Metades


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Helena Beatriz Pacitti

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“Porque metade de mim é amor, e a outra metade… também.
Ferreira Gullar

Se alguém me perguntar sobre líderes políticos que me impressionam, vou citar dois nomes.  Ícones religiosos que me inspiram? Um ou dois, no máximo.  Artistas plásticos e músicos? Cinco ou seis.

Mas, se me perguntarem sobre professores, vou citar muitos deles, nominalmente.

Lucia Biondo, no primário.  Edith Chiurco, que me apresentou aos primeiros textos.  Rosemary Montessanti: a lingua portuguesa e  o prazer do teatro.  Eduardo Marcondes: Medicina e Pediatria.  Henrique Paraventi: obstetrícia. Edith Kielgast, piano.  Álvaro Zimmerman, cuja delicadeza me fez perder o medo antigo da Álgebra.

Ubaldo Luiz de Oliveira, que durante um ano inteirinho de colégio me chamou à frente da turma, para ao final de cada aula descrever verbalmente a análise sintática de uma frase ou oração. Aprendi com ele o valor de cada palavra, seu peso, textura e significado; e a não me importar sobre o que os outros pensassem da minha solitária figura ao lado do quadro negro.

Manoel Jacobsen, neurologista que me ensinou muito mais sobre humildade e coragem do que qualquer pregador religioso, além de médico excepcional. José Ribeiro Ratto, advogado e amigo de papai, que me ajudou a escrever meu primeiro discurso. E a leitura do discurso, e também a impostação!!

De alguns não me recordo o sobrenome, mas seus rostos estão vívidos na memória: Hebe, professora de ciências. Olavo, professor de inglês e grande incentivador da minha auto-estima. Tia Mafalda, que me levava às aulas de yôga, e que me ensinou a comer macarrão como uma legítima italiana.

Dr. Kleber, maravilhoso cirurgião pediátrico carioca, que atendia pessoas sem nenhuma condição financeira e recebia seus honorários em forma de cachos de bananas, doces caseiros e outros agrados simbólicos.

Todos eles, além de professores, foram verdadeiros amigos.  Alguns chegaram a exercer papel de conselheiros em momentos especiais (hoje fico pensando onde é que eu arranjava tamanha cara-de pau para ligar para seus telefones particulares e pedir atenção!).  O Eduardo Marcondes, por exemplo, que era ocupadíssimo, mandava-me flores e uma carta manuscrita a cada data significativa: formatura do ginásio (havíamos estudado – feliz coincidência! – no mesmo colégio), no meu aniversário de 15 anos,  por ocasião do ingresso na faculdade de Medicina (foi ele quem me indicou o curso na Paulista, sua “Escolinha do coração”, como ele dizia)… Tantas lições, tanta sabedoria!

Ensinaram-me sobre o tesouro do que é buscar, por si mesmo, o conhecimento, sobre a construção da auto-estima, sobre a leveza de perder vergonhas desnecessárias, sobre falar em público com naturalidade, sobre o ser simples, sobre a necessidade da verdadeira contemplação, sobre a compaixão…

Professores, ao lado dos meus avós e pais, foram as pessoas que mais me influenciaram positivamente. Devo eterna gratidão a eles, não exatamente pelo conteúdo técnico transmitido, mas pelo exemplo vivo de desprendimento e amor.

Outro dia, quando escrevi sobre vilões, Mario sugeriu que eu também deveria lembrar dos meus heróis.

Ele está certo, já que parte da nossa razão de viver são os afetos e relacionamentos presentes – nossa metade de amor.

A outra metade?  “Também é amor” – costurado e entretecido com fios, retalhos e pequenas lembranças desses mestres que aprendemos, afinal, a amar com admiração e encantamento.

fonte: Timilique!

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