Todos mariliense chora

Texto de Augusto Nunes publicado originalmente na Veja Online

O baixo clero da Câmara dos Deputados tomou de assalto o palco e a plateia
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Três vezes prefeito de Marília, deputado federal em segundo mandato, Abelardo Camarinha acaba de ser escolhido pelo Partido Socialista Brasileiro para representar a legenda no Conselho de Ética na Câmara. Confrontado por jornalistas com o buquê de processos que protagoniza no Supremo Tribunal Federal, o parlamentar delinquente ensinou que o problema não está no caráter que se tem, mas no cargo que se ocupa. “Se a Madre Tereza de Calcutá fosse prefeita”, garantiu, “também teria seis ou sete processos”.

O deputado Camarinha conseguiu ficar mais cínico que o prefeito Camarinha, confirma o vídeo gravado em dezembro. Engajado no exército em guerra por um indecoroso aumento salarial, o oficial do PSB paulista resumiu a discurseira em 24 segundos: “E eu faço um desafio aqui… o… o… o deputado não tem um padrão de vida dum… dum cidadão comum. Ele é padrinho de casamento, ele é padrinho de formatura, ele tem despesa extra, ele tem bases eleitorais, ele tem convites…”

Muitas outras coisas separam um pai-da-pátria de um brasileiro da planície. Ele também tem verba de gabinete, ele tem 14º salário, ele tem 15º salário, ele tem passagens aéreas de graça, ele tem auxílio-moradia, ele tem carro e combustível por conta dos pagadores de impostos, ele tem plano de saúde cinco estrelas, ele tem uma penca de empregos públicos a distribuir, ele tem negócios ou negociatas a fazer — ele tem, enfim, um vidaço.

E nem assim se sacia. Na última frase do falatório, Camarinha capricha na pose de flagelado a serviço da nação: “Então, eu duvido que se sobreviva com um salário de onze, doze mil reais”. Se pensa assim, deveria ter sugerido um aumento de 2.000% no salário mínimo. Nem apareceu para votar na sessão que aprovou os R$ 545 com os quais são obrigados a atravessar o mês quase 48 milhões de brasileiros comuns.

A Câmara da Era da Mediocridade é um viveiro de camarinhas — o que torna pouco surpreendente a ascensão ao comando da Mesa do petista gaúcho Marco Maia. Quem viu o Roda Viva desta segunda-feira compreendeu que o terceiro nome na linha de sucessão presidencial tem na cabeça coisas tão profundas que, na imagem de Nelson Rodrigues, uma formiga poderia atravessá-las com água pelas canelas. Marco Maia é uma perfeita tradução do Congresso destes trêfegos tempos.

Como registrou no fim do programa a jornalista Eliane Cantanhêde, uma instituição indispensável ao regime democrático hoje é presidida por um deputado do segundo time. Com uma agravante perturbadora: o primeiro time acabou. A Câmara já não tem cardeais. O baixo clero age no palco e aplaude na plateia.

dica da Leni Del Vechio

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