A luta de classes…

texto de Rubem Alves publicado originalmente na Folha de S.Paulo

AS UNIVERSIDADES, especialmente na área das ciências humanas (que é a área que mais se aproxima da religião), estão cheias de pequenas igrejas que se comunicam usando palavras obrigatórias e não usando as palavras proibidas.

Se você usar uma palavra proibida torna-se claro que você é um intruso. Palavras proibidas são como, em casa de judeu ortodoxo, falar sobre feijoada…

Prova de ortodoxia é saber onde encaixar o jargão. Por exemplo: “Essa questão se resolve dialeticamente…” Ninguém sabia o que era isso, resolver dialeticamente, mas ninguém se atrevia a perguntar porque a pergunta revelava que o perguntante não havia aprendido o catecismo.

1976. A Editora Abril estava lançando uma coleção de textos filosóficos. Para a sua propaganda fizera um lindo pôster, um quadriculado, em cada quadrado da grade a fotografia de um dos grandes filósofos da história da humanidade.

Mas os ortodoxos perceberam logo que ali havia heresia. Os inquisidores têm um faro aguçado para as heresias. O Papa permitiria que Lutero e Calvino aparecessem ao lado dos santos católicos? De forma alguma. Um dos caçadores de bruxas teve uma ideia brilhante para corrigir o pensamento pecaminoso. Cortou com uma gilete a fotografia de Marx, virou-a de cabeça para baixo, colou-a no seu lugar e vapt-vupt, a magia estava feita, a verdade estava restabelecida: Marx apenas estava de cabeça para cima! Todos os outros pensadores estavam de cabeça para baixo!

O pôster, pendurado na parede, proclamava: “Só o materialismo histórico é Deus e Karl Marx o seu profeta!” Restabelecia-se, assim, a verdade secular: “extra ecclesiam nulla salus”, fora da igreja não há salvação. (Há muitas igrejas, muitas delas travestis…)

Minha experiência religiosa havia aguçado o meu nariz para perceber o cheiro de incenso, mesmo disfarçado de ciência. Novato naquele mundo, não conhecia o nome dos deuses locais. Quis trocar ideias com um colega.

Comecei a falar sobre um problema que muito me preocupava sem me perguntar se o dito problema não era assunto proibido. O assunto era a crise ambiental que, naquele momento, já era assunto nas rodas acadêmicas nos Estados Unidos onde eu me formara. Pensei que esse seria um bom tema para uma boa conversa. Mal sabia eu que falar em crise ambiental era o mesmo que falar em corda em casa de enforcado. “Crise ambiental” e cuidado com a natureza são invenções da burguesia para manter o proletariado no seu lugar.

O meu sólido colega fechou a cara, olhou-me de dentro da sua grade ideológica e disse, definitivo: “Todas essas questões se resolvem com a luta de classes”. Que era a maneira daquele marxismo de traduzir a fórmula religiosa da teologia cristã: “Todas essas questões se resolvem com a providência divina…”

PS: Não me entendam mal. Gosto muito de Marx, quando ele aparece na galeria dos filósofos, todos de cabeça para cima. Se vocês tiverem curiosidade sobre o que já escrevi sobre ele, leiam, como aperitivo, a terceira variação que a ele dediquei no livro “Variações Sobre o Prazer” (Editora Planeta).

 

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