Deus está morto

Sérgio Pavarini

A frase que encima este texto é, para muitos, um resumo da ópera literária do filósofo Nietzsche. Por desconhecimento, muita gente reduz toda a lavra de alguns artistas a meras sentenças pinçadas de uma de suas obras. Na instantaneidade vigente nesta era digital, na maioria das vezes a navegação ocorre em águas pouco profundas.

Neste ano [2000] foi comemorado o centenário da morte desse pensador alemão, cujas ideias para muitos são tão complicadas quanto a grafia de seu nome. O pai de Nietzsche era pastor luterano e faleceu cedo, aos 36 anos. Algumas influências, entretanto, permaneceriam indeléveis na mente do filho.

Segundo um texto publicado sobre o autor de Além do Bem e do Mal e Humano, Demasiado Humano, “na casa dos pastores protestantes, a influência de Lutero se manifestava não só na leitura da Bíblia, mas no cultivo da literatura e da música”. Ainda segundo o articulista, “Nietzsche jamais esqueceria o ambiente da biblioteca do pai, nem as horas em que o escutava improvisando no piano”.

Neste fim de século (ou seria de feira?), transporto essa mesma questão para o nosso Brasil: será que essa mesma influência reformista é perceptível na terra do Xibom bombom? Quando alguém se refere à música evangélica o primeiro adjetivo que vem à mente é “qualidade”? Infelizmente, a resposta ainda é um sonoro “não”.

Acredito que uma das causas de isso acontecer, seja o hermetismo que prende os levitas verde-amarelos. Nem é preciso rep(r)isar o fato de que a música é o assunto que causa maior divisão no meio do povo santo. Quem é adepto dos clássicos geralmente detesta a ala “moderna” e a recíproca também é verdadeira.

Ambos os lados dessa disputa ridícula têm seu quinhão de culpa. Bebem sempre da mesma fonte e prescrevem seu gosto pessoal como verdade absoluta. Regentes de coro quase tapam os ouvidos quando a mocidade (só nas igrejas ainda usam esse termo) desfia seus cânticos. Não é à toa que muita gente gosta de chamar esse tipo de música de “corinho”. E não pensam em “coro pequeno”, mas, sim, no sentido pejorativo.

Do outro lado, a facção da guitarra e bateria se contorce para não rir ao ver o coro levantar as indefectíveis pastas pretas para cantar “Dai ao Senhor louvor” pela bilionésima vez. E a divisão acentua-se cada vez mais, gerando o resultado conhecido: mediocridade dos dois lados.

Marshall McLuhan escreveu que é necessário sair de seu próprio ambiente para poder percebê-lo. E exemplificou citando a frase de um jesuíta a seu amigo: “Se alguém um dia descobriu a água, certamente não era um peixe”. A proposição pode revoltar as facções mais xiitas. “Como poderia eu aprender algo com esses corinhos (de novo, irmã?) paupérrimos?”, brada a regente. “Chopin, só do Brahms”, diz o garotão, pobre de conteúdo musical e de trocadilhos.

Há muitas coisas boas para se beber nos hinos e, sim, existe uma produção musical contemporânea de qualidade indiscutível. Se a produção em língua portuguesa ainda é irregular, basta clicar em alguns sites e importar a inspiração que Deus concedeu a irmãos de outros países. Voltando ao McLuhan, aldeia global é o que estamos vivenciando neste momento histórico.

O ministério da saúde (musical cristã) adverte: hermetismo causa miopia. E, como conseqüência, amplia a distância, aprofunda as divergências e em nada contribui para o nosso aprimoramento musical. Se o tempo gasto em discussões sobre o que é mais “santo” fosse dispendido no trabalho efetivo, provavelmente estaríamos num patamar melhor.

É hora de olhar pela janela. A qualidade também é a chave para escolher as novas fontes. O que o musicista ouve influenciará profundamente a sua produção musical. Pela pobreza da música cristã atual, dá pra imaginar quantos CDs inqualificáveis andam tocando na casa de muitos compositores.

Que a chama da tradição reformista possa novamente ser acesa em nossos corações. Boa música e bons livros é uma fórmula perfeita para vir em um plano imediatamente posterior à unção que deve permear a lavra dos servos do Deus Altíssimo.

Uma camiseta esperta brinca com a frase famosa do filósofo alemão. Na frente, está escrito “Deus está morto”, assinado Nietzsche. Atrás, lê-se: “Nietzsche está morto”, assinado Deus. No caso dos que se engalfinham tentando provar a morte do seu estilo musical execrado, vale a mesma coisa. Para desgosto dos radicais dos dois extremos, os clássicos estão bem vivos, bem como a música cristã contemporânea.

Enquanto os adeptos do filósofo relembram o centenário de sua morte, celebramos a inspiração de um Deus vivo e criativo. Na seara do reino, diversidade é riqueza e não um problema. Na hora que os nossos olhos se abrirem para essa verdade, a velocidade da produção será incrivelmente aumentada e, finalmente, nossa qualidade vai fazer diferença.

texto publicado em 2000

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