Uma Teologia do Trabalho Criativo

Texto de John Chandler publicado originalmente na Collide Magazine

“O que significa ser criado à imagem de Deus?”

Esta foi a questão feita a mim por meu amigo Justin. Ele e sua esposa foram nos visitar um pouco antes de nos mudarmos para Seatle. Querendo aproveitar ao máximo o tempo durante sua breve visita, os levamos para um passeio em Deception Pass e na Ilha Whidbey. Justin e eu conversávamos no banco da frente de nossa minivan e, como sempre, sua mente afiada e curiosa nos levou a uma discussão enriquecedora.

Inicialmente, conversamos sobre algumas respostas para a questão que já ouvimos muitas vezes. Talvez essas sejam as respostas familiares para você também – ser criado à imagem de Deus é ser feito conforme o caráter de Deus, ter necessidade de relacionamentos, ter fome de coisas boas e corretas. No entanto, enquanto mergulhava no lindo cenário que passava pelas janelas, nossa conversa tomou outro rumo. Cheguei a uma constatação que nunca tinha me ocorrido antes: ser feito à imagem de Deus significa ser feito criativo.

Aquela descoberta se agarrou ao meu coração. Não importa quão ferido possamos estar, todo ser humano compartilha o desejo de dar e receber amor, compaixão, prazer e ter relacionamentos. Mas naquela tarde minha compreensão foi ampliada. Quem faz e cria coisas é um ser humano que está refletindo a imagem de Deus que habita em sua alma.

Você pode já ter entendido há muito tempo que ser criativo é exercitar a imagem de Deus dentro de si. Para mim, isso foi algo novo, importante e poderoso na maneira como via a natureza do trabalho criativo. Durante toda minha vida, fui considerado uma pessoa criativa. Na maior parte do tempo, isso me foi dito de forma positiva. Mas durante aquela conversa, esse rótulo deu um significado novo a como eu me via e qual era meu papel no Reino de Deus. Criativo não era apenas algo que eu era, mas algo que eu fui criado para ser. Mesmo que nunca tenham dito que você é criativo, saiba que você também foi feito para ser assim.

Alguns de vocês podem parar de ler agora e pensar: “Não sou criativo”! Talvez a única coisa que já criou tenha sido um cinzeiro deformado e bonecos de palitos (ou algo assim) nas aulas de arte quando criança. Mas você é criativo. Se você forma e expressa algum tipo de ideia – seja uma escultura, uma música, um sermão, um novo negócio ou até mesmo uma refeição deliciosa – está fazendo algo criativo.

Alguns são tão criativos ou até mesmo artísticos, que acabaram sufocando isso após ser taxados de excêntricos (ou problemáticos) porque atrapalham a vida de quem é “certinho”. Afinal, são eles que fazem as coisas acontecerem (talvez eu tenha exagerado um pouco, talvez não!). Muitas vezes, nos acomodamos na igreja ao crer que a função principal das atividades artísticas nos cultos deve ser a de comunicar o Evangelho. Na pior das hipóteses, o trabalho criativo é visto algo que aturamos porque é um meio de ilustrar a pregação.

A criatividade não deve servir meramente como uma expressão do evangelho. Levar outros a imaginar, sonhar, criar e realizar é convidá-los a viver segundo a imagem de Deus. Criatividade não é apenas uma expressão que fala sobre o Reino de Deus, é um ato do próprio Reino.
Ser criativo é recriar, reorganizar as peças da imagem distorcida do Criador. Gostaria de pensar com vocês algumas maneiras de como a prática da criatividade serve como demonstração do Reino de Deus.

Primeiramente, o trabalho criativo, quando devidamente entendido, toma a forma de esperança, de uma ânsia de descobrir o que Deus ainda tem para fazer em nossas vidas e em nosso mundo. Uma compreensão deficiente da criatividade como meio de expressão só tem raízes no dualismo. Em última análise, a criatividade vista desta forma serve apenas como um meio físico para um fim espiritual, de preferência uma ferramenta usada nesse mundo físico corrupto para a salvação das almas ou a promoção e o crescimento de nossas igrejas.

Enquanto os humanos interagem com o mundo criado por Deus, assumimos um papel ativo não só em demonstrar, mas também em estabelecer no presente algo do mundo renovado e recriado que teremos no futuro. O trabalho da criação, ou seja, fazer algo que ainda não existe, é um ato que antecipa como Deus irá restaurar o que foi danificado, habitando novamente com a humanidade.

Juntamente com a esperança de um futuro ainda não realizado, o trabalho criativo serve como um ato de amor no presente. A essência do trabalho criativo é um ato de doação de si mesmo.

E quando a criatividade é vista como esperança, reconhece que esse mundo não está condenado à completa destruição e ponto final. Teremos um recomeço, uma extinção da corrupção, uma recriação, quando novamente Deus vai unir o céu e a terra. A Bíblia começa com Deus andando entre humanos em um jardim, mas termina com Deus vivendo entre humanos em uma cidade. Será que algumas das nossas criações mais significativas e bonitas: artes, músicas, histórias, até mesmo arquitetura, terão lugar nessa terra renovada pela qual ansiamos?

Se esse é o caso, e eu penso que é, então nosso trabalho criativo está co-criando com Deus na expectativa desse dia de renovação final. Esse é um entendimento que temos lutado para manter na cultura ocidental.

O Criador foi o primeiro ser criativo, e o primeiro ato de criação foi uma expressão de amor. Enquanto pesquisava sobre criação para minha pós-graduação, fui surpreendido por uma visão compartilhada e que li repetidas vezes. Teólogos de todas as tradições continuavam a encontrar maneiras de afirmar que o trabalho de criação de Deus nasceu do amor. Aqui segue um exemplo do que encontrei:

“A criação do mundo foi o derramamento de amor gratuito do Deus Todo-Poderoso. O único Deus verdadeiro fez um mundo que foi além de si mesmo, porque é isso que o amor tem prazer em fazer” (N.T. Wright).

“Porque Deus é amor, Deus é autodoação. Porque Deus é autodoação, Deus voluntariamente criou o mundo” (Stanley Grenz).

“Mas confessar que Deus é criador é dizer mais. É dizer que o Deus livre e transcendente é generoso e acolhedor… O ato da criação é um ato ‘próprio’ de Deus. Ele expressa adequadamente o verdadeiro caráter de Deus, que é amor” (Daniel Migliore).

“É tão típico de Deus criar, imaginar todas as possibilidades e então efetivar uma delas. A criação é um ato de amor imaginativo” (Cornelius Plantinga Jr.).

“A solidão e a necessidade de Deus pelo outro é a começo da criação” (Dorothy Soelle).

Deus criou este mundo com uma explosão de amor. Desde então, cada ato criativo, em sua forma mais pura, é um ato de amor. É um presente para os outros, um convite para a vida e a bondade. Os traços de uma caneta, as pinceladas de tinta, o dedilhar de uma guitarra – qualquer ato de criação é uma parceira com Deus na recriação.

Independentemente de sua função ou título – pastor, líder de louvor, compositor, desenvolvedor de software, barista – oro para que você veja isso como um ato de trabalho criativo. A compulsão que sentimos para fazer algo novo vem do centro de nossa humanidade. Ela está chamando você a se doar para o benefício dos outros. E por isso é algo tão difícil, e algumas vezes podemos nos sentir bloqueados. Aquela parte do seu ser que está quebrada, que só quer se preocupar com a proteção do seu eu, está tentando impedir que seja quem Deus o criou para ser. Você carrega a imagem de Deus.

Que você seja um recriador, co-criador, um sonhador, um criador, um imaginador, um artista, um empreendedor, um agente de esperança em relação e ao céu e a terra renovados.

John Chandler é pastor da Igreja Mustard Seed e webdesigner. Saiba mais em www.byjohnchandler.com.  Ele também resmunga diariamente no Twitter como @johnchandler

Tradução: Liliana Xavier

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