É possível alguém se tornar ateu aos 8 anos de idade?

O ator e humorista inglês Ricky Gervais ficou conhecido por sua participação no seriado The Office. Também já escreveu, dirigiu e estrelou o controverso filme “O Primeiro Mentiroso” e hoje tem seu próprio programa de comédia na HBO. Sua crescente fama o levou a apresentar por dois anos seguidos o prêmio Globo de Ouro, que para muitos é uma prévia do Oscar.

Além de atuar no cinema e na TV, Gervais também é um defensor ferrenho do ateísmo. Sempre que pode, ele aproveita as entrevistas e seu espaço na mídia para provocar os cristãos e ridicularizar a fé que têm. Boa parte de “O Primeiro Mentiroso” é uma crítica contundente à visão bíblica de Deus. Ironicamente, no Globo de Ouro deste ano ele agradeceu a Deus por tê-lo criado ateu.

O humorista recentemente escreveu um artigo polêmico no jornal Wall Street, no qual conta como tornou-se ateu aos 8 anos de idade. Eis a transcrição de parte do texto.

Eu acreditava em Deus. Quero dizer, o Deus cristão.

Eu amava Jesus. Ele era meu herói. Mais do que estrelas da música, mais do que jogadores de futebol e mais que Deus. Deus, por definição, é onipotente e perfeito. Jesus era um homem. Ele tinha de trabalhar duro. Ele enfrentou tentações, mas derrotou o pecado. Jesus tinha integridade e coragem.

Porém, ele era meu herói porque era bondoso. Era bom com todo o mundo. Ele não se dobrou diante da pressão de seus amigos, da tirania ou da crueldade. Para ele, não importava quem você era. Ele amava você. Que grande homem! Eu queria ser como ele.

Um dia, quando tinha cerca de 8 anos de idade, estava desenhando a crucificação como parte de minha tarefa de estudos bíblicos. Eu também amava arte e a natureza. Amava a maneira como Deus tinha feito todos os animais. Eles também eram perfeitos. Incondicionalmente lindos. Era um mundo maravilhoso.

Eu morava em uma cidade muito pobre e de classe trabalhadora chamado Reading, uns 60 km à oeste de Londres. Meu pai era operário e minha mãe, dona de casa. Nunca tive vergonha da nossa pobreza, era algo quase nobre. Além disso, todo mundo que conhecia vivia na mesma situação e eu tinha tudo de que precisava. A escola era gratuita. Minhas roupas eram baratas, mas estavam sempre limpas e passadas. Minha mãe estava sempre cozinhando. No dia em que eu desenhava a cruz, ela estava cozinhando.

Estava sentado à mesa da cozinha quando meu irmão chegou em casa. Ele era 11 anos mais velho que eu, então tinha 19 anos. Ele era tão esperto quanto qualquer outra pessoa que eu conhecia, mas gostava de provocar. Ele tinha mania de discutir e sempre se metia em encrenca. Eu era um bom menino, ia à igreja e acreditava em Deus – um alívio para uma mãe de classe média. Veja bem, crescendo onde cresci, as mães não tinham muita esperança de que seus filhos se tornariam médicos. Esperavam apenas que não fossem para cadeia. Então, basta criá-los acreditando em Deus e serão pessoas boas que cumprem a lei. É um sistema perfeito. Bem, quase. Estima-se que 75% dos americanos são cristãos tementes a Deus e apenas 10% são ateus. Porém, apenas 0,2% dos presos são ateus.

De qualquer jeito, lá estava eu todo feliz desenhando meu herói quando meu irmão perguntou: “Por que você acredita em Deus?”. Só uma pergunta simples. Mas minha mãe entrou em pânico. “Bob”, ela disse naquele tom que eu sabia que significava “cale a boca”. Afinal, por que aquilo era uma coisa ruim para se perguntar? Se existia um Deus e minha fé era forte, não importava o que as pessoas diriam.

Mas… espere. Não há Deus. Ele sabe isso e, lá no fundo, ela também sabe. Simples assim. Comecei a pensar sobre isso e perguntar mais coisas e, dentro de uma hora, eu era um ateu.

Uau! Sem Deus. Se minha mãe mentiu para mim sobre Deus, ela também mentiu sobre Papai Noel? Sim, claro, mas quem se importa? Os presentes continuaram a aparecer. Assim também aconteceu com as dádivas do meu recém-descoberto ateísmo. As dádivas da verdade, ciência, natureza. A verdadeira beleza deste mundo. Eu aprendi sobre evolução – uma teoria tão simples que apenas o maior gênio inglês poderia desenvolver. Evolução das plantas, animais e a nossa – com imaginação, livre arbítrio, amor, humor.

Não precisava mais de uma razão para minha existência, apenas uma razão para viver. E imaginação, livre arbítrio, amor, humor, diversão, música, esportes, cerveja e pizza são razões mais do que boas para se viver.
Mas para viver uma vida honesta você precisa da verdade. Essa foi a outra coisa que aprendi naquele dia. A verdade, mesmo que chocante e inconfortável, no final nos leva à liberação e dignidade.

Então, o que a questão “Por que você não acredita em Deus?” realmente significa? Penso que quando alguém pergunta isso, na verdade está questionando a sua própria crença. De certa maneira eles estão pensando: “O que faz de você alguém tão especial? Por que não passou pela mesma lavagem cerebral que  o resto de nós? Como ousa dizer que sou um idiota e que não vou para o céu? Vá se danar!”

Sejamos sinceros, se apenas uma pessoa no mundo acreditasse em Deus, ela seria considerada muito estranha. Mas por ser um ponto de vista muito popular, então é aceito. E por que é um ponto de vista tão popular? É óbvio. É uma proposta atraente. Acredite em mim e viva para sempre. Se isso fosse apenas um caso de espiritualidade, estaria tudo bem.

“Faça aos outros o que quer que eles façam a você”. É uma boa regra a ser seguida. Eu vivo dessa maneira. O perdão é provavelmente a maior virtude que existe. Mas é exatamente isso o que é: uma virtude. Não apenas uma virtude cristã. Ninguém é o dono do que significa “ser bom”. Eu sou bom. Apenas não acredito que serei recompensado por isso no paraíso. Minha recompensa está aqui e agora. É saber que eu tento fazer as coisas certas. Que eu vivi uma vida boa. Foi aí que a espiritualidade realmente se perdeu. Quando tenta se tornar um bastão para bater nas outras pessoas. “Faça isso ou então queimará no inferno”.

Você não queimará no inferno. Mas seja legal mesmo assim.

Agência Pavanews, com informações do Wall Street Journal

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