A Lea T. do Paraná: mais uma transexual no mundo das passarelas

Texto de Anna Carolina Lementy publicado originalmente no Blog Mulher 7 x 7

O estilista Alexandre Linhares, do Paraná, tem a sua própria Lea T., a transexual que conquistou o mundo da moda. O nome dela é Maite Schneider. Aos 38 anos, ela se tornou o rosto da marca de Linhares, a Heroína. A coleção atual é inspirada na criação divina. Na campanha publicitária, Maite é “Deus”. Nas fotos, ela aparece com os seios de fora. É polêmico, admite o estilista. Porém, o intuito não é chocar. “Gosto de exaltar a força feminina, que é foco de tudo na minha trajetória”, diz. Sobre ter escolhido Maite, que é sua amiga, ele diz que “o transexual não precisa se prostituir, não tem que viver à margem da sociedade por ter nascido com um corpo que não quer. O fato de desfilarem como as mulheres que são, e não como uma aberração, quebra paradigmas”. Linhares estreou no circuito oficial da moda no último sábado, com dez looks na passarela do Paraná Business Collection.

Maite nasceu Alexandre. Ela sempre se sentiu estranha. Não se parecia com o irmão mais velho nem com a irmã mais nova. A pergunta que mais fazia a si mesma era “que bicho sou eu?”. Muito jovem, virou piada na escola. Então decidiu tentar ser “mais homem”, como o irmão. Entrou no judô e virou escoteiro. “No judô, eu chorava quando me jogavam no chão. Nos acampamentos, eu fazia jardins, enquanto os outros meninos iam para o mato e subiam nas árvores”, diz.

Passou a acreditar que sua confusão era coisa do “capeta”, por causa da criação religiosa que recebeu. “Eu ia à igreja e eles não conseguiam tirar aquilo de mim”. Acabou tentando o suicídio duas vezes. Aos 16 anos, o pai a levou a um psiquiatra. Lá, ela ouviu pela primeira vez o termo transtorno de identidade de gênero. “Descobri que o que eu sentia tinha nome. E não tinha cura. Porque é uma coisa do cérebro, né?”.

Maite quando ainda era Alexandre 

A saída era ser mulher também fora da cabeça. Começou a tomar hormônios, “para equilibrar a parte externa com a interna”. Quando completou 25 anos, ganhou de presente um laudo que autorizava a cirurgia de mudança de sexo. “O problema é que, nessa época, a cirurgia não era coberta pelo SUS. O preço era exorbitante”. (Já tem empresa incluindo a troca de sexo no plano dos empregados). Munida de coragem e de uma dose de loucura, conseguiu um bisturi, anestésicos e com um “manual” conseguido na internet, tentou extrair – ela mesma – os dois testículos. Acabou desmaiando e foi parar no hospital. “Acharam que eu tinha tentado me matar de novo”.

Quando voltou para casa, descobriu que havia uma clínica no Paraguai que não cobrava nada pela retirada dos testículos. Viajou e passou por uma cirurgia de oito horas. Na volta, teve uma infecção e precisou voltar para o hospital. “Meu pai me perguntava quando eu iria parar. Eu dizia a ele que precisava ser mulher”.

Foi aí que ela decidiu contar sua história na internet. Em seu site, ela pedia doações para a cirurgia, que custava R$ 20 mil. Em um ano, com doações que variavam de R$ 5 a R$ 20, conseguiu juntar o dinheiro. Fez a sua terceira cirurgia. Logo depois, surgiram dois nódulos benignos no canal de sua nova vagina. Mais uma cirurgia. A conta chega a dez. A última foi feita recentemente. O que ela deseja é conseguir sentir prazer na relação sexual. “Quero estar inteira, porque a vida inteira estive pela metade”. Judicialmente, ela é totalmente mulher.

Maite ao lado da mãe e da sobrinha e com o estilista Kauan Von Novack no Paraná Business Collection 

Sua vida não é fácil, ela afirma. Precisa tomar remédios, sofre com o preconceito das pessoas. Na família isso não existe. Não agora. No começo, quando decidiu se tornar mulher, exagerava na produção. “Era esdrúxulo, eu usava sete tipos de sombra. Achava que quanto mais maquiagem usasse, mais mulher seria”. A mãe, com quem Maite foi morar após a separação dos pais, ficava constrangida. “Um dia, ela disse que não queria ser vista comigo na rua. Ali eu senti que tinha perdido minha mãe”.

Para não envergonhá-la, Maite decidiu mudar de cidade. Quando estava na rodoviária, foi segurada pelo pai. “Ele disse que a gente daria um jeito”. O pai cedeu a ela um espaço em seu escritório de engenheiro. Pagou a faculdade de direito. Acolheu. Só depois de dez anos, mãe e filha voltaram a se falar. “Eu descobri que ela tinha alguns medos e não entendia muitas coisas. Mas, na época, não tivemos a capacidade de falar as coisas e acabamos nos perdendo. Hoje a gente sai para comprar calcinha juntas”.

Maite acaba de sair de um relacionamento. Diz que a parte sexual do namoro era complicada. Com sua fala rápida e segura, ela explica que os namorados precisam ter cabeça aberta. Só os namorados?, eu me pergunto. Fico sem resposta. Maite toca a vida. Ela tem uma clínica de depilação masculina bem movimentada. Além disso, é atriz – com DRT, ressalta. E agora virou modelo.

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