Casos como o do Japão comportam charges?

Texto de Paulo Ramos publicado originalmente no Blog dos Quadrinhos, no UOL

A provocativa pergunta que intitula esta postagem foi pinçada da carta de um leitor do jornal “Folha de S.Paulo”, publicada na edição de segunda-feira. No texto, ele questionava:

“… penso ser importante rir da tragédia humana. Mas rir inclusive das que não foram causadas por outro homem? Ou das que morrem centenas de inocentes?”

E conclui: “Momentos como este não comportam essas charges”. O pronome “essas” remetia à charge publicada pelo jornal no sábado, de autoria de João Montanaro.

O desenho mostrava o tsunami arrastando casas, carros e árvores. Ao fundo, uma usina nuclear. O título dado foi “Xilogravuras Japonesas – A Onda”.

***

Havia um toque crítico e de humor na charge, características próprias do gênero. No entender do leitor, tais elementos não seriam propícios a determinados assuntos.

A leitura feita por Montanaro, e endossada pelo staff do jornal, é que o principal assunto do noticiário dos últimos dias é passível, sim, de um olhar crítico, com verniz de humor.

A mesma interpretação fizeram pelo menos outros 16 chargistas, que nesta terça-feira publicaram seus desenhos sobre a tragédia no Japão em diferentes jornais do país.

Pelo menos é o que se conclui após a leitura do site “Charge Online”, que reúne trabalhos de todo o país. O assunto é o mais abordado na manhã de hoje.

***

Quem também compratilha dessa leitura é o cartunista Laerte Coutinho. Em texto publicado hoje na seção de cartas da Folha, ele sai em defesa do colega de jornal.

Na leitura de Laerte, “talvez tenha havido pressa no julgamento que alguns leitores fizeram, condenando o trabalho por um suposto desrespeito à dor humana num momento de tragédia. No entanto, João revelou audácia, e não insensibilidade”.

“Usando um ícone da cultura japonesa, ele nos remete a uma reflexão sobre contrastes: o milenar, permanente, sólido; e o instantâneo, devastador.”

Segundo Laerte, “o autor se preocupou em não colocar nenhuma figura humana no desenho, sinal de que percebeu a gravidade do tema e a necessidade de localizar o comentário na esfera da relação entre a cultura humana com o meio ambiente.” E conclui: Isso é um alerta, e não um sinal de zombaria”.

***

Em situações-limite como essa, torna-se, de fato, ainda mais desafiador o papel do chargista. Como bem sintetiza o desenho de Xalberto abaixo e lido no “Charge Online”.

Por ser um fato que choca, há o sério risco de ser mal-interpretado, lido como zombaria, e não como crítica. É nesses casos que fica evidente quem de fato entende o papel da charge e quem não.

Leitores habituais de jornais, de quadrinhos e de charges tendem a aceitar sem problemas tais abordagens, mesmo que limítrofes, como a do Japão.

Parte dos demais tende a enxergar na charge apenas a piada, o humor, e não o papel da crítica. E verão apenas o texto visual, equivocadamente, apenas como uma chacota.

 

Preto no Branco, de Allan Sieber. Crédito: reprodução da edição on-line da Folha de S.Paulo

 

É a mesma desinformação que pautou outra carta publicada na edição desta terça-feira da Folha. Uma leitora classificava como “lamentável” a tira acima, de Allan Sieber.

No entender dela, o desenhista estaria “depreciando o teatro para crianças”. Para ela, Sieber deveria se informar mais sobre o tema antes de “debochar” de forma “preconceituosa”.

Embora a opinião deva ser respeitada, ela ignora o fato de o humor da tira ter se pautado num senso comum, evidenciado e reforçado pela contundente resposta escrita pela leitora.

A carta sugere também que, mesmo o teatro infantil sendo de qualidade, ele estivesse fora de uma abordagem cômica e crítica. Seguindo o raciocínio, haveria um “filtro” para o humor.

***

De todo modo, o caso da tira de Sieber e a abordagem sobre o Japão não foram o primeiro – e nem serão o último – caso a pôr à prova o papel da charge.

Em 2005, um desenho que mostrava Maomé com um turbante explosivo gerou uma série de violentos protestos de seus seguidores na Europa e no Oriente Médio.

Vale o bom senso, claro, mas dizer que um assunto não cabe numa charge está no limite da censura.

Em tese, tal decisão deve caber apenas ao chargista, pautada na necessária liberdade dada a ele.

***

Mas temas delicados são, de fato, desafios para os quadrinistas, que, mesmo assim, podem obter resultados primorosos.

Um exemplo foi a charge do desenhista Jean, na edição de domingo da mesma Folha e também sobre a tragégia no Japão.

O trabalho mostrava a bandeira do Japão com uma lágrima vermelha.

Sensível, não deixou de ser crítico e de abordar o tema.

Outras charges sobre o Japão

Charge de Xalberto. Crédito: site Charge Online

fonte: Charge Online [Via Blog dos Quadrinhos]
fonte: A Charge [via Josias de Souza]

Em tempo, a CNN publicou um artigo no mesmo tom, mostrando as críticas a uma charge publicada por um jornal da Malásia e considerada infeliz. A ideia é mostrar o personagem Ultraman (herói japonês) sem poderes contra a força da natureza.

Comentários

Este QR-Code permite acessar o artigo pelo celular. QR Code for Casos como o do Japão comportam charges?

Deixe o seu comentário