Ontem eu quase morri, amanhã faço aniversário

Tom Fernandes

Poucos meses depois de completar dezoito anos, fui para uma festa com amigos. Estava com um resfriado fortíssimo e, por isso, não bebi uma gota de álcool naquela noite. Na volta para casa, dormi ao volante e bati no último poste da Av. T-63, o carro ia a cerca de 100 km/h. O carro abraçou o poste, quebrou o muro da casa ao lado e eu sem cinto de segurança. Escapei da morte sem nenhum arranhão naquela madrugada, mas a Chevy 500 com cinco anos de uso, que era da loja do meu tio onde eu trabalhava na época, ficou completamente destruída. Disseram (e eu acredito até hoje) que Deus me livrou da morte naquela madrugada. Foi a partir desse acidente, que abri olhos e coração para buscar a Deus.

Ontem, quase dezessete anos depois, fui pra casa depois do almoço, acometido de uma terrível alergia, que me impedia de ficar sob o ar-condicionado da minha sala no Diário Oficial. Os antialérgicos prescritos pela médica (isso após acabar de sarar de uma pneumonia) não faziam efeito e decidi ir embora pra casa. Peguei o carro e fiz o mesmo caminho de dezessete anos atrás. Virei umas quadras antes e o medicamento que não fez efeito na alergia me mostrou o efeito colateral. Sim, novamente dormi na direção do carro, dessa vez meu pálio 2002 recém-quitado. Estava dentro do limite de velocidade da via, mas quando ‘acordei’, meu carro havia batido na calçada e já estava dentro de uma praça, rumo a outro poste. Consegui me lembrar do pedal do freio a tempo e o carro parou metros antes. Certamente, Gabriel estava de olho a mando do bom Deus.

Amanhã faço 35 anos. Meu filho fez um aninho semana passada. Na primeira vez, não quis morrer por um sentimento egoísta de que precisava ‘curtir a vida e não morrer tão virgem’. Ontem, após o susto e recobrar a consciência, me peguei assustado com a sensação de que poderia não estar aqui pra ver o BJ crescer. Dizem que de vez em quando a gente precisa de um sacode pra arrumar as coisas na vida (engraçado que fiquei doente por conta da dieta que comecei no fim do ano preocupado com a saúde e o peso extra). Sei que amanhã faço aniversário e, além da alergia que ainda não me abandonou, minha cabeça fica remoendo como seria se o carro não parasse e enfim eu me visse livre de mim mesmo. A sensação de perda foi tão grande que no meio da noite chorei sozinho e agradeci a Deus pelo chorinho faminto da madrugada querendo ‘mamá’.

Este ano, decidi rever uma série de coisas mal resolvidas na minha vida. Minha relação conflituosa com a religião e seus donos. Minha relação um tanto rebelde com o evangelho e seu doador. Decidi retornar aos caminhos que abandonei ou não consegui cumprir por conta do excesso de peso nas costas. Em vez de lutar com o cachorro morto da Letras, resolvi ir atrás do que eu quero e faço como profissão e me matriculei no curso de Jornalismo (engraçado²: todos à minha volta disseram: finalmente! Vá entender esse povo). Decidi emagrecer e parar de dizer que não preciso viver pra sempre (Deus sabe o quanto quero viver pra ver tataranetos agora). Decidi encarar de vez a vida de escritor e já tenho os projetos de dois livros. E, por fim, decidi deixar bem claras minhas opiniões sobre religião, espiritualidade e cristianismo. Bem claras para meus amigos, minha família e leitores. Pra Deus, sei que elas são cristalinas e bem conhecidas. Talvez por isso, a ‘sacudida’ dessa vez tenha sido mais branda. Como dizem aqui no cerrado, é hora de firmar o golpe.

fonte: pequenos dramas de um escritor diletante

ps: o texto foi postado em 25/2, portanto o aniversário do tom foi ontem (sábado).

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