Como o Twitter turbinou a comunicação

Adaptado pela Agência Pavanews de um artigo publicado pelo El País

É um dia qualquer no Twitter. Uma avalanche de informação – pública e privada, relevante e acessória, séria e de brincadeira, transcendente e cotidiana, canalizada por amigos, celebridades, desconhecidos, empresas e meios de comunicação – toma conta da timeline de milhões de pessoas que têm um conta no microblog mais famoso da atualidade.

O Twitter completará seu 5° aniversário em julho  com 200 milhões de contas em todo o mundo e 130 milhões de tuitadas por dia. É um “momento dourado” para a rede social, popularizada entre o grande público graças aos famosos, mas que manteve o lado informativo, desempenhando um papel-chave em acontecimentos históricos como as recentes rebeliões nos países árabes.

Se o Facebook triunfou ao descobrir que na realidade os seres humanos se importam menos com a privacidade do que com as relações, o Twitter provou que as comunicações curtas e rápidas servem para quase tudo. Suas mensagens já não estão limitadas aos 140 caracteres originais. Se o que se deseja comunicar não cabe, recorre-se aos links, apontando para uma foto, um vídeo, uma reportagem ou um blog.

Quando alguém se inscreve nessa rede social começar a buscar conhecidos e a construir sua rede. Decide se quer apenas saber da vida cotidiana de jogadores de futebol ou cantores, falar com os amigos ou retransmitir diretamente alguma notícia que viu em algum órgão de imprensa.

O Twitter é cruel e mostra talvez melhor que nenhuma outra rede social as relações nuas visíveis como fios. Lady Gaga é seguida por 8,5 milhões de pessoas, enquanto milhares de anônimos não são seguidos por quase ninguém. São comuns as pessoas desconhecidas na rua mas celebridades da rede, jornalistas com mais ressonância que seus próprios meios ou os subordinados mais populares que seus chefes. No Twitter, se alguém se rodeia de pessoas interessantes, terá acesso a informações interessantes. E se disser algo relevante e ocupar a posição correta na rede, sua mensagem pode obter repercussão mundial instantânea. Como na própria vida, mas de uma forma infinitamente mais simples e veloz.

Algumas ideias tornam-se  populares imediatamente. São os chamados Trending Topics (TTs), que os usuários divulgam a toda velocidade: sua vida média é de 20 a 40 minutos, segundo estudo da HP.

A partir de sua publicação, praticamente todas as grandes notícias aparecem primeiro no Twitter. Algo impensável há cinco anos até para um de seus fundadores, Evan Williams, que já havia tomado parte em outro terremoto informativo anterior, criando nada mais nada menos que o Blogger, que vendeu ao Google em 2003. Williams pensou no Twitter como uma forma divertida de comunicação com família e amigos. Junto com Jack Dorsey e Biz Stone, o colocou no ar em questão de semanas. Aos poucos as pessoas descobriram que conversar ali era mais simples que em outros espaços como os comentários dos blogs. Aos poucos, para muitos usuários as Direct Messages (DM) estão substituindo inclusive o email.

“No começo, não estávamos conscientes de que a nossa conversa se tornaria tão pública, era quase um chat entre gente esquisita”, conta Marilín Gonzalo, diretora de conteúdos da rede de blogs Hipertextual e usuária pioneira. É dessa época o ar descontraído da rede e seu logotipo: um pássaro azul adquirido em um banco de imagens barato. De fato, tweet em inglês significa “piar”. Hoje, a empresa se leva muito a sério: seu objetivo é chegar ao bilhão de usuários, uma meta compartilhada com o Facebook. Alguns analistas financeiros calculam que a empresa já vale 10 bilhões de dólares.

Seu segredo é tornar-se imprescindível para os seus usuários. A primeira coisa que muitos fazem todas as manhãs é ligar o computador e olhar o Twitter, que fica minimizado durante todo o dia. Quando sai para a rua, o usa no celular, e antes de dormir, dá uma conferida.

Usuários e meios de comunicação ainda estão aprendendo que o Twitter é um depósito onde se misturam o público e o privado; onde verdade e mentira voam na mesma altura. As reputações se constroem ou se destroçam com rapidez. Há casos conhecidos de pessoas que perderam seus empregos por ter escrito alguma mensagem ofensiva ou de gosto duvidoso.

Twitter é hoje comunicação pública e não pode ser ignorado ou tratado de forma superficial. A viralidade do meio pode jogar a seu favor, mas também contra. A fascinação midiática que exerce é inegável. Os meios de comunicação cada vez mais prestam atenção no que as pessoas estão falando nas redes sociais. Não raro acabam tornando-se as manchetes de alguns jornais.

O humor, parte muito importante da experiência tuiteira, também corre muitos riscos de ser mal entendido ao ser postado. No Twitter, o contexto não é compartilhado, quem o coloca é o leitor. É fácil ocorrerem interpretações erradas ou surgirem polêmicas por conta de algumas tuitadas.

Surpreende o fato de que muitos políticos e celebridades usem o serviço pessoalmente. É a desintermediação da internet aplicada à fama, sem a mediação de empresários ou jornalistas. Para o bem e para o mal, o poder dos fãs é uma das forças ocultas que move o Twitter. A empresa calculou que 3% de seus servidores estavam dedicados ao ídolo canadense Justin Bieber. Tiveram que modificar o algarismo que detectava os temas quentes para que não aparecesse sempre neles. No dia em que cortou o cabelo perdeu 80.000 seguidores.

Mas não é apenas coisa de adolescente. Há escritores, intelectuais e governantes. Para todos eles, as vantagens são muitas: trata-se de uma ferramenta de marketing barata, efetiva e fácil de manipular. A desvantagem é que se arriscam a escutar o que não querem ouvir. Em seu telefone celular e em seu próprio bolso.

Nicholas Carr tem pesquisado até que ponto o nosso cérebro está sendo transformado por tecnologias como o Twitter, prejudicando a nossa capacidade de concentração e de reflexão. Ele defende que a internet está nos tornando idiotas. Outros pesquisadores argumentam exatamente o contrário, que a tecnologia nos obriga a evoluir como espécie. Em qualquer caso, essa ferramenta, reconhecem psicólogos como Steven Pinker, seduz o nosso cérebro graças à constante chegada de pacotes de informação. Nada o atrai mais do que as pequenas novidades. Atualizar. Ver mensagens novas. Atualizar. Olhar mensagens constantemente.

O segundo debate passou em pouco meses dos teóricos da rede aos telejornais. Pode o Twitter mudar o mundo, graças às suas portentosas capacidades para a comunicação? Há apenas um ano, a pergunta poderia provocar risos. Agora não. Quando a rede do Wikileaks foi inutilizada pela empresa que administrava o seu DNS, os usuários divulgaram em segundos para toda a rede os novos endereços. As ações do grupo de hackers Anonymous correm pelo Twitter como pólvora. A rede social tem sido fundamental para o renascer do ciberativismo, através de campanhas que usam o # para destacar um termo ou frase, as chamadas hashtags.

Um exemplo do poder revolucionário tuiteiro (inclusive sem Twitter) é a forma como a ativista Yoani Sánchez usa a rede em Cuba. Como não pode acessar a sua conta devido à censura na ilha, tuita às cegas do seu celular. Em troca, recebe SMS de todo o mundo, de seus mais de 100.000 seguidores. Eles a informaram, por exemplo, o que estava acontecendo na Líbia e no Egito. Depois, as notícias voam ao estilo cubano, em CDs ou USB. Nas rebeliões dos países árabes, o Twitter ajudou na organização dos ativistas e serviu como caixa de ressonância internacional de suas ações. Quando o ex-presidente Mubarak ordenou que desligassem a internet do país, usuários de todo o mundo ajudaram os egípcios a driblar a desconexão e o Twitter se aliou ao Google para criar um sistema que lhes permitisse tuitar através de uma chamada telefônica local.

“Nenhuma revolução é produzida pelo Twitter ou por qualquer outra tecnologia de comunicação, mas sem o Twitter e outras redes sociais essas revoluções não teriam a forma que têm, não teriam sido tão espontâneas, nem de difusão tão rápida, nem tão auto-organizadas de forma flexível e pouco controlável, sem partidos de vanguarda nem autoproclamados líderes”, explica o professor de sociologia Manuel Castells, uma autoridade nas relações entre comunicação e poder.

“Por isso eu as chamo de wikirevoluções (como Wikipedia), movimentos sociais autoproduzidos e auto-organizados, que se baseiam em redes horizontais de comunicação e confiança entre as pessoas, que começam no Twitter e no Facebook e terminam nas ruas e, quando é necessário, nas barricadas, como nos tempos heróicos. Mas para chegar às barricadas é preciso passar pela rede. Estas são as revoluções de nosso tempo, protagonizadas por jovens com os meios próprios de sua geração, as redes sociais”, conclui o professor espanhol.

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