O monoteísmo do coração e o politeísmo da imaginação

Deste modo a poesia ganhará a mais elevada dignidade, e será mais uma vez no final o que foi no princípio: a professora da humanidade. Pois não há mais filosofia, não mais história: apenas a poesia restará quando tiverem desaparecido todas as ciências e todas as artes.

Ao mesmo tempo dizem-nos com tanta frequência que a grande multidão deveria ter uma religião que apele para a sensibilidade. Porém, não é só a grande multidão que precisa dela, mas também o filósofo. Eis do que precisamos: um monoteísmo da razão e do coração e um politeísmo da imaginação.

Quero em primeiro lugar apresentar uma ideia que, até onde eu saiba, não ocorreu ainda a ninguém. Precisamos de uma nova mitologia, mas uma mitologia que esteja a serviço das ideias; deve ser uma mitologia da razão.

Antes que tornemos as ideias estéticas, isto é, mitológicas, elas não terão qualquer atração para as pessoas. Do mesmo modo, se sua mitologia não é racional o filósofo deve envergonhar-se dela. Portanto o iluminado e o não-iluminado poderão finalmente dar as mãos: a mitologia deve ser filosófica para tornar as pessoas racionais e a filosofia deve ser mitológica para tornar os filósofos gente sensível.

Então a eterna unidade reinará entre nós. Não mais haverá o olhar de desprezo, não mais o cego tremor das pessoas diante de seus sábios e sacerdotes. Só então poderemos esperar o desenvolvimento igualitário de todas as potencialidades, de cade indivíduo e de todos os indivíduos. Nenhuma potencialidade será mais reprimida, e portanto reinarão universais liberdade e igualdade para todos os espíritos. Um espírito elevado enviado do céu deve estabelecer essa religião entre nós: será a última e maior obra da humanidade.

Hegel (ou quem sabe Schelling, a autoria é controversa), em Das älteste Systemprogramm des deutschen Idealismus (cerca de 1797)

via A Bacia das Almas

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