Artistas cristãos (não) devem usar a violência

Texto de Alex Wilgus, publicado originalmente na Relevant Magazine

Há um debate frequente sobre o uso de conteúdos de gosto duvidoso na arte cristã. A discussão tende a acontecer assim: um grupo diz “Precisamos proteger nossas mentes da violência gratuita e do sexo”, ao mesmo tempo que outros pensam “A arte precisa ser perigosa para ser profunda. Ninguém deveria criticar isso”.

De vez em quando parece ocorrer um novo ataque, de um lado ou do outro, mas geralmente não se tenta descobrir para que serve a violência na arte e se isso é realmente eficaz. Estou usando o termo “violência” aqui para descrever uma ampla gama de possibilidades, incluindo sexualidade explícita e linguagem vulgar. Talvez alguém pudesse enquadrar o debate em termos diferentes: em vez de discutir se é correto incluir a violência em nossa arte cristã, vamos primeiro perguntar se é original.

Por que usar violência?

O artigo de Walter Percy “Notes for a Novel About the End of the World” [Anotações para um romance sobre o Fim do Mundo] é um breve tratado sobre os desafios específicos que a criatividade cristã enfrenta no mundo moderno. Embora Percy dirija-se a escritores, suas questões se aplicam aos artistas cristãos de todas as áreas: Como alguém escreve, toca, canta, grava, coreografa ou esculpe a mensagem radical do Evangelho para um mundo profundamente entediado com o cristianismo e com as questões religiosas em geral?

“Ele utiliza toda astúcia, esperteza e malícia que consegue tirar das regiões mais escuras da sua alma. O uso ficcional de violência, ofensa, comédia, insultos, bizarrices, são as ferramentas diárias de seu ofício.”

Quando a identidade religiosa do mundo dorme, você coloca o dedo na cara deles. O exemplo favorito de Percy é o uso que Flannery O’Connor faz da imagem de uma “morte” sendo afogada para representar o batismo. Para o cristão nominal, o batismo “é aceito, mas visto em grande parte como um rito tribal, com importância um pouco menor que levar as crianças para ver o Papai Noel”. A violência atua como uma provocação, ajudando que uma mensagem importante se destaque entre o ritmo normal das coisas.

Esse tipo de conteúdo explícito é realmente benéfico na pregação da mensagem do Evangelho aos que estão adormecidos pelo canto da sereia da modernidade, que nos diz para comer, gastar, consumir, transar e ficar de bem com os amigos, sem ofender ninguém, porque tudo dará certo.

Quando perguntada sobre por que usou tantos argumentos extremos em suas histórias, O’Connor respondeu que quando um público não tem as mesmas crenças que você, “então é preciso fazer sua visão se destacar pelo choque – diante da dificuldade de audição, você grita e, para os quase cegos, você desenha figuras grandes e surpreendentes”.

Isso nos proporciona uma excelente definição para o papel da violência na arte cristã: trata-se de uma ferramenta que abala e conduz as mentes complacentes para uma compreensão de temas religiosos. O romance “Ratos e Homens” (de John Steinbeck) simplesmente não teria o mesmo impacto se Lennie não tivesse acidentalmente matado um cachorrinho e, depois, a mulher de Curley. Tolstói escreveu “Guerra e Paz”, e não “Paz e Paz”. Para o cristão, violência é uma tática usada para atacar profundamente a alma e chamar as pessoas de volta aos fundamentos básicos da humanidade e moralidade.

Instalação Os Quatro Santos Evangelhos, de Makoto Fujimura

Quando a violência não funciona mais

Mas o que acontece quando as táticas param de funcionar? E se chegar um tempo em que a violência não será mais tão chocante? Não precisamos imaginar isso, pois creio que esse momento já chegou. Os ocidentais são alimentados com essa dieta de extremismos, e pararam de ampliar seus horizontes – estamos apenas adicionando diferentes sabores de irreverência. No mundo do cinema, por exemplo, existe diversão, comédias de sexo atrevido (i. e. Sexo sem Compromisso), profundidade, dramas independentes com cenas inesquecíveis de sexo (i.e.Namorados para Sempre) e “dramédias” com diálogo sexual (i.e.Minhas Mães e Meu Pai”).

O mesmo vale para a violência física. Nem mesmo Mel Gibson conseguiria superar a última sequência de filmes de tortura pornô (O Albergue, Jogos Mortais 1 a 7), filmes de massacres estereotipados (Machete, Planeta Terror, À Prova de Morte, Sin City- A Cidade do Pecado), e suas versões mais artísticas: o tiroteio intelectual de Tarantino (Bastados Inglórios). Ainda este ano, Los Angeles será invadida pela enésima vez (Battle: Los Angeles) e o próximo romance épico acontecerá durante uma pandemia global (Perfect Sense).

A questão não é se esses filmes devem ou não usar a violência responsavelmente. A questão é como acordar alguém para a loucura da condição humana depois de assistir longas como Kill Bill e Bruno? Alguns poderiam argumentar que alguns desses filmes usam “bem” a violência, mas é impossível ignorar que todo mundo parece estar fazendo isso. Conteúdo ofensivo hoje em dia é como uma gota no mar e deve continuar aumentando até massacrar de vez os sentidos endurecidos do público. Uma vez que o sal perdeu seu sabor, como pode ficar salgado novamente?

O que os cristãos devem fazer?

A violência usada pelo artista como arma para combater as forças da complacência também se tornou complacente. Como acontece com a tolerância de um usuário em relação à droga, o cidadão moderno é menos afetado por conteúdos ofensivos hoje do que eram os de décadas passadas Parece-me que os códigos morais das pessoas eram mais rígidos e, em geral, toda a produção que vinha dos EUA tinha algum tipo de homogeneidade. Agora isso não acontece mais. Antes o público precisava ser abalado pelo Evangelho, hoje precisa ser acalmados por ele. O canto da sereia da modernidade tornou-se um par de fones de ouvido revelando um pouco de contracultura em um celular com tecnologia 3G.

Deus falou com Jonas usando uma tempestade, mas falou com Elias através de uma voz mansa e delicada. Ele usou violência e serenidade para conseguir a atenção de seus servos e adaptou suas mensagens para a realidade deles. Da mesma forma, os artistas cristãos devem analisar o tempo que vivem e falar de um modo que as pessoas possam entender claramente. Deixo a questão de como fazer isso para os próprios artistas. Mas gostaria de apontar com entusiasmo para a iluminação proporcionada pelas telas Os Quatro Santos Evangelhos, de Makoto Fujimura (foto acima).

Não importa qual seja a sua arte, o artista cristão atualmente enfrenta um inimigo poderoso: o crescente tédio de nossa era. Ele desgasta até mesmo as expressões mais graves e nem mesmo a violência é capaz de chocá-lo. O dever do artista cristão é vencer essa tendência simplista de consumir e descartar, visando apenas acumular riquezas. Deve forjar novos meios de expressão e restaurar os mais antigos. Quando o mundo construir uma Torre de Babel, então o artista deve pintar uma pilha de escombros. Quando ela for derrubada e os povos vaguearem em meio ao lixo, deve pintar uma cidade brilhante, com paredes de jaspe e alicerces de pedra preciosa.

Tradução: Liliana Xavier, para a Agência Pavanews.

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