Namoro santo


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Texto de Bety Orsini publicado originalmente em O Globo

Há quatro anos, a advogada Ana Maria desistiu das delícias do sexo. Aos 32 anos, ela já teve vários relacionamentos. Alguns duraram meses, outros, uma noite. Depois de muito investimento emocional em relações fadadas ao fracasso, ela decidiu fazer sexo só casada.

– A mulher sempre coloca um peso emocional enorme na possibilidade de um relacionamento para valer, o homem não.

Autora de “Por que os homens amam as mulheres poderosas?”, Sherry Argov afirma que a dificuldade valoriza o produto. “Quanto tempo você deve esperar antes de transar? O máximo que puder” – recomenda a best-seller americana.

Missionária da comunidade católica Canção Nova, Myrian Rios segue à risca essa recomendação. Há oito anos sem namorar, ela é uma das adeptas do namoro santo, ou seja, sexo agora só depois do casamento. Mas o que significa exatamente namoro santo?

– É quando a gente se sente atraído por alguém e começa a conhecer, sair junto, ter uma convivência saudável – explica Myrian. – Assim, o primeiro beijo acontece, o primeiro abraço… Mas o namoro santo não inclui a relação sexual. Muita gente me pergunta “E se deixar para depois do casamento e for ruim?”. Respondo uma coisa que aprendi na minha experiência como mulher: o beijo diz tudo. Se ele for bom, se bater aquela vontade de encontrar novamente… Então o sexo será maravilhoso.

Myrian lamenta que muitas mulheres insistam no relacionamento, mesmo quando o beijo não é bom.

– É muito difícil o sexo ser bom se o beijo não é – diz Myrian, que não impõe sua visão aos filhos Edmar, de 14 anos, e Pedro, de 9. – Edmar ainda não namorou, mas observa o comportamento dos amigos e diz que eles estão muito apressados. Outro dia, ele contou que foi à festa de uma colega e ela organizou uma fila para que todos os meninos a beijassem na boca. Depois, todos ficaram falando mal dela. Eu disse que não achava aquilo bom, nem por parte da menina, nem dos meninos. E ele concordou comigo. Não sei se meus filhos vão adotar o namoro santo, mas com certeza respeitarão as mulheres.

O sexo liberado dos anos 60 se exauriu, diz o psicólogo Sócrates Nolasco. Para ele, o sexo não é mais suficiente para manter uma relação.

– Hoje, se faz sexo sem culpa e com bastante facilidade, mas parece que não tem sido suficiente. Sexo fast food ou delivery viraram mercadorias consumidas por pessoas-objetos. E quando as pessoas se tornam objetos, nada dará certo mesmo. Tentar um retorno ao tradicional pode ser um recurso para saber se somos mais do que genitálias excitadas. Se o encontro não vale a pena, o sexo pode valer, mas tem data de validade.

O empresário Josvander Ferreira da Rocha, de 33 anos, concorda. Evangélico há 11 anos, quando entrou na igreja adotou seus princípios, entre eles o namoro santo.

– Não sou mais virgem e sei que não é fácil adotar essa postura. Mas abrir mão do sexo não é difícil só para os homens, para as mulheres também é.

Suzana, funcionária pública, namora há um ano um rapaz adepto do namoro santo radical e, durante todo esse tempo, ele não lhe deu um mísero beijo. E quando ela perguntou o motivo, ele respondeu apenas: “Não beijo porque esquenta lá embaixo”.

Como canta Rita Lee, amor sem sexo é amizade. A brincadeira é da psicanalista Ana Claudia Vaz. Ela diz que existe sempre um mal-entendido entre os sexos.

– Seria esse adiamento do sexo um certo horror frente ao desencontro da relação sexual? O prolongamento do namoro associado à perspectiva do casamento parece caminhar na direção contrária das relações descartáveis, de curto prazo e instantâneas que vemos acontecer a cada vibe da chamada modernidade.

Ana Claudia lembra que amar é uma habilidade que encontra variações na cultura, nos padrões sociais e nas invenções humanas. E diz que é no mínimo curioso esse retorno ao namoro casto.

– Que promessa carregaria tal conduta? A garantia? O sucesso do encontro? Na busca pelo amor de um homem há um grande investimento da mulher, como se ela fosse encontrar algo de muito valor ao ser amada por aquele que acredita ter alguma coisa a lhe dar. O que pedem as mulheres com as suas demandas? Esta seria uma nova roupagem dos seus inúmeros pedidos? Homens querem sexo e a mulher quer amor. Essa máxima, como qualquer generalização pode ser encobridora e perniciosa – analisa Claudia, lembrando que, assim como o amor, a mulher não se deixa decifrar totalmente.

A bela dentista Fernanda Santos Oliveira, 29 anos, também optou pela castidade. Virgem até hoje, ela diz que não tem vergonha e nem esconde de ninguém sua opção.

– Mas não ando por aí falando sobre isso, vida sexual é coisa íntima. Meus amigos sabem e respeitam, assim como eu respeito a opção deles de ter vários parceiros. Sei que não é fácil, estudei na faculdade de medicina, com muitas festas e gente bonita. É claro que existe tesão e desejo, mas nunca mudei de ideia.

E se alguém lhe pergunta o que ela fará se depois do casamento o sexo não for bom, ela responde.

– Como nunca experimentei, não tenho parâmetros para dizer o que é bom. Nem meu futuro marido, que também fez essa opção. Por isso, sempre seremos únicos e especiais um para o outro, ninguém vai ficar comparando nada.

Livia Garcia Roza, psicanalista e escritora, acha que hoje a exigência de fazer sexo apenas depois do casamento “só pode partir de uma exigência religiosa, sobretudo dos evangélicos fundamentalistas, já que o desejo não tem data certa.” Maria Cristina, de 32 anos, discorda. Diz que casou virgem por opção pessoal.

– Minhas avós, minha mãe e minhas tias casaram virgens, assim tomei a decisão de me manter pura até o casamento. Sempre achei bonita a ideia de encontrar uma pessoa que tivesse uma relação onde o amor fosse muito além do desejo. Para mim, o casamento representa essa relação de amor com honestidade, fidelidade, cumplicidade e exclusividade.

Para Maria Cristina, só o fato de estar dentro de uma igreja não significa que uma pessoa vá se casar virgem.

– Tenho amigas e pessoas ligadas a igrejas que não se casaram virgens. Acho que cada um de nós toma a sua decisão e ela deve ser respeitada. Mas no mundo em que vivemos, com grande apelo sexual, casar virgem é diferente. É quase impossível para uma pessoa colocar sua opinião sobre namoro casto sem ser atacada. O assunto vira motivo de deboche. Por isso não gosto de discutir minha decisão em público.

E conta que, depois de dois anos de casada, tem certeza que tomou o caminho certo:

– Eu e meu marido vivemos a relação que sempre desejamos, estamos nos descobrindo a cada dia.

Bonita, assediada, a modelo e estudante de jornalismo Aiana Soares Santos do Nascimento, 23 anos, Miss Estado do Rio 2007, não pensa em mudar de ideia.

– Sempre fui firme nesse meu propósito, sei que os frutos que eu vou colher serão muito melhores do que um prazer momentâneo. A maioria dos meus amigos lida bem com o meu posicionamento mas reconheço que alguns ainda se impressionam, mas isso não me abala.

É possível levar uma vida serena dispensando o sexo? A recepcionista Rosangela Maria diz que sim.

– Fui uma mulher de muitos parceiros, mas parei. Não sou religiosa, mas tenho amigas que são, e sinto que elas ficaram muito mais felizes depois que decidiram guardar seu corpo para alguém que tenha amor de verdade – explica Rosangela, que não faz sexo há cinco anos.

Lembrando que a castidade sempre foi considerada sinônimo de santidade, o escritor e psicanalista Carlos Eduardo Leal diz que a santa sabedoria dos clérigos, padres e pastores disso muito se aproveita para angariar fieis mas que, no entanto, a fidelidade a Deus sempre teve um preço muito alto a pagar.

E cita Freud, que afirmava que a punição espera pelo desobediente, dando como exemplo na História, o casal Abelardo e Heloisa, entre tantos outros que sentiram o peso da desobediência.

– Mas, e hoje? Por que a virgindade até ao altar voltou a ser tão propalada entre as meninas? A Igreja Católica sempre fechou os olhos para muitas coisas, inclusive, todos sabemos, para os padres, seus “meninos” e as freiras. No refúgio do claustro, muitas aventuras acontecem. Já os evangélicos subiram o tom do radicalismo e, em nome de Jesus, fazem do corpo um lugar sagrado para um único homem. Porém, o tabu da virgindade nunca conseguiu evitar o calor das pulsões no corpo ardente dos hormônios em ebulição dos jovens. Temor e tremor parecem continuar funcionando, mas em alguns casos só na aparência ou apenas na última fronteira a ser cruzada, rompida.

Para Leal, o valor simbólico do hímen continua sendo muito alto: ato consagrado a Deus.

– Mas em todo caso, como não é preciso mais colocar um lençol branco manchado de sangue nas janelas, nunca se sabe o que ocorre por debaixo dos panos. Tem gente que, ao contrário do ditado, põe a sua mão no fogo e adora. Mas, isso é segredo.

dica do Fabio Pereira

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