Novos ventos políticos: Maghreb e Oriente Médio

Robinson Cavalcanti

Um cidadão toca fogo em si mesmo e incendeia o seu país: a Tunísia, resultando na derrubada de uma ditadura. Entre uma coisa e outra as redes sociais de comunicação furam a censura e mobilizam a população. O fenômeno começa a se espalhar por todo o norte da África e Oriente Médio, inclusive o seu mais importante e mais populoso país: o Egito.

Essa região viveu por séculos sob o tacão de impérios: o Romano, o Romano do Oriente (Bizantino), o Otomano (Turco), e, contemporaneamente, sob o poder britânico, francês, espanhol ou italiano.

Uma independência recente, já na vigência da “Guerra Fria”, em que o autoritarismo era justificado em nome da “segurança” contra os “comunistas” (ou seja, qualquer oposição). Os “comunistas” foram substituídos pelo “islamismo radical” a ser combatido como justificativa para a ausência de liberdades políticas, com todos os contrários na cadeia, no exílio ou no silêncio.

Se olharmos para o mapa daquelas regiões, o que encontraremos? Emirados feudais, monarquias absolutas e ditaduras republicanas. Algumas com um arremedo de parlamento e de eleições, outras nem tanto. Essa gente, sob o colonialismo ou sob as autocracias dos seus nacionais, nunca conheceu democracia, direitos humanos ou justiça social.

Mas aí vem uma classe média com nível universitário, viajada; vem a televisão via satélite e a internet, que se juntam a uma multidão vivendo abaixo da linha de pobreza. Começa o que está sendo descrita como a “Revolução de Jasmim”, com ditadores corruptos correndo ou fazendo concessões, sob o olhar atordoados dos países ricos do Ocidente que não têm a democracia como valor universal, mas estão apenas preocupados com a “estabilidade”, particularmente dos poços de petróleo.

No caso particular do Egito, após a Independência conheceu a monarquia deixada pelos ingleses (rei Farouk), o golpe republicano do general Nagib, o autoritarismo pan-arabista e socialista do coronel Nasser, a guinada pró-Ocidental de Sadat e a longa ditadura (mais de 30 anos) do atual Mubarak, também egresso das forças armadas, garantidoras e beneficiárias do regime.

Para um mundo “democrático” ou para outras expressões do autoritarismo (como a China) esse negócio de povo na rua “é um perigo”, inclusive aqui, onde se tecem loas à representatividade formal do parlamento, e onde a expressão “a questão social é uma questão de polícia” não foi ainda superada por uma verdadeira democracia política, econômica e social.

Todos nos preocupamos com as discriminadas ou oprimidas minorias cristãs nesses países mulçumanos, onde, para citar o caso do Iraque, Saddam Hussein garantia mais direitos religiosos do que a atual “democracia” montada pelos Estados Unidos. O Egito tem a maior dessas minorias, com 10% da população integrando a Igreja Copta (formada por descendentes dos egípcios originais, pré-árabes), uma expressão pré-calcedônica/jacobita, chefiada pelo Papa Shenouda III.

O que está acontecendo naquela região atesta que não há um “fim da História”, e, como no caso do colapso súbito e inesperado do Império Soviético, há sempre surpresas e o povo insiste em ser um ator relevante, mesmo quando os tiranos o consideram incapaz. Sou de um tempo em que se dizia que o povo brasileiro “não está preparado para a democracia”. Ouve-se, agora, esse discurso por lá. Em todos os casos, falta perguntar ao povo…

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