Os recentes desastres naturais levantam questões teológicas sobre o sentido do sofrimento

Texto de Mitchell Landsberg publicado originalmente no Los Angeles Times

Opiniões sobre o sofrimento humano causado por esses eventos são divergentes entre crenças

“Que coisas têm feito Deus?”. Na Bíblia, essa é uma exclamação, não uma pergunta (Números 23:23). Ainda assim, é uma resposta comum para qualquer desastre natural, especialmente os da magnitude do recente terremoto e tsunami no Japão, agravados com a possibilidade de uma crise nuclear.

Se existe um Deus, e se ele (como se crê) é todo-poderoso, afinal de contas, no que estava pensando?

Talvez essa seja a mais antiga das questões teológicas – a única que poderia explicar o desejo humano quase universal pela fé. Por isso, o psicólogo evolucionista Jesse Bering a chama de “o instinto da crença”. Como podemos explicar o inexplicável? Como podemos dar sentido ao sofrimento?

Os ateus dizem que podem explicar as complexidades da vida usando apenas a ciência. Logo, não há sentido no sofrimento. Essas coisas apenas acontecem e devemos fazer o nosso melhor para aliviá-lo.

Monoteístas veem a questão de maneira um pouco diferente. A fé oferece respostas, ainda que muitas vezes seja a insatisfatória: “É um mistério”. Mas há pouco consenso entre os fiéis.

Nos dias seguintes ao terremoto de 9 graus no Japão, alguns viram a mão punitiva de Deus. Outros viram um sinal do fim dos tempos, a vinda do apocalipse bíblico. Há quem tenha visto apenas um terremoto.

Glenn Beck, conhecido político e apresentador de TV norte-americano, afirmou: “Não estou dizendo que Deus está causando terremotos”, mas disse também “não estou negando isso”.

“Quer você chame isso de Gaia, ou de Jesus, há uma mensagem sendo enviada”, disse Beck, que é mórmon. “Ela é: ‘Você sabe aquelas coisas que estamos fazendo? Não as planejamos muito bem’.”

O governador da província de Tóquio, Shintaro Ishihara, foi obrigado a pedir desculpas quando disse após o terremoto que a cultura japonesa foi “contaminada com o egoísmo e o populismo”, gerando tembatsu, ou seja, castigo divino.

Os teólogos dizem que essas observações refletem um desejo natural do ser humano de explicar um desastre cuja força e intensidade são difíceis de se compreender. Porém, muitos estudiosos cristãos, judeus e de outras tradições discordam profundamente que o tremor possa ser explicado pela “doutrina da retribuição”. Ou seja, a ideia de que Deus pune o mal no mundo.

“Creio que é uma reação comum, automática, quase instintiva”, disse Warren McWilliams, pastor batista e professor na Universidade Batista de Oklahoma. “O perigo, penso eu, está em andar para trás – passando do efeito à causa. É o que chamo de ‘raciocínio dos amigos de Jó’.” Ele faz referência à figura bíblica cujo julgamento divino ajudou a criar o arquétipo da boa pessoa que é forçada a suportar um inexplicável sofrimento.

“Enquanto Jó prosperou, os amigos pensavam que ele era bom”, disse McWilliams. “No momento em que passou a sofrer, pensaram que devia existir algum pecado na vida dele.” Quando o furacão Katrina passou pelos EUA, “muitos cristãos conservadores disseram que New Orleans é uma cidade cheia de pecado e por isso Deus a julgou. Não acho que é o meu papel fazer esse julgamento. Essa é uma maneira perigosamente simplista de tratar uma situação tão complexa”.

A Bíblia está cheia de exemplos de castigo divino: o dilúvio de Noé ou as pragas que afligiram os egípcios. Jesus também falou sobre terremotos (Mateus 24:7-8), chamando-os de “dores de parto” antes do fim do mundo.

Professor de teologia da Universidade Biola e pastor da Grace Evangelical Free Church, Erik Thoennes disse que acredita que a iniquidade humana, de fato, tem um papel em desastres naturais. Mas não quer colocar a culpa sobre os japoneses. “Deus está julgando o Japão?”, ele perguntou. “Bem, não mais do que julgando a mim”. O pastor acrescentou que eventos como o terremoto japonês podem aproximar as pessoas de Deus. Esse tipo de catástrofe “nos chama a repensar as grandes questões da vida”, finaliza.

O tailandês Siroj Sorajjakool, professor de psicologia religiosa e de aconselhamento da Universidade Loma Linda, já escreveu sobre a resposta religiosa ao tsunami que atingiu partes da Ásia em 2004. Ele explica que as diferentes crenças têm maneiras divergentes de lidar com o desastre.

A explicação budista é resumida assim: “As pessoas morrem, a vida não é permanente. Você não pode controlá-la, então tem que deixar acontecer”. Já o cristianismo, disse ele, “tem maiores desafios em lidar com esse tipo de pergunta”. Sendo adventista do sétimo dia, diz que prefere não pensar no que não pode ser respondido.

“O desafio não é entender como Deus faz todas estas coisas acontecerem. Nosso desafio é se, em um mundo onde as coisas ruins acontecem, os cristãos podem manter a esperança e continuar a praticar a compaixão”, questiona o professor.

Esse é quase o mesmo tipo de raciocínio teológico da rabina Julie Schonfeld, vice-presidente da Assembléia Rabínica, uma organização de rabinos judeus conservadores. Ela não tem dúvidas de que Deus criou o mundo, mas isso não é micro gerenciamento. Ela resume seu ponto de vista afirmando: “Vivo em um mundo real, de ciência e tecnologia. Sabemos que essas coisas acontecem e somos gratos por elas. Conforme a teologia judaica tem evoluído, passou a se concentrar mais no que as pessoas podem fazer para ajudar umas às outras”. Tendo isso em mente, ela disse que a imagem do terremoto que mais a impressionou não foi a de uma devastação sem fim. Para ela, o impacto maior foi ver “esses trabalhadores que ficaram junto ao reator. Que heróis! Para mim, essa é uma formidável imagem provocativa da fé”. Isso nos mostra, segundo ela, “que as pessoas têm um conceito que existe algo maior que suas próprias vidas, pelo qual estão dispostas a se dedicar e se sacrificar.”

Tradução: Agência Pavanews

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