Omissão ou prudência?

Pri Aliança

Eu sempre tive tendências subversivas, da igreja à faculdade – e hoje, da igreja (ou ausência dela) à prática profissional. Graças a certas influências, consegui direcionar essas tendências e me encontrar politicamente. Entretanto tive um professor na especialização, Jailton (caríssimo!) que, ao avaliar minha monografia, em plena banca, criticou meu uso do termo “subversão”. Ele disse algo que fez sentido pra mim, e que por isso mesmo volta e meia me vem à mente: “a ditadura usava o termo ‘subversivo’ pra designar os militantes. Esse termo tem uma conotação negativa, depreciativa. Os militantes não se referiam a si mesmos como ‘subversivos’, mas como ‘revolucionários’. Sua pesquisa, sua prática não devem ser taxadas de subversivas: elas são é REVOLUCIONÁRIAS!”.

Achei aquela a crítica mais prazerosa que já recebi.

Enfim, tudo isso pra questionar outra coisa: é possível ser subversivo/revolucionário e ser bem aceito entre os conservadores? Eu sempre fui assim na igreja. Tinha minhas idéias contradiscursivas mas era a queridinha dos donos da palavra. Faz sentido isso?

No trampo – HOJE – é um pouco assim ainda. Minhas idéias sobre pesquisa, por exemplo, são totalmente desconexas do que se espera de uma coordenadora, mas eu não luto por elas. Não vejo espaço. Para resolver meu conflito, opto por anulá-lo: deixo o cargo (obviamente não por isso apenas, mas ajuda). Acho que a única pessoa que sabe o que penso exatamente é Aninha. Talvez Lu, nem sei ao certo.

Bom, meu conflito, pra resumir, é o seguinte: se eu sou, como disse Jailton, revolucionária, eu deveria incomodar. Ou não necessariamente? Serei eu uma revolucionária mineirinha, come-quieta, ou uma grande omissa mesmo? Será isso mais um sintoma do “anular-me” que em mim criou tão profundas raízes?

Vou dar um exemplo: em 97 eu participei de um seminário sobre música sacra com João Wilson Faustini. Lembro como se hoje o tivesse vivido que ele exaltava a santidade do piano (WTF?!). Aquilo não fazia sentido pra mim. Que asneira sem tamanho! Mas era como se eu tivesse tanta clareza de que nada do que eu dissesse ajudaria que sequer me mobilizava. Estava curtindo o meu momento de educação musical de qualquer forma e não queria estragar aquilo por algo que não faria diferença. Ou eu achava que não faria.

Quando o assunto já ia sendo encerrado, um certo participante no banco atrás do meu levanta a mão e solta a granada:

“Isso não seria etnocentrismo?”

Virei pra trás e repreendi na hora:

“CALA A BOCA, DANIEL!”

Esse “Cala a boca”, na verdade, quis dizer “Meu filho, é ÓBVIO que isso é uma postura etnocêntrica! Você é retardado? Quer realmente saber? Quer que o Faustini diga o quê agora? Se ele admitir, ele se trai; se discordar, passa por idiota! Por que você não simplesmente deixou passar como eu fiz? Por que você sentiu a necessidade de constranger o maestro que provavelmente nem tem culpa de ser reaça desse jeito?”

Detalhe: eu tinha 14 anos.

E aí? Omissão ou prudência?

Hit me with your best shot.

Desabafava ontem com um (grande, sincero e maravilhoso) amigo. Na pauta da conversa, minhas inseguranças. Minha mania de agradar. Minha mania de ser aquela mesma mocinha simpática, sorridente, inteligente e contestadora apenas num nível que sirva para entretenimento dos outros. Quase uma gueixa, eu diria. Minha tendência a ser “da cor e tom, sabor e som que [você] quiser ouvir“. Metamórfica para o seu deleite. A “menina meeeeiga” (Cisne Negro feelings) que minha mãe me criou pra ser.
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo
Dessa mania eterna de ser “doce como bala para a alma” do outro advem muitos problemas. Vou retomar apenas um, mencionado no parágrafo anterior: insegurança. Minha mãe dizia que eu não tinha que me importar com o que os outros diziam, mas me repreendia com um “ninguém gosta de estar ao lado de uma menina chata”. Santa contradição, homem morcego! É muito complicado quando você vive à espera de validação, quando seu senso de valor se alimenta do elogio. E nem todo elogio vale! Nem sempre eu acredito!
Dei-me conta ontem da razão do meu verdadeiro FASCÍNIO por gente assim, gente sem papas na língua, gente que é revolucionária e fala mermo, se expõe mermo, dá a cara pra bater mermo. E curioso: é gente que ao que parece nunca está só. Não faltam amigos pra quem decide ser-se?!
Eu lembro que houve um tempo em que eu era mais assim. Mas eu incomodava tanto que me deixei adestrar. Não tô curtindo.
Quero descobrir quem sou e sê-lo até as últimas consequências. Acho que os amigos que me restarem então serão os que de fato valeram a pena. Não quero ser uma subversiva omissa. Não quero mais guardar pra mim o desejo inócuo de uma revolução, seja qual for e em que área for.

fonte: Através do monitor

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