Perfume de merda

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Kate Ganfeld em texto publicado originalmente na Vice Magazine

Adoramos gente que sabe se virar. Esperteza no trabalho é o nosso lema. Criar algo do nada. Indústria. E recentemente ouvimos falar de um inglês chamado Jammie Nicholas, que anda destilando sua bosta e transformando-a em perfume, o que, até onde sabemos, é a epítome do espírito empreendedor que tanto admiramos. Telefonamos para ele pra sacar melhor as notas de cocô.

Vice: E aí, cara. Conte um pouco sobre você.
Jammie:
O meu nome é Jammie. Nasci num hospital. Desde então, comecei a vender garrafas de perfumes feitas com os meus próprios excrementos a 80 dólares cada.

Quantos já vendeu até agora?
Vendi 25 das 85 garrafas que produzi.

Então, o seu perfume… como é que nasceu essa ideia?

Estava lendo um livro do Dominique Laporte, um autor francês, chamado The History of Shit, que analisa as implicações teóricas e sociais das fezes e o seu papel como material pra cosméticos. Nele, sugere-se que os cheiros agradáveis são usados para disfarçar maus cheiros, por isso pode-se deduzir que um mau cheiro possa ser utilizado para disfarçar um cheiro agradável.

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Mas isso não é óbvio demais pra se basear toda uma performance artística nesse pressuposto?
Eu fiz algumas pesquisas e falei com especialistas em perfumaria e cientistas que estudam os cheiros em níveis moleculares. Descobri que há moléculas comuns aos bons e aos maus cheiros. Por exemplo, o cheiro das fezes e os cheiro de muitas flores brancas—como as flores de laranjeira e o zimbro—provêm ambos da molécula Skatol. Simplesmente variam em concentração.

Puxa.
Sim. Algumas das empresas que produzem perfumes de luxo também produzem aromatizantes naturais que você pode encontrar em muitos alimentos comuns e, frequentemente, usam os mesmos ingredientes químicos sintéticos para produzir ambos. São só cópias sintéticas, mas em muitos dos alimentos que comemos diariamente existem químicos como a civeta, que imita as secreções anais dos gatos-almiscarados, e o âmbar cinza, que imita as pedras na vesícula das cachalotes. Depois há as imitações mais comuns das secreções de várias árvores.

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Como lidou com o cheiro quando criava essa “essência”?
Prendedores no nariz, janelas abertas e os meus colegas de casa estavam em outro país.

Ainda bem. Podia perguntar sobre o processo de destilação, mas isso é algo sem graça, não?
É. Basicamente, uso um monte de recipientes e tubos e no fim fico com frascos cheios de eau de merda.

Como decidiu que isso valia 80 dólares?
É o preço normal de um perfume daquele tamanho.

E o nome? ‘Surplus’ [‘Excedente’]. Como surgiu?
Não queria ser igual aos outros idiotas e traduzir alguma coisa do inglês para o francês só para parecer chique. ‘Surplus’ é uma palavra que existe em ambas as línguas e que nega as conotações românticas do francês.

Já usou seu perfume alguma vez?
Só em abertura de exposições.

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