Carreira com propósitos: Astros pop acreditam serem escolhidos de Deus

Por que tantas estrelas da música pensam que sua carreira é parte de um plano divino?

Neil Strauss

Certa noite, no verão passado, Lady Gaga sentou ao meu lado em um ônibus de turismo na Inglaterra. Ela ainda estava coberta com o sangue falso que usara na apresentação daquela noite. Ela me disse que chorou histericamente antes de um show recente, pois teve um sonho em que o diabo estava tentando levá-la. Então me relatou, com certo temor, que o espírito de sua tia falecida estava literalmente dentro do corpo dela. E mais, Gaga comentou que havia comido um coração bovino para enfrentar o medo da cirurgia de coração que seu pai faria poucos dias depois.

Se um desconhecido tivesse sentado ao meu lado no metrô e  me dito tudo isso, eu teria mudado de lugar na hora. Mas ela é uma das mulheres mais famosas do mundo. “É difícil lidar com tudo isso”, disse Lady Gaga, falando sobre seu sucesso e explicando que existe “uma força maior que está cuidando de mim.”

Corta para… a sala da casa do rapper Snoop Dogg, na região de Los Angeles. Enquanto ele fuma um baseado, explica seu retorno aos palcos depois de deixar a gravadora Death Row. “Deus fez tudo acontecer”, disse ele. “Ele me colocou nessa situação com a Death Row, e ele me tirou dela.”

Corta para… um quarto de hotel, onde Christina Aguilera está se enchendo de fast food enquanto fala sobre o seu sucesso. “Tudo isso não fui eu que fiz”,  desabafa. “É algo que tem um propósito maior.” Durante outra entrevista, a mãe de Cristina explica que o destino da filha era a fama: “Acreditamos que houve alguma intervenção divina. Desde o início, percebi que Deus tem planos para ela.”

Quando os vencedores do Grammy deste ano receberem seus prêmios, Deus provavelmente será agradecido e elogiado muitas vezes. É uma antiga tradição do showbiz. Pode ser vista claramente no Oscar, no Emmy e até mesmo no AVN Awards, que premia filmes adultos. Antes de eu começar a entrevistar muitos dos vencedores destes prêmios importantes, duas décadas atrás, achava que era um sinal de humildade e gratidão (ou, no mínimo, uma mania deles). Mas a verdade é mais interessante do que isso.

Antes de alcançarem o sucesso, muitos dos maiores astros da música pop realmente acreditavam que Deus queria que eles fossem famosos. Este era o propósito divino para eles, como era parte de seu plano que o resto de nós fosse desconhecido. Por outro lado, já entrevistei muitos músicos igualmente talentosos, mas não tão famosos. Estes entendiam que seu sucesso foi algo acidental ou imerecido – e, de fato, logo depois sumiram dos holofotes.

Enquanto reunia e analisava todas essas entrevistas para o meu novo livro, cheguei a uma conclusão surpreendente: acreditar que Deus deseja que você seja famoso aumenta suas chances de obter sucesso. Claro que do ponto de vista da teologia tradicional, ou mesmo na visão calvinista da predestinação, Deus está muito mais preocupado com o destino da alma de uma pessoa do que com o seu sucesso. Além disso, nosso destino sempre é desconhecido. Então, o que ajuda essas estrelas não é tanto a religião mas, sim, uma crença. Especificamente, a crença de que Deus favoreceu o sucesso pessoal e temporal deles, e não quis o mesmo para quase todos os outros habitantes do planeta.

No início do mês, Aaron Rodgers, capitão do Green Bay Packers, foi entrevistado antes do último jogo do campeonato de futebol americano – o Super Bowl. Seu time venceu e ele foi eleito o melhor jogador em campo. Naquela oportunidade, ele explicou: “Deus sempre tem um plano para nós”. Da mesma forma, Santonio Holmes, ex-jogador do Pittsburgh Steelers, declarou que suas recepções durante a vitória que fez dele o melhor jogador em campo, na final de 2009 foi fruto “da vontade de Deus.” E no Super Bowl de 2008, David Tyree, do New York Giants falando sobre a vitória de sua equipe, declarou: “Parece que era o nosso destino… Sabia que Deus faria o que me disse que iria fazer”.

Vamos chamar isso de teísmo competitivo, uma espiritualidade individualista, que pode fazer parte de qualquer religião e nada tem a ver com a moralidade de cada um. Esta lacuna na fé convencional que tenho percebido nas entrevistas que fiz, muitas vezes é o que separa os famosos dos que são absurdamente famosos. É algo que pode fazer a diferença entre alcançar o que é possível e realizar o que parece impossível.

Embora os cientistas, até onde sei, ainda não começaram a estudar a relação da fé com o estrelato, eles já estudam os dependentes químicos, os transplantados e as vítimas de desastres naturais. Eles já descobriram que buscar ativamente a intervenção divina aumenta as chances de sobrevivência das pessoas.

Isso não quer dizer que todo mundo que ocupa o topo das paradas de sucesso acredita na vontade de Deus. Há exceções, mas são menos do que você pensa. Astros da música pop contemporânea raramente se declararam ateus. Na verdade, as estrelas mais condenadas por grupos religiosos muitas vezes são os crentes mais fervorosos – desde Elvis Presley (que estava lendo um livro sobre Jesus quando morreu no banheiro) até Lady Gaga (cujo novo sucesso, “Born This Way”, declara que “não importa se gay, hétero ou bi, somos todos parte do plano de Deus).

Até mesmo Eminem, que concorreu a 10 Grammys este ano, compartilha desse senso de missão divina: “Deus me enviou para detonar com o mundo”, ele canta em “My Name Is”, sua primeira música de sucesso. Em um artigo que escreveu para a revista Vibe, ele disse: “Acredito em Deus e faço minhas orações… Deus é o meu poder maior, sempre foi”.

Isso não prova que existe um Deus guiando o destino dessas estrelas. No entanto, parece mostrar que confiança inabalável e um forte senso de propósito são bons indicadores de sucesso. Olhe para Justin Bieber, que lançou uma música dois meses atrás chamada “Pray” [Ore] e parecia intocável quando foi vaiado recentemente por torcedores em um jogo de basquete do New York Knicks. Ou considere o escárnio despejado sobre Cristina Aguilera por ela ter se atrapalhado ao cantar o hino nacional americano no Super Bowl. Se uma cantora desconhecido tivesse cometido o mesmo erro, a maioria das pessoas apenas sentiria pena dela.

Quanto mais bem-sucedido você se tornar, mais rápidas, mais altas e mais fortes serão as críticas. Para alguém conseguir lidar com a carga psicológica de ser famoso e os ataques que a acompanham, ajuda muito ser “casca-grossa”. E ajuda muito mais acreditar que você faz parte de uma missão divina e sentir que, mesmo quando todos parecem estar contra, Deus está do seu lado. A maioria das estrelas que tem uma ponta de dúvida sobre desejarem ser o centro das atenções não resiste à pressão constante. Temendo a crítica ou o fracasso, eles optam por não correr riscos e assim acabam desperdiçando as oportunidades.

P. Diddy, o magnata do hip-hop, por exemplo, tem entrado e saído das salas de audiência ao longo dos últimos anos. Já enfrentou acusações por agressão, posse de arma e suborno, mas sempre consegue voltar, mudando seu nome e iniciando uma nova carreira. Quando eperguntei se ele já sentiu medo, sua resposta foi: “Minha fé está em Deus. Tipo, olha que eu estou andando. Veja quem realmente é a minha turma. Minha turma é Deus. Fala sério! Não, eu não tenho medo”.

Os mansos realmente devem herdar a Terra. Mas até lá, as estrelas que são presunçosas o suficiente para se verem como escolhidos de Deus, provavelmente continuarão dominando as paradas, as premiações e os campeonatos esportivos. O talento conta muito, mas também é importante essa força motivadora da sensação de escolha divina.

Neil Strauss é o autor de sete best-sellers. Seu livro mais recente é Everyone Loves You When You’re Dead: Journeys Into Fame and Madness.

Tradução da Agência Pavanews do artigo do Wall Street Journal.

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