Céu de publicitário

Lula Vieira

Uma do baú para você. Velhinha, mas muito boa. No tempo da JMM a gente tinha a conta da Líder Táxi Aéreo (a Líder Vai Lá). E tinha também um pedaço da Fiat, ainda na fase de implantação em Betim. As duas empresas com sede em Belo Horizonte.

Pois bem, certo dia eu precisei ir a Minas apresentar à Fiat um folheto que mostrava o impacto daquela empresa na economia mineira. Ao mesmo tempo, um boy da JMM foi encarregado de entregar na Líder um material qualquer, coisa de rotina, para ser colocado no malote e enviado para Belo Horizonte.

Pois bem, a criação atrasou um pouquinho e, para não perder a hora da reunião, Medeiros (o dono da agência) acabou aceitando a ideia de pagar um jatinho para me levar, pois do contrário as consequências políticas seriam terríveis. Doeu-lhe na alma, mas fazer o quê?

Enquanto isso, o boy que ia levar o material da Líder teve que cuidar de um problema qualquer e escolheram um estagiário da mídia para dar um pulinho no hangar da Líder no Aeroporto Santos Dumont e entregar o envelope destinado ao escritório central da empresa. Coisa tão primária que ninguém se preocupou em ficar explicando os detalhes da missão. Disseram: “Vai lá na Líder e manda entregar esta merda em Belo Horizonte. Vá a jato!”.

Ao mesmo tempo (olha o destino armando das suas!) minha secretária (onde andará a Beth?) reservou um jatinho da Líder para me levar a BH, com todas as honras de cliente VIP, parceiro de negócios e – porra – diretor de criação da gloriosa JMM.

Daí deu-se a merda toda. O pistoleta do estagiário chegou a Líder meia hora antes do horário marcado para mim e se apresentou como “da JMM”. Não deram tempo para ele respirar. Levaram-no para o hangar, cheios de rapapés, enfiaram ele num jatinho, já com as turbinas quentinhas. E lá foi o deslumbrado comendo empadinhas e bebendo uísque escocês, na primeira viagem de avião de sua vida.

Mal o infeliz aterrissou na Pampulha, cheguei a Líder no Rio. “Sou da JMM”, disse eu, com a maior empáfia. “Larga o envelope aí”, me responderam, achando que cada vez mais apareciam boys folgados neste mundo.

Depois de meia dúzia de palavrões e algumas ameaças, desfez-se o engano. O viadinho que estava em Minas reclamando da falta de água Perrier no seu uísque não era o cliente que tinha urgência de ir para Minas. Em compensação o gordo à beira de um ataque de nervos era esperado numa imensa reunião com os italianos, que cada vez mais se convenciam de que o Brasil é parecidíssimo com a Itália: uma esculhambação só.

Conclusão: alguns minutos mais tarde, dois jatinhos se cruzaram nos céus das Alterosas: um levando este seu amigo bebendo Logan pelo gargalo, na esperança de se acalmar, e um outro trazendo um estagiário aproveitando a mordomia da volta, sabendo que lá embaixo a dura realidade o esperava.

Diz a lenda que o sacana não ficou só nisso. Com a certeza da impunidade, já que não tinha pedido a ninguém para ser transportado para lá e para cá de jato fretado, ofereceu carona para duas senhoritas que estavam no aeroporto esperando o voo para o Rio, a fim de visitar umas primas que moravam em Copacabana. O puto não só disse que o avião era dele, como exigiu champanhe a bordo, coisa que o Medeiros se recusou a pagar. Injustamente, aliás.

fonte: Propaganda & Marketing

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