Redes sociais enfrentam onda de ceticismo e críticas

Paul Harris

A maneira como as pessoas se comunicam freneticamente online usando Twitter, Facebook e mensagens instantâneas pode ser visto como uma forma de loucura moderna, segundo uma importante socióloga norte-americana.

“Um comportamento que se tornou comum e ainda é capaz de expressar os problemas que no passado nos levaram a vê-lo como patológico”, escreveu a professora Sherry Turkle, do MIT, em seu novo livro, Alone Together [Sozinhos Juntos]. Ela lidera um ataque à chamada “era da informação” e seu livro causou furor nos EUA, onde foi entrevistada em talk shows conhecidos. Um dos fatos destacados por ela é pessoas usarem smartphones durante funerais.

A tese de Turkle é simples: a tecnologia está ameaçando dominar as nossas vidas e nos tornar menos humanos. Mesmo proporcionando a ilusão que vamos nos comunicar melhor, a tecnologia acaba nos isolando das interações humanas reais. Ela nos coloca em uma realidade virtual, que é nada mais é que uma imitação medíocre do mundo real.

No entanto, o livro de Turkle não é o único a falar disso. Um movimento de retaliação nos EUA está advogando uma rejeição de alguns dos valores e métodos da comunicação moderna.  “É um grande retrocesso. Os diferentes tipos de comunicação usados pelas pessoas tornaram-se em algo assustador”, disse o professor William Kist, especialista em educação da Universidade Estadual de Kent, em Ohio.

A lista de ataques às mídias sociais é longa e vem de todos os cantos do mundo acadêmico e da cultura popular. Em um recente best-seller norte-americano, The Shallows [Os Superficiais], Nicholas Carr sugeriu que a maneira como usamos a internet está mudando o nosso modo de pensar, a ponto de nos tornar menos capazes de absorver informações mais extensas e complexas, como as de livros e artigos de revistas. O livro baseou-se em um texto que o pesquisador escreveu na revista Atlantic. O artigo, igualmente enfático, tinha como título: “O Google está nos deixando idiotas?”

Outra linha de pensamento na área de ciberceticismo é vista em The Net Delusion [A Ilusão da Rede], de Evgeny Morozov. Ele defende que as mídias sociais produziram uma geração de ativistas passivos, ou “passivistas”. Elas deixaram as pessoas preguiçosas e criaram a ilusão de que clicar o mouse é uma forma de ativismo semelhante a doar dinheiro e tempo no mundo real.

Outros livros sobre o tema são The Dumbest Generation [A Geração Mais Idiota], de Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory – onde ele defende que “o futuro intelectual dos EUA é sombrio” e We Have Met The Enemy [Nós Encontramos o Inimigo], de Daniel Akst, que descreve os problemas de autocontrole no mundo moderno, onde a proliferação de ferramentas de comunicação acabam sendo um elemento essencial.

Esse movimento de retaliação tem atravessado o Oceano Atlântico. Em Cyburbia, publicado na Inglaterra no an passado, James Harkin pesquisou o mundo tecnológico moderno e encontrou algumas possibilidades perigosas. Embora Harkin não seja um cibercético puro, ele encontrou muitos motivos para ficar preocupado, mas também satisfeito com essa nova era tecnológica. Por outro lado, o bem-sucedido filme A Rede Social é visto como um ataque velado a essa “geração das mídias sociais”, ao sugerir que o Facebook foi criado por pessoas que não conseguem se encaixar no mundo real.

O livro de Turkle, contudo, é o que tem gerado mais polêmica. É um desafio para deixarmos o smartphone fora do nosso alcance e ignorarmos o Facebook e não acessar o Twitter. “Nós inventamos tecnologias inspiradoras e sofisticadas, mas ao mesmo tempo permitimos que elas nos diminuíssem”, escreveu ela.

Outros críticos apontam para inúmeros incidentes para reforçar sua argumentação. Recentemente, a cobertura da mídia sobre a morte de Simone Back, moradora da cidade de Brighton,  mostrou que a mensagem de suicídio que ela postou no Facebook, foi vista por muitos de seus 1.048 “amigos” no site. Porém, nenhum deles pediu ajuda ou fez algo a respeito. Ao invés disso ficaram trocaram insultos através do mural do Facebook de Simone.

Porém, a retaliação produziu outra retaliação, e muitos passaram a defender as mídias sociais. Eles afirmam que o e-mail, o Twitter e o Facebook têm gerado mais comunicação, não menos – especialmente entre as pessoas que podem ter dificuldade em se encontrar no mundo real por causa de grandes distâncias ou diferenças sociais.

Defensores dizem que as redes são apenas uma forma diferente de comunicação e que algumas pessoas podem ter problemas para se acostumar. “Quando você entra em uma ambiente e todo mundo está em silêncio diante do seu laptop, entendo que ela quer dizer sobre não quererem falar com outras pessoa”, disse Kist. “Mas eles ainda estão se comunicando. Por isso discordo dela. Não acho que é uma questão tão preto no branco.”

Alguns especialistas acreditam que o debate tornou-se tão intenso porque as redes sociais são um campo novo, que ainda precisa desenvolver regras e uma etiqueta que todos possam respeitar. “Vamos ter de enfrentar isso. Não vejo nenhum sinal que as pessoas querem se desconectar”, disse Kist.

Ele também ressaltou que o “mundo real” a que muitos críticos das mídias sociais se referem, nunca existiu de fato. Antes que as pessoas viajassem de ônibus ou de trem com a cabeça enfiada na tela de um iPad ou de um smartphone, elas geralmente viajavam em silêncio. “Não víamos as pessoas conversando espontaneamente com estranhos. Elas simplesmente ficavam isoladas”, finalizou.

Fonte: The Guardian. Tradução e edição: Agência Pavanews

Comentários

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2 Comentários

  1. fatima paiva disse:

    Fantastico, é a mais pura verdade, estamos  nos tornando marionetes , fragmentados  sem estimular o pensamento complexo do nosso cerebro, e o que a gente não usa atrofia.

  2. João disse:

    Os jovens que já nasceram com internet e redes sociais em algumas oportunidades chegam a exibir nojo de livros ou mesmo ligar preço alto a conteúdo de qualidade em um livro. Eles chegam a pensar tudo do ponto de vista do tablet e do smartphone e se esquecem que quem criou tudo isso tinha no maximo uma calculadora cientifica limitada.

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