Você fica triste com papo de crente?

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Luciano Maia
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Nestas férias eu e Simone fomos curtir as limpas praias de Florianópolis. No avião sentamos junto a uma jovem executiva de sucesso, muito faladeira e simpática. Uma hora de voo e já éramos todos amigos de infância. Conversávamos de tudo: negócios, família, política, futuro… Até uma pequena confidência com relação a sua vida conjugal rolou. Lá para as tantas, não me lembro qual era o contexto, eu contei que era pastor…

Meu “deus”… Que reação mais inesperada ela teve:

“VOCÊ PASTOOOOR? Como assim pastor?! Você está brincando não é? Claro que está brincando. Pois você é um cara legal! Você é simpático, tem um ótimo papo, é inteligente e culto. Como pastor? Você é um cara bom, de deus! Não pode ser mesmo um pastor, certo?”

Aquela reação mostra bem a cara da Igreja Evangélica no Brasil. Cara esta que os pastores e os crentes deram a ela. Um rosto forjado por comportamentos. Uma cara auto-maquiada sem espelho… Maquiagem mal-feita. Uma cara feia!

Para aquela nova amiga, pastor é uma coisa extremamente ruim, pois como ela disse, pastores são uns caras que roubam dinheiro dos pobres, que pedem dízimos e que vivem do estelionato da fé alheia. Pastor é aquele cara que diz que não pode isto, não pode aquilo, não pode comer, não pode beber, não pode viver… Só pode morrer, pois o resto é pecado… Sim, para muitos, esta é a cara do crente. Esta cara de crente foi maquiada pelos próprios crentes por meio de um discurso anacrônico e antibíblico.

O discurso dos “crentes” tem sido incoerentemente herético!

Muitos crentes só pregam pecado.
Tudo é pecado.
Ser uma mulher gostosa é pecado.
Olhá-la é pecado. (Jesus nunca disse que é pecado admirar coisas belas, disse que é pecado olhar “com intenção impura”, que é bem diferente… Como alguns religiosos possuem os olhos maus e não conseguem olhar com pureza, pensam que todos são impuros como eles e acabam por proibir a admiração das coisas belas que Deus criou).

“Todas as coisas são puras para os puros; todavia, para os impuros… nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas.” Tito 1:15

Ter idéias próprias é pecado.
Contestar é diabólico!
Cuidado com o pecado! Deus castiga!

Muita gente acaba por ficar aborrecido com papo de crente.

Por conta de uma religião doente, inúmeros neo-ateístas os são, não porque queiram brigar com Deus, a quem não conhecem e não acreditam, mas porque querem brigar com os que se dizem representantes deste Deus. Neo-ateístas querem é criar encrenca com a religião cristã e com seus representantes, os crentes, pois estes muitas vezes conseguem aborrecer as pessoas com seu papo muito estranho e, por vezes, hipócrita.

Ao contrário da pregação religiosa sobre pecado e sobre o que não se pode, o discurso do Evangelho de Jesus é sobre o perdão e sobre o que se deve: Amar as pessoas pecadoras.

O discurso central do Evangelho é que todos estão perdoados por Cristo. O discurso é sobre perdão de graça. Sobre coisa boa, vida eterna, paz com o próximo, paz consigo, amor. Sobre não precisar fugir de Deus por medo de punição, mas sobre aproximar-se de Deus, pois Ele já perdoou a todos pois Ele é legal.

“Ele levou sobre sí todas as nossas iniquidades”.
“Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.

Todos quantos quiserem estão perdoados. A mensagem, portanto, que os representantes de Deus deveriam anunciar tinha que ser uma mensagem que não se concentrasse em “usos e costumes”, comportamentos culturais, comida, bebida, cabelo ou roupa. Mas não é o que acontece normalmente.

Temos assistido grupos religiosos que, com a Bíblia em punho, pregam heresias:
Que Deus abençoa só a quem dá dízimo.
Que Deus não abençoa quem não dá dinheiro pra Igreja.
Que a salvação vem pelo bom comportamento e não pela Graça de Deus.
Que cristão não pode ser intelectualmente independente.
Dentre outras heresias.

Tem uma blogueira que é desertora da fé evangélica e cheia de fé em si mesmo. Ela diz ser atéia, se intitula “heresia loira” e se diverte muito com os “crentes” que, em defesa da fé evangélica, infestam seu blog com comentários hediondos e muitas visitas (conseqüentemente, rendendo também anúncios no blog, convites e grana para ela). Percebo no arcabouço do discurso desta blogueira que seu dito ateísmo não é conseqüência, necessariamente, de algum problema com Deus, mas sim, com os crentes. Por conta da má-criação dos filhos, ela bate é no Pai, num processo Freudiano de transferência. Aliás, no geral, os neo-ateus defendem sua “fé” por meio da falta de fé que eles têm nos cristãos. Irônico.

Incrível como algumas pessoas que dizem seguir Jesus falam pouco de perdão, de coisas boas, de felicidade por meio da certeza da paz com Deus. Geralmente crentes não são vistos como pessoas bacanas, que amam a todos, que amam os inimigos, que procuram não ter inimigos.

Incrível como o simpático e psico-emocional saudável discurso do “perdão gratuito de todos os pecados” foi substituído pelo doentia e culposo discurso do “tudo é pecado”.

“Vinde a mim vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei”.
Acho incrível como religiosos não oferecem o alívio que Jesus oferece…

Que fique claro: pecado existe!

Ninguém em sã consciência discordaria que meter uma bala na cara de um motorista para ficar com sua carteira é algo errado, portanto, não é preciso ficar batendo na tecla que isto é pecado, mesmo os dito ateus sabem que isto não é certo. Certo?

Pra que reforçar o que todos instintivamente já sabem? Até a blogueira auto-intitulada Heresia Loira não absolveria sua melhor amiga se a apanhasse hoje na cama com o seu namorado. Ela sabe o que é errado! Ela sabe o que magoa! Ela sabe o que fere! Pra que, portanto, insistir em discursar sobre o pecado? O que ela precisa saber é que Jesus perdoa gratuitamente todos os erros e os pecados arrependidos e confessados. Ponto!

O discurso que o mundo inconscientemente quer ouvir é a pregação do perdão:

Sim, você errou, mas há uma nova chance para você! Não se sinta eternamente culpado. As pessoas podem não te perdoar pelos seus erros ou por você ser uma pessoa tão babaca. Você pode não se perdoar. Mas Deus é aceitação. Deus é um abraço amigo. Deus é perdão! Deus é bom.

Este discurso, tão real e libertador, precisa ser resgatado nos púlpitos e replicado na pregação cotidiana.

Quando me lembro da reação da nossa colega de viagem no avião quando soube que eu era pastor, fica claro que muitos cristãos estão voando fora da rota e a Igreja continuará fabricando ex-cristãos!

Qual Evangelho você tem pregado?

fonte: Café com Deus

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