Deserto e Satanás: no mundo ou na Igreja?

Robinson Cavalcanti

“…ao deserto, para ser tentado pelo diabo”
(Mt 4:1)

Começamos com o Rito da Quarta-feira de Cinzas, simbolizando quebrantamento e consciência de pecado, o importante período do Calendário Cristão denominado de Quaresma. Nesses Quarenta Dias a Igreja nos insta a uma viagem interior, a uma introspecção, ao silêncio da alma, para que, nesse sincero autoconhecimento, possamos crescer espiritualmente. Por outro lado, a Igreja nos insta a olhar para a pessoa e a obra de Jesus de Nazaré, o Cristo, Nosso Senhor e Salvador, suas palavras e seus gestos, que respondem à nossa alma. Olhar para dentro e olhar para o alto nos permite ver melhor o resto, que não é tão resto assim, mas, sim, o campo da nossa missão.

Na Palavra de Deus, esse tempo começa com Jesus no deserto sendo tentando por satanás, o resistindo, e sendo servido pelos anjos. Nossa tendência natural é sempre de pensar esse deserto e essa presença satânica “lá fora”, “no mundo”. Mas, quando olhamos de perto para as “cascas de banana” e as maquinações dos fariseus, o papelão do Sinédrio, e a tentação de Judas (sem falar na expulsão dos vendilhões do Templo), percebemos que “desertos” e “demônios” se encontram, também e muito, no interior da instituição religiosa e a comunidade, e dentre aqueles “domésticos da fé” bem próximo de nós.

Essa é uma consciência chocante, desnorteante, mas necessária para a compreensão do ministério do mal e das lutas espirituais que somos demandados a travar. No interior do espaço religioso se multiplicam a tentação do poder e dos feitos espetaculares, do servir aos homens como ídolos, falsos deuses, que dividem e ministram o erro e o engano, e que muitos dos “anjos” que parecem nos ministrar, são, no fundo, “anjos do mal”.

Não devemos nos descuidar dos “desertos” e dos “demônios” que continuam lá fora, particularmente, nas falsas religiões e no secularismo, mas, com dor na alma, e muita decepção, abramos os olhos para os “desertos” e os “demônios” que “passeiam” pela Igreja, às vezes mais fortes e nos atingindo mais do que as suas expressões “do mundo”.

Essa tem sido a mais sofrida experiência espiritual de toda a minha vida, notadamente no Episcopado, e que gostaria de compartilhar e advertir nessa Quaresma, com os votos de crescimento espiritual para todo o Clero e Povo da Diocese do Recife, e para todos os que são vitoriosos n’Ele.

Das Cinzas, levantemo-nos como novas criaturas!

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