosse de teologia liberal iria virar, posteriormente, luterano, anglicano, ou membro da Igreja Presbiteriana Unida (acabando no inferno, hehehe). Mas, segundo o ramo mais majoritário e hegemônico, batistas, presbiterianos e congregacionais tendiam a virar, primeiro, renovados, carismáticos ou pré-pentecostais, depois pentecostais.

Ora, a Assembleia, Maranata, Brasil para Cristo, Deus é Amor, Casa da Bênção, Quadrangular, Holiness e wesleyanos, que já começavam a evoluir deste patamar pentecostal, ajuntavam-se, então, aos egressos da Renovação Espiritual e todos prosseguiam evolucionariamente de modo convergente. Sendo a sequência em direção a neopentecostais, pós-pentecostais, não-pentecostais, baboseira profética, e maluquice geral. Com a ressalva de que só em momento muito posterior, ou idade avançada, após passarem por seleção natural em cada uma dessas etapas evangélicas, é que os protestantes voltavam para as suas igrejas tradicionais.

Contra fatos, não há argumentos. Os ânimos aos poucos foram serenando. Os semblantes suspiraram aliviados. Todavia, justamente no momento quando Simplíssio parecia prestes a costurar um consenso, surgiu do meio do nada um calvinista supralapsariano (evolução, portanto, dos infralapsarianos) que gritou: — “Então, a evolução é uma predestinação!” Ahhhhhhhhh! O coração combalido, pobre Simplíssio, não pôde mais resistir. Infarto fulminante.

Agora, conto esse episódio pormenorizadamente porque eu mesmo ouvi tal relato no velório, já que trabalho como capelão no ministério aos enlutados. Peço até desculpas por falar da evolução do protestantismo brasileiro e acabar com a história num cemitério, mas, a bem da verdade, o que eu acompanhava mesmo era o velório da sala ao lado. Contudo, não passou despercebido o estranho ritual que a família de Simplíssio promovia em relação ao ente falecido. Todos os velórios comentaram tal coisa e era assunto recorrente mesmo ao pé das covas. Realmente, não posso negar que fiquei de fato perplexo com o procedimento que adotaram com o corpo do coitado do Simplíssio, já dentro do caixão, pois passavam no cadáver toda sorte de cremes para a pele. E esfregavam o creme nos braços, nas pernas, nos pés, no rosto, nas mãos. E pegavam mais creme e lambuzavam tudo de novo.

Aproximei-me da família e perguntei: — “É tradição de sua denominação?”. O pai foi quem me esclareceu: — “Não, é originalíssimo, é a primeira vez que fazemos isso. É que ele pediu para ser cremado.”

Fonte: Novos Diálogos

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