Carnaval para não-apreciadores

Publicado originalmente por Rejane Borges, na Obvious Magazine

Engana-se quem pensa que o carnaval é somente um espetáculo de desfiles alegóricos, fantasias, música e cores. O carnaval, infelizmente, hoje também é a maior concentração de imbecilidade por metro quadrado jamais vista. Um espetáculo triste de promiscuidade, irresponsabilidade e ruas que cheiram a urina durante dias. Já há tempos que o deslumbramento caiu, assim como a máscara purpurinada que ofuscava o lado mais nojento de uma festa que deveria ser a mais bonita. Eis o lado que o resto do mundo não vê.

Nem todo o brasileiro gosta de carnaval. Aliás, são muitos os brasileiros que não apreciam tal festejo, uma vez que ele deixou de ser uma manifestação cultural, e passou a ser um verdadeiro atestado de um comportamento irresponsável e, por vezes, animalesco. Para os que não gostam, a opção é apontar qualquer outro lugar no mapa e correr para lá, bem rápido.

Historiadores afirmam que o carnaval teve origem nos rituais para celebrações da fertilidade nas margens do Nilo, no Egito Antigo, há seis mil anos. Com o passar do tempo, essas celebrações evoluíram, adquirindo significados diferentes por todo o mundo. Tornaram-se mais artísticas, com bailes e desfiles alegóricos, e foram acrescentadas às festas as manifestações sexuais.

Segundo algumas teorias, a Igreja Católica proibiu, obviamente, essas manifestações sexuais – daí surge a palavra “carnaval”, que significa “carne levare”, ou seja, afastar a carne. Até hoje se leva em conta a celebração que antecede o período da quaresma como sendo o “último festejo profano”. Na quaresma, os fiéis são convidados à abstinência dos prazeres da carne para se lembrarem da ressurreição de Jesus Cristo. Funciona mais ou menos assim: o indivíduo pratica toda a sorte de estupidez no carnaval e depois entra em estado de contrição a fim de preparar seu espírito para a Páscoa.

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Gostar ou não de carnaval pode ser muito mais uma questão de gosto – ou de bom gosto – do que de religiosidade. Há aqueles que simplesmente preferem fugir de toda esta promiscuidade confeitada. E quem pode culpá-los? E há quem corra apressado ao encontro das ruas onde brotam foliões embriagados, homens com vestidos e mulheres sem vestidos, sexo e drogas livres e toda a sorte de irresponsabilidades ou incapacidades – como, por exemplo, a de jogar lixo no lixo.

É cômico o fato de que uma semana antes do carnaval a saúde pública é tomada por um colossal desespero para tentar diminuir os efeitos da festa. Camisinhas aos montes são distribuídas na esperança falida de conter o impulso sexual inerente ao festejo, no qual todos são de todos. Ou ninguém é de ninguém. Tanto faz. No qual o sexo é vendido tão barato quanto a cerveja nas esquinas.

Cartazes admoestadores são pregados nos muros das cidades, a TV faz campanha para conscientizar a população da proliferação do vírus HIV e do porte ilegal de armas. Departamentos e lojas têm suas fachadas devidamente reforçadas com grades por causa do vandalismo gratuito. Os puritanos fogem. Ou rezam. Todo um lado do orgulho nacional que não passa na televisão.

Contudo, há foliões que, dentro do bom senso e responsabilidade, sabem aproveitar o carnaval de maneira saudável, para não dizer humana. Se procurarmos, certamente, conseguimos achar essa espécie rara em período carnavalesco.

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O carnaval deveria ser melhor hoje em dia. Deveria ser realmente, em todos os cantos brasileiros, uma manifestação cultural e artística. Mas uma festa que deixa a cidade inteira cheirando a urina não pode ser tão boa. É triste que muitas pessoas tomem o carnaval como uma permissão para perder temporariamente a moral e os valores. Mas ninguém é obrigado a compartilhar disso, portanto, fazer um roteiro alternativo é a melhor opção para quem não adere a esse tipo de carnaval.

Uma amiga lamenta e critica o fato de eu não sair ao carnaval. Consolei-a com a profecia de nossos feriados:
9 horas
Ela: compra a primeira cerveja no primeiro boteco que vê pela frente, tentando um desconto com seu decote.
Eu: longe da algazarra, ainda sonho feito uma criança.
10 horas
Ela: compra sua décima cerveja, tentando um desconto com o seu decote.
Eu: acordo e olho para o relógio, muito cedo ainda. Volto a dormir.
12 horas
Ela: tenta segurar com as duas mãos a última empada de frango da padaria.
Eu: aprecio um bom prato em um agradável restaurante.
12h01
Ela: olha, embriagada e faminta, a empada caída no chão, a seus pés.
Eu: vou à sobremesa, tranqüilamente.
16 horas
Ela: se recompõe e continua a dançar, jogando confetes para o alto, agora bebendo pinga barata.
Eu: Assisto a um bom filme com o namorado.
20 horas
Ela: vomita na sarjeta.
Eu: tomo vinho, balanço na rede e ouço Buarque.

Quem é mesmo que não gosta do carnaval?

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